domingo, 7 de junho de 2026

Quando quase nada faz sentido

 Vou deitar em posição fetal nesta página de letras miúdas e vocabulário rebuscado da minha vida que eu não consegui interpretar ainda. É aqui que me faço protagonista da minha vida. De uma vida de escolhas que saberei acertadas sabe se lá quando e se um dia. 

Relativizar faz-se a palavra da vez, mais uma vez. Relacionar é que me parece não ter lugar, por sua vez. É relativo que seja minha a responsabilidade pelas perdas nas relações. E é relativo que a perda seja um dano.

O cansaço é das relações. É de acreditar fazer o certo e cair na armadilha do julgamento alheio. Hoje, jogo a toalha. Amanhã é certo que volto a usá-la ela para enxugar as lágrimas e seguir tentando. É relativo quando se dará esse amanhã.

A decepção é a morte da esperança. Mas é relativo  que haja necessidade de esperançar todas as quedas. 

A sabedoria está em não relativizar todas as coisas. E eu não quero nunca relativizar o amor.

A morte endossou mais uma vez o que penso sobre o amor. Eu amo de verdade quando não estabeleço condições pra amar. Não é preciso função social definida para se amar alguém. Não é necessário estar engessado em nenhum status quo. Não se demanda a permissão do outro para se amar. 

Então, você que não me ama, que não me ama mais, que nunca me amou de verdade, eu não preciso da sua permissão para amar você. Eu amo porque sim. E você não pode fazer nada em relação a isso. Provavelmente nem eu. Isso é triste? É relativo. 

Hoje escrevo sem roteiro? É relativo, porque depende de quem me lê, de quem lê meu escrito, de quem se vê coadjuvante desse enredo torto da minha vida. 

O que não quero mais relativizar são as injúrias, as desconsiderações, as omissões e os pretextos covardes. Esses me parecem absolutos. E contra isso a única coisa que me parece possivel é o nada, também absoluto. Silencioso. A inércia da vontade. A indiferença do desejo. Que nada tem a ver com a falta de amor. Porque eu amo como ato de resistência. E eu resisto há anos. Sou boa nisso.

sábado, 11 de abril de 2026

Inventário do invisível

Os últimos 365 dias foram, sem sombra de dúvida, de fortalecimento, reciclagem e resgate. Foi reformulando conexões e demolindo ilusões que libertei a alma do cativeiro insalubre de velhas convicções. 

É difícil reconhecer que se tem mais tempo vivido do que tempo a se viver. Por outro lado, é mais fácil viver o que resta em chão firme que debaixo de um teto prestes a desmoronar. É duro reconhecer que certos ciclos podem e devem ser encerrados. É mais fácil reciclar vivências. Sem radicalismo, sem dramalhão, apenas aceitando o fluxo natural da vida.

Ao reaver a esperança trazida pela espiritualidade resgatada, pude reconhecer a garoa de ânimo trazida por vínculos renovados e as rajadas de alegria entregues pela força brutal das novas amizades.

Essas pessoas chegam sem fazer estardalhaço, mas causando grandes mudanças. É uma mescla de sensações de sentido e lógica, como a brisa refrescante que sopra fininha em dias de sol quente.

Algumas dessas pessoas ainda nem sabem que nasceram em mim. Desavisadas, seguem tímidas, margeando minhas dores e aplaudindo de longe minhas vitórias, que eu sei. Igualmente valorosas têm a liberdade do arbítrio. 

Antigas, novas ou possíveis conexões têm em comum o barulhinho bom que fazem. Aquele que regula, como o da chuva em dias de descanso. 

E assim a vida segue em esquetes de paradoxos. 

Do pesar de quem parte, porque não se sustentou ou porque sim. Do alívio de quem chega para iluminar com seus sorrisos e presença intermitente, compatível com minha missão demandante.

São pessoas que sabem que odeio atender ao telefone, mas nunca deixam de tentar.

Sabem que sempre amei aniversariar, sempre fiz questão de comemorar, mas este ano não!

Obrigada a você que se foi sem se doer e a você que chegou pra pertencer.

