quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Artigo V; Parágrafo IV (CF/88)

Eu digo sempre, quando alguém comenta ter lido " O Prometeu...", que escrever, para mim, é uma tentativa de expurgar as angústias que rolam de um lado para o outro em meu coração, sem conseguir dormir. Para insônia da agonia, a terapia da grafia. Afirmo ser uma forma de exorcizar cada novo fantasma que vem me assombrar, e que, também, é assim que me reinvento. E nessa de me recriar, desenho pessoas, coloro sentimentos, imagino situações. Algumas vezes, chego ao ponto de criar meus próprios Frankensteins reunindo, em uma única pessoa, o rosto de alguém, o coração de outro ninguém, numa "Terra do Nunca" onde o que vale é aquilo que eu acredito e desejo.

Defendi, em algum momento, coisa qualquer em que quis acreditar quando, na verdade, não havia formado, ainda, opinião alguma. Cheguei ao ponto de tomar como minhas verdades aquelas encontradas na internet, através do Google. E sabemos que, mesmo que o endereço eletrônico diga que foi certo Fulano quem fez determinada afirmação, esta pode ter sido produzida por um Beltrano qualquer, entre milhões, que não tinha mais o que fazer e resolveu testar o poder de proliferação de uma informação irresponsável. Então, formulo minha justificativa totalmente desprovida de autenticidade. Se foi mesmo o tal Fulaninho quem disse, ótimo! Terei respaldo. Se não for, lindo! Serei original. Está na moda ser diferente, ir contra a corrente, contestar o lugar comum.

Já me surpreendi, n’outras vezes, tentando enganar os outros para ver se cola... Em mim! É triste, mas já me peguei fazendo um auto-elogio. É arrogante, mesmo tendo sido de forma sutil. E, pensei “Quanta carência! Pobre coitada de mim...”. Primeiro, a auto-piedade. Mas como sou deveras imperfeita, assim como articulada, tento equilibrar essa minha atitude arriscadamente franca (posto que temo que os olhos que agora me vêem podem enxergar-me assim, como que mais fraca que menos franca) e elaboro esse texto forjadamente sincero.

No fim de tudo, rendo-me. Prá que? Se bem sei, no fundo, escrevo para mim mesma. E a resposta para minhas indagações já existe, por vezes, antes mesmo da elaboração e sistematização da problemática em questão. As reações e respostas que esperamos receber não são necessárias para formularmos a verdade que vai nos valer, acredito. As réplicas são importantes para legitimar nossos pensamentos ou nos fazer sentir que estamos à margem da sociedade do pensamento. Pode servir, também, para lapidar nosso discurso, civilizar as demonstrações de certeza ou para aprimorar nosso conceito sobre liberdade de expressão. Mas, dificilmente, as rasuras do pensamento afetarão a ortografia do coração.

Por Elga Arantes, 2008.


"QUEM TEM CONSCIÊNCIA PARA TER CORAGEM
QUEM TEM A FORÇA DE SABER QUE EXISTE
E NO CENTRO DA PRÓPRIA ENGRENAGEM
INVENTA A CONTRA-MOLA QUE RESISTE

QUEM NÃO VACILA MESMO DERROTADO
QUEM JÁ PERDIDO NUNCA DESESPERA
E ENVOLTO EM TEMPESTADE DECEPADO
ENTRE OS DENTES SEGURA A PRIMAVERA"

8 comentários:

Bel disse...

Elga querida.
Sei bem como é jogar sobre o teclado a forma da escrita que a alma sussurra. O auto-desabafo fruto de uma dialética interna.Mas tu o fazes lindamente. Porque tua exposição é sincera e teu diálogo é, antes de tudo, contigo ... primeiro.
Mas tua inquietude me acalma porque partilho contigo. Entedo-me um pouco mais lendo teus escritos porque temos uma mesma essência: melancólica (quase)utópica.
" Para insônia da agonia, a terapia da grafia". E, funciona.
Um grande beijo, Bel.

Rodrigo disse...

PQP...
Sinceridade dilacerante!!!
Para ferrar com tudo, vc faz com que a gente perceba que somos um nadica de nada ou fingimos que a creditamos no que não é.

Decidiu se vai lá comigo?

Beijão.

Lidiane Piotto disse...

Puuuutis, vc escreve bem demais, o que é isso????
AMEI!

Beijos!

Pássaro Ermo disse...

Jamais pensei em escrever sobre alguém... Quando enxergava beleza ou até lamurias no cotidiano de pessoas proximas, permanecia calada... mas muitas vezes viajava naquele ser por muito tempo... Até que li "o prometeu"... E vi que escrever sobre um personagem que te tocou profundamente é fantastico... É como uma peça de teatro, e no final cai como um alivio, uma liçao... n sei explicar... O prometeu é um pouco metafórico, mas estou adorando ler... Além das taças de vinho, existe o acorrentado que me busca inspiraçao para jogar todo meu sentimento no teclado... Sentimentos reais... que talvez nao conseguiria encontrar a maneira de expor... se antes escrevia apenas sobre o amor... hj escrevo sobre o cotidiano... e estou amando, graças ao "prometeu acorrentado" Meu blog tinha outro objetivo, que se desviou para outro foco... Parabens Catifa...

Bjus

Lidiane Piotto disse...

Sonhei com vc essa noite, foi tão real, tão bom, me deu muita saudade!!!
O CEU nem rolou né? Que tempo maldito, rs!

Beijos!

sblogonoff café disse...

Olha, eu não lembro quem falou (oportuno, né?!) se foi Sócrates ou Aristóteles, os foi o Brad Pitt!!, mas ninguém é original, nem a cerveja! Acho que foi Platão, naquele Mito da Caverna...
Enfim, um dia escrevi no outro blog que o mais original é aquele que copia as idéias certas. Certas para a ocasião!
É tipo cola de escola. Você pode colar tanto a resposta certa quanto a errada, mas só vai fazer ponto se colar a certa!!
E sobre opiniões,as pessoas se contradizem muito, sem perceber. É a questão "de que lado do balcão você está?" Eu mesma, já comentei com opiniões antagônicas em blogs diferentes. Na verdade, minha vida é mais ou menos assim, defender a verdade mais conveniente.
Eu me sinto você às vezes. Eu até poderia ter escrito esse post, inclusive com as mesmas palavras.
A gente pode, afinal, é livre a manifestação do pensamento.
Abaixo a censura!!!
Ariba!

sblogonoff café disse...

E eu te odeio um pouco...

Karen disse...

Oh God! to perdendo muita coisa aqui. que importa? quem fala quer mais é que os outros repitam, senão˜guardava para si mesmo.

bj