quarta-feira, 4 de março de 2026

Só por hoje

Desde que me levantei às três horas da manhã da segunda-feira e olhei para o telhado da casa em que você não dormirá nunca mais, soube que em algum momento precisaria regurgitar mais um texto piegas para me desintoxicar dessa bile amarga da vida. 

Acho que a gente tinha se separado há pouco mais de dois anos, quando você me pediu que eu escrevesse um texto para você. Relendo esse texto, pensei em como seria exaustivo criar por você hoje. Deixo então, logo após iniciar uma reforma íntima de sentimentos e convicções, aquele texto reformado. Só por hoje deixo aqui registrado o que daquele enredo ficou, já que há coisas que sempre são. O que não cabe mais, apago sem culpa. 

Só por hoje, quero despender energia com o que desejo fazer. Quero poder, como você, fazer na vida somente o que tenho vontade. E adivinha? Sou tão privilegiada que o que quero fazer é exatamente o que preciso - cuidar da nossa filha. Das minhas filhas. 

Engulamos então, você e eu, esse mexidão de palavras e sensações:

Você é meu maior paradoxo.

Sem dúvidas. 

Gosto nem de lembrar da nossa casa cheirando a fritura toda semana. Nem dos palitos de dentes boiando no azeite nos pratos onde jaziam porções de queijo e orégano para acompanhar as intermináveis saideiras também semanais.

 Consigo repetir as mesmas palavras que você usava para implicar com a chave que, segundo você, nunca estava na posição certa no bojo da porta da sala. Solto um suspiro aliviado por não precisar mais limpar o restinho de condicionador que ficava ao redor da tampa para evitar ouvir você reclamar. E hoje faço questão de apertar o tubo da pasta de dentes bem no meio dela. 

Da overdose de "farra e foguete " à abstinência de cinema e rock'n roll, hoje são apenas narrativas do passado.

Por outro lado, não poderia imaginar minha vida sem sua presença. Sem a intimidade e cumplicidade de quem já passou os melhores e piores momentos da vida juntos. Sem ouvir suas piadas plagiadas ou repaginadas. Sem rir da sua versão "palhacistica" para momentos nada engraçados da vida. Sem receber uma mensagem para pedir um conselho, um ombro ou contar uma novidade. 

Na verdade, você é um ensaio da prática das melhores teorias sobre o que deve ficar de uma relação passional que chega ao fim: o fim da relação passional. Apenas isso. E, por conseguinte, a continuidade de todo o resto. A perenidade dos laços consolidados.

Sua parceria ilustra um pouco o que penso sobre a legitimidade das relações humanas. Você embarcou comigo na desconstrução do papel exclusivamente social das relações afetivas de natureza conjugal. 

Só por hoje, não haverá brinde a você. O excesso de brindes te levou para longe das celebrações pela vida, sua família, sua filha, os sonhados 15 anos, dia dos pais, natais que ela sempre amou, formaturas.

Só por hoje, porque na vida, a gente não faz só o que quer. Faz o que precisa. E isso é paradoxalmente a maior liberdade que podemos alcançar na vida. Estar livre do que nos aprisiona.

Você foi meu maior paradoxo. Afeto, revolta, saudade, decepção, compaixão.

Desço o pano desse espetáculo sem graça, enquanto guardo o sono forçado da nossa menina.

Faça sua parte e guarde também. 

Fique bem e finalmente em paz.

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