Deus me livre de perder a fé na humanidade! Nem em discurso raso. Eu não !

quarta-feira, 4 de março de 2026

Só por hoje

Desde que me levantei às três horas da manhã da segunda-feira e olhei para o telhado da casa em que você não dormirá nunca mais, soube que em algum momento precisaria regurgitar mais um texto piegas para me desintoxicar dessa bile amarga da vida. 

Acho que a gente tinha se separado há pouco mais de dois anos, quando você me pediu que eu escrevesse um texto para você. Relendo esse texto, pensei em como seria exaustivo criar por você hoje. Deixo então, logo após iniciar uma reforma íntima de sentimentos e convicções, aquele texto reformado. Só por hoje deixo aqui registrado o que daquele enredo ficou, já que há coisas que sempre são. O que não cabe mais, apago sem culpa. 

Só por hoje, quero despender energia com o que desejo fazer. Quero poder, como você, fazer na vida somente o que tenho vontade. E adivinha? Sou tão privilegiada que o que quero fazer é exatamente o que preciso - cuidar da nossa filha. Das minhas filhas. 

Engulamos então, você e eu, esse mexidão de palavras e sensações:

Você é meu maior paradoxo.

Sem dúvidas. 

Gosto nem de lembrar da nossa casa cheirando a fritura toda semana. Nem dos palitos de dentes boiando no azeite nos pratos onde jaziam porções de queijo e orégano para acompanhar as intermináveis saideiras também semanais.

 Consigo repetir as mesmas palavras que você usava para implicar com a chave que, segundo você, nunca estava na posição certa no bojo da porta da sala. Solto um suspiro aliviado por não precisar mais limpar o restinho de condicionador que ficava ao redor da tampa para evitar ouvir você reclamar. E hoje faço questão de apertar o tubo da pasta de dentes bem no meio dela. 

Da overdose de "farra e foguete " à abstinência de cinema e rock'n roll, hoje são apenas narrativas do passado.

Por outro lado, não poderia imaginar minha vida sem sua presença. Sem a intimidade e cumplicidade de quem já passou os melhores e piores momentos da vida juntos. Sem ouvir suas piadas plagiadas ou repaginadas. Sem rir da sua versão "palhacistica" para momentos nada engraçados da vida. Sem receber uma mensagem para pedir um conselho, um ombro ou contar uma novidade. 

Na verdade, você é um ensaio da prática das melhores teorias sobre o que deve ficar de uma relação passional que chega ao fim: o fim da relação passional. Apenas isso. E, por conseguinte, a continuidade de todo o resto. A perenidade dos laços consolidados.

Sua parceria ilustra um pouco o que penso sobre a legitimidade das relações humanas. Você embarcou comigo na desconstrução do papel exclusivamente social das relações afetivas de natureza conjugal. 

Só por hoje, não haverá brinde a você. O excesso de brindes te levou para longe das celebrações pela vida, sua família, sua filha, os sonhados 15 anos, dia dos pais, natais que ela sempre amou, formaturas.

Só por hoje, porque na vida, a gente não faz só o que quer. Faz o que precisa. E isso é paradoxalmente a maior liberdade que podemos alcançar na vida. Estar livre do que nos aprisiona.

Você foi meu maior paradoxo. Afeto, revolta, saudade, decepção, compaixão.

Desço o pano desse espetáculo sem graça, enquanto guardo o sono forçado da nossa menina.

Faça sua parte e guarde também. 

Fique bem e finalmente em paz.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Manjericão, polenta e pergolado.

 Que gosto será que tem o seu beijo ?

 Será que mordisca o lábio inferior e em que ritmo será que movimenta a mandíbula? Gostaria só de saber de ouvir falar, nem sonho alto em ter amostra grátis desse evento. Até a possibilidade de uma conversa em que eu possa confessar minha curiosidade luxuriosa é uma utopia que de tão cruel se faz um adjetivo qualquer que ilustre sinceridade, desejo e devoção.

