domingo, 9 de novembro de 2008

Para congelar o passado e adoçar o porvir.

Sorvete de creme com banana caramelada. Sorvete “azul” no potinho amarelo. Sorvete de pistache na casquinha. Manoela esteve empolgada por todo o dia anterior. No dia que se seguiria àquele, poderia se servir do sorvete que quisesse provar, da maneira que bem entendesse. Uma conquista para uma criança daquela idade. Mesmo que fosse, curiosamente, uma menina já com expressões faciais bem definidas por sinais. Eram quase rugas!

Preparou uma opção de roupa diferente para cada possibilidade de escolha que fizesse. Laço de fita verde no cabelo para combinar com as sapatilhas, mini-saia xadrez ou suspensório para enfeitar o top feito de fuxicos multicoloridos. Nessas últimas noites tão quentes, caberia perfeitamente a guloseima gelada que lhe esquentaria o corpo; pelo menos por algum tempo. Este, por sua vez, poderia se fantasiar de semanas, dias ou, apenas, instantes. E, nem por isso, não poderiam ser expressivos, importantes, quem sabe, inesquecíveis. Muitas princesas acostumam-se à fantasia - já cantou sabiamente seu compositor predileto. E, ela, em meio a tantas dúvidas, tinha quase certeza que o tempo nada mais era que uma fantasia em si.

Quando o dia seguinte chegou, não estava mais tão empolgada, apesar do dia estar mais quente que os últimos transcorridos. Pensou em cada sabor e já não tinha mais tanta vontade de tomar sorvete. Mas, como acreditava que o tempo gostava de pregar-lhe peças nada engraçadas, imaginou que a nostalgia, talvez, fosse o adereço usado por ele em sua fantasia de incredulidade. Tratou logo de racionalizar o desejo de tomar sorvete. Tomaria sorvete aquele dia, sim. Fosse o sabor que fosse.

Dessa forma, sem critério, enganando a libido, desprezando os pudores, só pode mesmo ser escolhida, ao invés de escolher. Tomou sorvete de creme na casquinha. Nem se lambuzando de calda de chocolate e mashmallow, saciou-se. O sorvete era doce, mas também era gelado e, ao contrário do que imaginou, não esquentou seu coração. E, ainda por cima, enrijeceu-lhe a face, paralisando seu sorriso.

Manoela não podia mais enganar sua vontade de comer uma lata de palmito sem dividir com ninguém.

Por Elga Arantes, 2008.

11 comentários:

Você sabe quem disse...

"Meu espirito está dormindo em algum lugar frio
Até que você o encontre lá e o traga de volta pra casa
Chame meu nome e salve-me da escuridão
faça meu sangue correr antes que eu me desfaça
Salve-me do nada que eu me tornei
Agora que eu sei o que me falta
Dê-me fôlego e me faça real
Traga-me para vida.

Eu tenho vivido uma mentira,
parece que eu estive dormindo há mil anos
Sem um pensamento, sem uma voz, sem uma alma
Não me deixe morrer aqui, deve haver algo mais.."

Biana França disse...

Olá, vou te adcionar lá no blog, ok???
Voltarei mais vezes!!!
Bjus.

sblogonoff café disse...

de comer uma lata de palmito sem dividir com ninguém!!!

MEnina, é que às vezes o sabor que nos escolhe nem sempre é o do gelo incandescente.

Ontem comi sorvete de flocos com calda de chocolate branco. A minha vida só não é mais doce porque minha alma é diabética.

Ah, Manoela... (tinha um comentário capixaba demais pra fazer. VOu deixar pra lá!hehehe)

Helena disse...

Oi Elguita...

Entrei para ler seu blog porcausa do link no msn. Nossa! Te conheço a tanto tempo e não sabia que escrevia assim tão bem. Apesar de sempre ter sido destaque da Fono, rs... Lembra???
Essa música é muito linda. Falo que é trilha sonora daquela frase célebre: A GRAMA DO VIZINHO PARECE SEMPRE MAIS VERDE.
Saudades super. Virei aqui muitas vezes, "ce dexa?". kkkkkk
Bjussss

Otavio Cohen disse...

q coisa mais doce. se bem que sorvete é mais gelado do que doce. eu gosto demais, mas sempre prefiro os sabores mais normais. outro dia pensei numa historinha sobre um boneco de neve que vivia esquecido num congelador para não congelar até o natal. e tentava de todos os jeitos reencontrar o garoto que o tinha criado, feito de raspas de gelo, no Brasil. Ele ficou amigo de um picolé de chicória chamado Chicão. Um dia eu termino ela...

por que será que eu falei isso?

Anjinha Brava disse...

Olá Elga, tudo bem mocinha? Bom, obrigada pela visita em meu blog. É sempre bom receber gente nova e passei aqui pra dar uma lida também. Gostei! Vou te adicionar nos meus favoritos. Você, assim como o sorvete, escreve de forma doce.

... as vezes na vida escolhemos os sabores errados para as nossas casquinhas. Mas temos que ter atitudes para então, mudar nossas opções. E quem sabe, partir despudoramente, para o vidro de palmito!

Bel disse...

À mim interessa (muito) o trajeto que Manoela percorreu até degustar o sorvete "frio". Os olhos arregalados entre o vidro e os potes coloridos, as pontas dos pés elevadas pra devorar uma porção daquela grandeza, a saliva estimulada pelo desejo. À mim interessa (muit)o perceber as pegadas marcadas no trajeto entre o desejo e o encontro/desencontro. À mim interessa saber se Manoela pretende aterar seu rumo e inverter a ordem da escolha. Que ela escolha!
Quanto ao vidro de palmito a ser devorado quando estiver sozinha sugiro atenção; o palmito pode ser fatal. À que se bem escolher pra se proteger da paralisia continuada.
Adorei o trajeto do teu delicado texto. Adoro teus escritos.
Um grande e afetuoso beijo, Bel.

Bel disse...

Uma correção ... digo: Alterar!

Anônimo disse...

Seu blog tá muito metafórico. Nem tá dando pra entender nada ultimamente. Antes era muito mais legal...

Elga Arantes disse...

Anônimo 1: Tirar quem? De onde? Se é anônimo...

Anônimo 2: Charles, seu cara de pau. Se não é vc, não é mais ninguém! rs...

Helena??? Fono??? Não creio... Vou te mandar um e-mail.

Otávio, Fiquei curiosíssima com a história do bonequinho de neve que só "servia" no natal. Ela já tem um final, que depois vc continua a contar, ou vc ainda não decidiu o final do tal personagem?
Sua maneira de falar "por que será que eu falei isso?", lembrou-me muito a Michele.
Eu acho que vc falou isso porque é aqui o espaço ideal para falar o que se quer, da maneira que desejar, sem se preocupar quase nada com as causas e fingir que não liga para as consequências.

Anjinha, Também já está linkada, aqui.

Bel, Bom saber que me entendes tão bem!! Desejo muito inverter a ordem das escolhas. Assim, farei, certamente.

Biana, isso quer dizer que posso te linkar, então, né?

Michele, não, obrigada! Não quero cólica. E antes que pergute, nem espinha!

Beijos a todos!

Karen disse...

coração,
como estou desatualizada mulher!!!
esses dias tenho repetido um sorvete de um sabor que descobri a pouco e não tive tempo de mais nada!
falando nisso, nem tomei sorvete em minas..humpft!
mesmo gelando o coração as vezes, adoro sorvete!

bjs