quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Os amigos que a gente não escolhe.

Ref.: "A Família", de Tarsíla do Amaral

Eram mais ou menos sessenta pessoas. Alguns não puderam comparecer (!). O cardápio era lombo de porco e feijão tropeiro servido em pratos descartáveis. O refrigerante, Del-Rey de uva. Difícil era equilibrar o mínimo de comida nos garfinhos de plástico. O prato, Oiapoque; a boca, Chuí. A distância do prato até a boca parecia mesmo enorme. Enquanto alguns comiam, um dos tios cortava com a faca elétrica barulhenta mais algumas lascas da carne. A mesa era enorme, feita de ardósia e ficava na pequena cozinha sem forro - o teto era baixo e de telha de amianto. A maioria comia mesmo de pé; por vezes caminhando.

O evento transcorria todo o tempo com música ambiente ouvida em todo o lote (era assim que se referiam a casa de dona Gilda) e suas adjacências. Violão, caixa de som, microfone e vozes... Muitas vozes! Todos cantavam. Mesmo quando estavam comendo. E também bebiam, todo o tempo, mesmo quando cantavam. Os gritos estridentes das crianças que corriam de um lado a outro faziam o backing vocal do espetáculo. E era mesmo espetacular! Quase cinematográfico.

Ainda ao som da voz esganiçada da tia Vera cantando “Que país é esse...”, alguém concorre com ela: “Ínha, ínha ínha, tá na hora da vaquinha!!”. Apartir daí, até o violão que acompanhava o cover de Renato Russo improvisa um jingle para a solicitação cantarolada por... quem é ele, mesmo??? A cunhada rica doa uma nota de dez reais e todos comemoram gritando, assoviando e aplaudindo a nobre atitude.

A neta que levara o novo namorado pensava que, talvez, não tivesse sido uma boa idéia o momento que escolhera. No fundo, ela se divertia com toda aquela algazarra. Sabia que o sorriso que ele esforçava para desenhar no rosto, quando era flagrado observando ao seu redor, era mesmo para disfarçar seu semblante de espanto. Ela, sarcástica como ninguém, retribuía o sorriso com um olhar irônico emoldurado por sobrancelhas arqueadas, como quem pergunta: “E, aí, Negão?! Vai encarar?”

A prima é minha, mas a família, não. Mas, não é que eu, quase, queria que fosse...

Por Elga Arantes, 2008.


7 comentários:

Sheyla disse...

Coração,
Essa descrição familiar traz tantas imagens...
Tenho uma amiga-irmã que tem uma família com tantos tios, primos, etc. Que, de um certo modo, "eu, quase, queria que fosse..."
Bjs.

Samia disse...

kkkkk
Nossa! Que saudade...
Será que a Vanessa leu isso? E a Ju? Elas vão adorar.

Anônimo disse...

Igual a minha família.

Só não vou me identificar, senão vc vai me zuar muito.

X...

Michael disse...

Atendimento imediato ao meu pedido.

Karen disse...

Oi Povo de Bh! Todo mundo aqui heim?!

Olha, sabe que, no fundo toda família tem um pouco disso, cada uma a sua medida.
Mas ainda bem, que sempre tem uma prima com esta atitude.

bj

Anônimo disse...

Só li agora, muito bom!

Elga Arantes disse...

Podia ter assinado. Ahhh, mas vc sabe que é mesmo...