Imputada em uma função social que me permite ser completamente atravessada pelo seu magnetismo e pela força colossal que você é, sigo por aqui, te ouvindo e te olhando, bem de pertinho. Ouvindo sua risada rasgando o som ambiente e exigindo que a natureza se renda a sua humanidade imperfeita e suficiente.

A incompletude da nossa relação é ao mesmo tempo castigo e redenção. Por meio do respeito que eu lhe devo, assino todos os dias uma promissória que acredito, nunca vou resgatar. Ainda assim, me encho de uma esperança pueril de que algum dia seja ela protestada ou que você me execute e acabe logo com essa vontade de um sei lá o quê que nunca vivi.

Caso contrário, sigamos assim, com nosso afeto real, ainda que ambíguo de minha parte, e que nem por isso tira dele sua legitimidade. Com sua ignorância providencial sobre o sentimento inédito que plantou em mim. Com a resignação de ser grata por poder te ter integralmente para mim, quando trocamos nossa juras - por vezes veladas- de amizade eterna.

Que a cor dos seu olhos continue a encontrar a alegria dos meus ao estar com você. E que eu continue sendo mastigada pelos mesmos dentes que rasgam meu juízo e depois se arranjam em um sorriso que me faz pensar outra vez:

Que gosto será que tem o seu beijo ?

domingo, 29 de junho de 2025

Água que não leva

Sábado à noite. Lavei o chão da sala. Música, água e sabão. Abaixei para torcer o pano e vi meu reflexo no fundo do balde que já desejei chutar mil vezes. Era uma silhueta escura apenas. Olhei e pensei, sem motivo aparente, que eu não sabia dizer quem eu era. Quem fui até aqui. Nem ao menos quem eu gostaria de me tornar. Não sabia mesmo me descrever. Vai ver nunca tenha existido um "eu" legítimo. Talvez uma mulher nunca seja algo além uma mescla de gente que precise apoiar e acompanhar ao longo da vida. Uma mistura de "só tenho que" com " quem sabe amanhã " tão homogênea que se passa pela pureza de uma substância que dá o sentido da existência real de um ser. Ser forjado culturalmente para servir, ainda hoje caio nas armadilhas desse engodo que romantiza a exploração de maneira tão sutil, velada, encoberta, disfarçada, dissimulada que deixa na palavra de protesto um gosto amargo de culpa por apenas não querer mais ser. E como é solitário assumir a dureza dessa verdade e ao mesmo tempo não se dar em rendição por amor. Não o próprio, que para isso teria que me reconhecer. A questão é que esse amor não garante o mesmo amparo e companhia que oferece quando a conta da subserviência chega. O saldo é geracional e, por tanto, não quita a dívida que provavelmente ficará para outra mulher forte, independente afetuosa, resiliente e exausta. Mas o que importa é que a casa está limpa e posso andar descalça sem sujar os pés. 

sábado, 26 de abril de 2025

Mais sobre a saudade

Sinto saudades homéricas de momentos revistados por meio de fotografias tiradas de maneira quase irresponsável. Mas como prever que os registros pudessem provocar um misto de "não sei o quê" com "quem me dera".  Sinto falta da ignorância de quem não havia ainda experimentado a descrença como acometimento e não mais como mero sintoma. A patologia degenerativa, progressiva e irreversível. O castigo de quem já viveu o suficiente para saber que daqui em diante qualquer encontro é tratamento paliativo da luta desesperada por alívio e um pouco de qualidade de (não) vida. Porque viver vai longe dessa obsessão de organizar palavras na mente e despejar em uma tela que simboliza o único brilho possível de ser refletido nos olhos órfãos de quem ainda se considera filha de um Deus que não tem certeza se já conheceu. 


sábado, 9 de novembro de 2024

Ninguém está imune

Em um minuto, em quase imperceptíveis frações de segundo, o portal magicamente real do que se acredita sobre o viver, te suga para um lugar que ninguém sabe bem onde é . Então, o bem se confunde mal; a saúde se traveste adoecida; a lucidez se converte; a lealdade se cansa e trai. 

Do outro lado, sem saber  calcular o quanto já caminhou, você segue urdindo a linha do tempo que também mal se sabe quem começou. Continua tecendo o ponto cruz que cada um precisa carregar e que talvez, apenas talvez, seja mesmo sua.

Ninguém está imune.

O vírus que vem sempre em larga escala, provoca uma epidemia de nostalgias e salpica a vida com grandes saudades e alguma solidão não mensurável, porque, né, a gente não se especializou na gente mesmo. E então, imunizado de si mesmo quer se embriagar do outro. É claro que não ia dar certo.

Ninguém está imune.

Côncavo ou convexo, na reta final, todo mundo se vê refletido no espelho.  A gente se enxerga  sem querer ver. Mas os olhos da alma não tem como cerrar. E, por isso, às vezes, a gente aperta os olhos para embaçar o que está bem ali, nua, sem pudor, e crua, sem sabor - a verdade que sussurra:

Ninguém está imune a nada; nunca !

sábado, 26 de outubro de 2024

Lentes divergentes (para corrigir a miopia)

Sua escrita pífia é restrita a um lamento piegas de quem se sabe responsável por sua própria existência e que conclui, resoluta, ser ela uma coletânea de grandes desilusões e pequenos fracassos.

Sempre numa busca velada por reconhecimento intelectual, é uma pensadora (do simples ato de processar ideias, mesmo) que tem um talento que se restringe  em saber requentar palavras em frases de efeito reformadas por suas péssimas escolhas. Resignada, percebe-se momentaneamente despida de sua mortalha feita de sonhos tímidos e incompetentes,  defronte ao seu espelho julgador. 

Cínica arrependida, não acredita que haja tempo e busca um pretexto que a distraia dessa certeza tão sincera quanto dura, enquanto sente, por alguns segundos, abençoadamente enganada por uma narrativa mundana espiritualizada disfarçada de (mais uma) chance. Carrega a calma dos desiludidos como escudo e empunha a espada dos sentimentos adormecidos, para afastar os maus espíritos.

Esforçada, empenha-se em crer e fazer crer os que lhe são caros, para sua redenção não literal.

Deseja, resumidamente e acima de tudo, o conforto do bom final, pelo que torce que se demore, para que assista a história fazer sentido, afinal de contas,  viver é maravilhoso e um encantador jargão existencial.

terça-feira, 29 de junho de 2021

Ei, você !

Ô, menina, que pena ver você ser assim passada pra trás pelo seu próprio espelho. Se achando o centro do mundo do outro, cega, iludida e melancólica. De uma melancolia tão carente de compreensão, que se defende com a agressividade do órfão abandonado. Arrogância disfarçada de autonomia.

Escuta, moça, deixa eu te contar,  prepotência e autossuficiência só têm em comum a tonicidade das palavras. Já o tônus da vida é reconhecer-se interdependente nas relações que cultiva. Dizer-se conectada  e solidária às pessoas pela empatia, desde que estejam longe e não possam te afrontar, te testar e te tirar do eixo, nunca passou apenas de repertório para suas redes sociais. 

Vem cá, mulher, por que não experimenta a paz que mora nos bastidores dos sentimentos mais simples? Na humildade da autocrítica? Na desafetação? Reconhecer-se ser inacabado é sapiência. Produza o que te alimenta a alma, sem se considerar menos capaz por depender da luminosidade alheia. Estamos todos ao redor do sol, ele não mora no seu umbigo. Deixe que essa ideia te aqueça. E pare de queimar a língua.

domingo, 20 de junho de 2021

Refluxo

Vem das vísceras, o chamado da minha consciência.

O que machuca meu coração dói no meu estômago. 

Por isso quase nunca choro. O que transborda em mim é a bile que me regula e desintoxica. Prefiro a possibilidade de dias amargos que uma história azeda. 

O que busco é o quinto sabor da vida, respeitando meu  sexto sentido, pra não correr o risco de me deixar em segundo plano.

Para digerir certas verdades, as vezes é preciso nausear as incertezas. 

É que coragem requer estômago! 


quarta-feira, 17 de março de 2021

O segundo que fraciona o inteiro

 A gente pisca e o mundo muda.


O sorriso amarela.

A expressão congela.

A paixão aferrece.

O plano se esquece.

A esperança suspende.

A confiança arrepende.


A gente fica na palavra muda.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

E fim


Por que ama esse ser comum? De vontades vulgares e pensamentos também ordinários?


Como foi que o desejo pelo insólito deu lugar à resignação por dias de ambições inócuas?


Mostra a si mesmo a explicação para cessar a busca pelo que lhe afaga , oferece conforto e alimenta sua alma de orgulho.


Assim foi que dia desses interpelou a razão assoberbada de  jamais ao coração desarranjado  de tanto quase.


Ele, de rima pobre com seu paradoxo por mera ironia da língua, travestiu - se da força do seu simbólico e respondeu, sem hesitar, com a simplicidade que tem tudo que é força.


Eu fibrilo e palpita você tanto engano e egoísmo ! Se eu amasse intentando pecúlios, a estima seria por mim e não pelo ser amado.


Você cobiça com um fim. Objetiva  e condiciona, acreditando  ser amor.


Quando é amor a gente "não é resposta".


Por isso  eu amo porque sim.


quinta-feira, 16 de julho de 2020

"Vergonha é roubar e não poder carregar" - como diria a imagem que tenho da minha avó..

Que preguiça de você com essa ideia careta e fora de moda de que para ser cool tem que ser reservado!

Que pena que eu sinto de quem não consegue expor  conquistas ,  divulgar elogios e fazer mala direta do amor.

Quem não gosta de uma emoção descarada, de uma história bem contada e de uma declaração acalorada?

A moça tá lá zombando da foto  e vociferando "que brega", enquanto de lá ele pensa "que dó ".

É que o moço  sabe bem que nas horas mais solitárias e de lealdade máxima por si mesma, o que ela deseja é a ingenuidade dos planos para o futuro, a imaturidade do apelido  piegas e a cafonice do amor revelado nas redes sociais.

Porque os momentos são virtualmente remotos e o fim é inevitável e real.




sábado, 4 de julho de 2020

Nome pessoal e pronome próprio (e vice-versa)

Agora Ella se sentia tão sem rumo, tão perdida, tão sem lugar que só queria poder  dormir por horas e horas. Talvez fosse a inconsciência mandando pequenas pistas de que mais uma batalha vinha pela frente e que ela precisava se preparar.

Ella, que esteve em paz por um bom tempo, havia optado pela guerra. Mesmo com todos os alertas sussurrantes, ela optou pela batalha do improvável contra o aprazível. A certeza do deleite momentâneo sempre caminhou de mãos dadas com a iminente aflição.

 Tantas vezes ela quis não querer... Tantas outras desprezou sensações que não sabia se nomeava intuição ou ansiedade. No final, sabia que tudo era sintoma, no sentido literal da percepção da alteração da normalidade que cada um cria pra si.

Mas a transgressão  fascina Ella com  a mesma força que a amedronta. É um poder que desafia suas experiências. Que ignora seu conhecimento prévio. Que esfrega na sua cara que muitas vezes o saber vale apenas como mais um item no seu checklist de vida. Que conhecimento sem aplicação nunca foi aprender. E, olha, tem coisa que Ella não aprendia!

E agora ela estava ali. Fingindo que não sabia o que  fazer. Tentando registar sua quase confissão em uma tela que tinha o brilho que ela queria para seu caminho, a partir de hoje, numa tentativa de criar um álibi para um crime futuro . Afinal de contas, " Um homem nada pode aprender senão em virtude daquilo que ele já sabe".

"Aqui vou eu", pensou. De peito aberto, mas de olhos fechados para não enxergar o abismo no qual estava prestes a cair. Tentando fabricar a esperança de uma luta razoável, de curto prazo e que a inspirasse a criar um teorema que ela pudesse esfregar na própria cara, cada vez que ousasse desafiar axiomas.

Como se a tarefa não fosse difícil o suficiente, Ella sentia um pesar que só de falar lhe embrulhava o estômago e a obrigava a engolir o choro. "Nunca vai ser bonito lutar contra o amor. Nunca vai ser corajoso desistir de um sentimento tão real quanto forte", pensava.

Esquecer o quão bem fez alguém que hoje ela precisava deixar, para não esquecer  d'Ella mesma. Mas ela queria poder olhar para o que passou e falar "Quem é que não aprende mesmo, em? ".

Então, quando estava prestes a terminar seus devaneios, teve a sensação de fogo na garganta e soube logo: era a centelha da expectativa otimista incitando sua presunção tão vaidosa quanto tímida.

Ella já não sabia mais se queria ter razão ou ser feliz.

Amanhã ela acordaria e tentaria racionalizar a frase feita, antes de tomar uma decisão. Por que para agora, ela queria apenas aceitar o chamado do subconsciente e fugir, ops, dormir.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Plano B


Ele só quer estar ali dentro. Do quarto. Dela.
Mas quando ela, resoluta, se maquia, para tentar sair um pouco de si, ele se faz plateia.
Com a alma nua, segura um pincel que tenta esconder a loucura que sente por ele, acreditando que dissimula com tinta o desejo estampado no rosto.
Uma ou duas músicas que quase lhe fazem trair suas convicções, mais um gole, o isqueiro sempre a mão. As mãos sempre prontas para fazer arder o fogo eterno que jurava que se apagaria a qualquer momento.
O medo botava prazo de validade no desejo.
Gasta mais energia para se convencer que não é real. Mesmo assim, não tem pressa em descobrir que o tempo é linear, apesar de devorar os minutos que têm juntos.
Orgulho e ansiedade minam qualquer história que se rascunha ali.
É fraca demais para viver sem o controle do que sente.
E justamente por isso resolvera se sabotar, revezando suas noites entre os beijos de desapego de um e as tentativas de dominar o desequilíbrio que o timbre da voz daquele outro lhe causa.
Talvez se referindo a ele como o outro, destituiria da posição de protagonista aquele homem, ainda no próximo ciclo.
Arrogante, assume o risco, apostando que sabe lidar muito melhor com a desilusão inevitável que com a iminência de uma paixão não correspondida que tem os dias contados.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Enquanto seu lobo não vem

Um dos grandes desejos que ainda tinha na vida era se apaixonar, mais uma vez. Era tão forte que acteditava que o pacote completo não a amedrontaria. Talvez mais ingênua que safa, acreditavao que saberia fazer das suas vivências algo mais que meras dores e delícias a serem relembradas. Respeitava suas experiências e as tratava com o valor que deveriam ter.

Todo esse embrolho de pensamentos fragmentados e vontades coesas lhe fizeram perceber que o que almejava era o jargão simplório do gozar a vida. Gozar a vida metaforicamente falando e literalmente agindo no corpo físico de um homem. O que resultava no paradoxo perfeito das sensações do orgasmo visceral no plano das ideias.

Em vez do autoglagelamento, da culpa ou da vergonha, assumia a condição humana de ser razão e também  carne. Compreendia a necessidade do alimento etéreo e também material. Mais uma vez, masturbar ideias e materializar o gozo do corpo e daquilo que nomeiam alma.

Por ora, confirmava-se com os rascunhos de um folhetim barato e com o ensaio amador daquilo que poderia nunca estrear. E foi com a resignação realista de alguém que sabia que o "por ora", por vezes e para muitos, poderia ser a única coisa que aconteceria, que admirou a honestidade da vida em ser como ela é. E esperava que ela se orgulhasse por enxerga-la sem viseiras,  trilhasse seu caminho sem muletas e a percebesse sem a arrogância dos que acreditam ser mais do que podem ser.

Aos crédulos, um brinde à bênção da esperanca, desde que ela não pereça antes do próprio crente. A ela, que dormiu como uma deusa e acordou simples mortal, restava a gestão dos pensamentos, transcritos sob a réstia de uma luz que projetava sombras de ilusões passageiras.

Isso deveria bastar. Deveria. No entanto, cá estava. Praticando a habilidade de fingir ser mais madura do que realmente era. Competência quase inócua, não fosse pela capacidade de flexibilizar convicções. 

domingo, 25 de novembro de 2018

"Garçom, o de sempre!"


Vê qualquer poesia em alegar cansaço. E foi assim que se deleitou ao perceber a estafa emocional.

Masturbou sentimentos latentes para expor as lágrimas que lhe davam a sensação de libertação.

Quer mais madrugadas jogadas fora para exercitar a esperança de que jogará mais madrugadas fora sofrendo por alguém que não merece. Porque ninguém nunca merece. Mas ela merecia encher seu vazio. Tinha orgulho em ratificar sua teoria pueril de que era sempre melhor amar sem ser amada do que estar repleta de nada. 

Agora estava ali. No quarto escuro. TV em stand by, assim como ela. A música tinha uma letra de um lamento qualquer, como ela. A casa estava vazia, como ela. 

Implorava a insônia que outrora tanto temeu, porque, hoje, aceitaria qualquer companhia.

Sem fé, não sabia a quem pedir. Se virou e tentou até dormir. Pena não ser Geni.

domingo, 15 de julho de 2018

Continho para enganar o domingo


Uma está sempre ali. Pronta. Na hora. Disposta. Mas nunca disponível. Forja uma vontade desprovida de desejo, que é pra despistar os amigos mais próximos.

A outra nunca se expõe. Mistura de beata dos sentimentos com rapariga das vaidades, alivia-se em prantos da alvorada, que é pra afugentar os fantasmas mais íntimos.

Vez ou outra se encontram. E a mistura de menina assustada com senhora deslumbrada adolesce suas dúvidas. E de questão em questão, de descrença em descrença, deixam escapar uma faísca de entusiasmo que incendeia uma esperança inconsequente que as alimentam.

Andam cansadas de seus encontros fortuitos pelas calçadas dos dias arrastados. Sentem que estão prostituindo sua essência e ralando os joelhos da vida, sem propósito algum.

Mas antes que se entreguem àquela insanidade que lhes corroem de tempos em tempos, resolvem tomar um banho e ir ver gente na rua.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Dízima periódica do devaneio cíclico *


Eu sou de cismar.
Cismo com tudo.
Cismo com "uns trem"...
Cismo com umas pessoas...
Cismo.
Cismar é projetar o pensamento com fixidez. E vou te falar, eu fixo, viu ?!
Pra piorar,  sou ariana e, quando cismo, o orgulho não me deixa desistir. Aí  já viu: pode (vai) dar merda.
Pior é  quando cismo de raciocinar a cisma. Cismo que pra abstrair preciso dissecar a cisma, numa espécie de cirurgia exploratória. Nunca deu certo. Mas, como é cisma, insisto. E quando a cisma cisma de padecer, já foi tarde. O estrago foi feito.
Por tantas, cismei, então, de tentar a autópsia das finadas cismas. Pra não recair, óbvio. Sou boa legista também não - e isso não foi cisma, conclusão.
Como cismei que cisma é coisa de gente burra, ando cismada em parar de ruminar ideias.
Cismei !
Porque, sabe...
Eu sou de cismar.
Cismo com tudo.
Cismo com "uns trem"...
Cismo com umas pessoas...
Cismo.
Cismar é projetar o pensamento com fixidez. E vou te falar, eu fixo, viu ?!
Pra piorar,  sou ariana e, quando cismo, o orgulho não me deixa desistir. Aí  já viu: pode (vai) dar merda.
Pior é  quando cismo de raciocinar a cisma. Cismo que pra abstrair preciso dissecar a cisma, numa espécie de cirurgia exploratória. Nunca deu certo. Mas, como é cisma, insisto. E quando a cisma cisma de padecer, já foi tarde. O estrago foi feito.
Por tantas, cismei, então, de tentar a autópsia das finadas cismas. Pra não recair, óbvio. Sou boa legista também não - e isso não foi cisma, conclusão.
Como cismei que cisma é coisa de gente burra, ando cismada em parar de ruminar ideias.
Cismei !
Porque, sabe...

 * que se elevado a ele mesmo é igual a infinito

sábado, 12 de agosto de 2017

Tá acompanhando ?


"Textão" é texto grande ? Ou chato ? Ou chato e grande ? Ou prolixo e entediante?  Ou o que se autopromove ? Ou todas as alternativas anteriores?

Em princípio achei que não fosse escrever textão - seja lá o que isso signifique, agora não sei de mais nada. Mesmo porque eu sou apenas um instrumento dos meus devaneios. Mentira, sou nada. Até posso ser, mas hoje quero não.. E é disso que estou falando. Tentando falar. Hoje não quero texto psedofilosófico ou pretensioso. Não queria editar pensamentos e nem normatizar sensações. Mas se a idéia é  falar dos meus quarenta anos - isso seria um novo parágrafo?  E essa pergunta nem foi metafórica, pois estou certa de que escrevo um novo ciclo na minha vida. Tá acompanhando ?

(Mereceu um novo parágrafo ) Na verdade sempre é. Sempre que se faz essa reticência nos escritos da vida da gente ... (ou um parêntese, como esse, ou este aqui, literalmente gráfico) - tá acompanhando ? Oh God,  é  muita intertextualidade para pouca meta. Sempre que a gente para para pensar se está entrando numa nova fase,  é porque já "restatou". No meu caso, quem deu a dica foram as lentes: antes um luxo, agora necessidade. Minha visão de curta distância entrou em  recesso comigo e não retornou. Irônico, não ? Visão boa minha agora é  só a de longa distância. Logo agora que identifiquei a parte boa de fazer quarenta que é tentar entender que não posso controlar tudo o que tem por vir. Visão de longa distância pra que, então, geeente ? Gurinha mesmo estou provando desse veneno (será ?). Programei um filminho aqui e os primeiros 10 minutos me estimularam a sonambular acordada. Atendi ao chamado ( Não suponha isso. Essa linha de filme nem é  minha praia. A deixa aqui foi outra, mas não quero dar spoiler). Eis me aqui. Porque nas minhas horas de ócio faço o que tenho vontade. Não sofro mais pensando como eu era animada ( estou na área, Samia  😭). Pra ser bem franca, tento não sofrer. Tá acompanhando ?

Li outro dia que os cientistas têm reconhecido as mesmas sinapses para relacionamentos presenciais e virtuais. Junte - se a isso a informação da minha terapeuta que disse que sou romântica sim (eu negava, aliás, nego veementeme) e que o que não sou é  carente. Sentencio resoluta: não quero um namorado, quero companhia. Se for virtual, então,  que seja. Sou nostálgica,mas não idiota. Posso até não conseguir, mas, ao menos, tento me adaptar. Aos novos tempos, aos novos cremes, à nova idade - antagônico, não ? Acompanhou ?
A saudade é  da saudade. Não de alguém. Sempre fui mesmo minha própria referência  pras coisas etéreas.

Semanticamente, textão. Mas como a beleza na minha idade, o conteúdo do texto ficou meio que discussão política  em boteco no final de noite: sem empirismo nenhum. Porque dizem que a beleza é  intuitiva. ( tá acompanhando ?) "A beleza interior!". Balela ! Nada como o viço da pele. A juventude é  linda !

"Não troco minha vida aos 40 pela que eu tinha aos 20 e poucos"  ( ahã, tá! ). "Ahã, tá ",  pra mim, viu ? Antes que venha algum pos-mod de plantão polemizar meu divã eletrônico.

No confessionário eu diria do sorriso sarcástico que ensaio quando leio textos que padecem na idade balzaquiana. Ei ! Psiu! (Não) Desce daí. Aí é  o cume. Olha que vista ! Não perde o momento olhando a descida que te espera. Contempla a paisagem. É  a mais linda  de todas. Maturidade e independência na medida certa. Metabolismo ainda não é  inversamente proporcional, apesar de desacelerado.  Tá acompanhando ? Que bom pra você,  porque eu já me perdi no título. Do texto. Do filme. Da idade (a da loba ).

Falando nisso, deixe eu voltar a trama agora que lá libertei meus demônios  e posso agora encarar o coelho de 2 metros que prevê o apocalipse.

O fim do mundo não chega aos 40, concluo.