quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Todo dia virando lata.

Olívia andou a pé sob o sol de meio-dia por quase meia hora. A aliteração desintencional lhe deu enjôo. O asfalto daria para fritar um ovo. Seu estômago embrulhou de novo ao se imaginar comendo um ovo frito. Seu estômago estava rejeitando até mesmo pensamentos naquele dia, quão visceral estavam seus ânimos. Estava enjoada de tentar, de andar, de esperar. Não gostava de replay, nem de trekking muito menos de stand by. Estava xenofóbica como nunca!

Claro que ela não quis. Mas precisou caminhar sob o sol do meio do dia.

A hóstia incandescente castigara seus pés, deixando em brasa a sola desses que calçavam um sapato de salto alto que pareciam confessar em tom de penitência: “Eu não queria estar aqui, mas preciso.”.

Ainda bem, ele não olhou para seus pés. Mas a encarou. Os olhos dela, naquele dia, estavam opacos. Sorte sua. Ele não enxergaria o reflexo dos sapatos - nem o slogan que eles traziam - apenas por isso; já que os olhos de seu perispírito miravam o chão e refletiriam facilmente seus pés cansados de caminhar. Não fossem os olhos nebulares...

Melhor assim. Ele poderia perceber sua rendição. E ele não deveria querer alguém que se entregasse facilmente. (...) Soubesse ele das mazelas enfrentadas por Olívia, a contrataria pelo dom da ressurreição, simplesmente.

Mais uma vez, os saltos, os terninhos, o maldito perfil comercial.

- Gostaria de um tempo para pensar – arriscou Olívia, sem receios.

- Posso aguardá-la até a próxima terça-feira. É um bom tempo, não?.

- Precisaria que fosse até a quinta, pelo menos. – atreveu-se.

- Quinta... quinta... tudo bem. Se não passar da quinta, posso esperar.

Respondeu o homem, talvez imaginando que aquela segurança fosse ideal para a função. E ele acertou, em partes. Era segurança. Não se fazia de rogada. Mas também havia algo de ‘Será que estou fazendo a coisa certa?’ omitido no tom da voz.

Saiu de lá e passou por um jardim de uma rosa. Continuou andando e nem achou que o sol estava assim tão quente. Seu celular tocou. Agendou para amanhã. De novo. Agora era um convite. Aceitou.

Quando chegou a casa, recebeu um beijo na boca, seguido de um “Eu te amo”. Sorriu. Conferiu seus e-mails e respondeu positivamente a outro convite. Ficou alegre, realmente.

Foi ao escritório, olhou o caderninho ao lado do telefone e havia mais dois recados a serem retornados. Um deles lhe devolveu a luz à menina dos olhos. Assim, depois de lavar o rosto ainda quente e retirar a maquiagem, olhou no espelho e viu uma menina que não vira há dias.

Voltou ao ‘Tuareg’. "Aquele era o melhor livro do mundo!" A dignidade estava em voga lá e cá. Já naquela hora acharia até mesmo ‘Lucíola’ o melhor de todos os livros – ela adorava exageros e não gostava mesmo de Machado de Assis. E olha que tentou...

A menina foi à cozinha, abriu uma lata de leite condensado, jogou sobre uma banana, salpicou canela e colocou no microondas. Experimentou. Depois, pensou: “Banana com canela e Tuareg é a melhor sobremesa do mundo”.

Ela gostava muito mesmo de doces, livros e exageros.

Depois, achou que nada se comparava ao prazer de beber um copo de água quando se está com sede. Mata a sede do açúcar e tira o amargo da boca.

Algumas crianças são mesmo fáceis de agradar!

Por Elga Arantes, 2008.



12 comentários:

Patrícia Ferraz disse...

Eu sou tb uma dessas crianças fáceis de agradar... :P
Meu namorado (novo! que era o paquera da vez, lembra!?) diz que é muito fácil.

Se tivesse a chance, queria dar os parabéns à Olívia pelo emprego. E dizer que esse post me lembrou um outro que escrevi hoje cedo, mas ainda considero infindo para postar... Só por causa do leite condensado. Porque a fruta do meu post era morango.

Adorei os dois textos. E desculpe-me por ter contado o final do filme! Tá todo mundo me xingando... rs

Beijos!

Karen disse...

Oi Elga,
Queria dar os parabéns a Olivia, vou pedir a Sarah que ligue para ela.

As coisas simples são realmente ais mais gostosas..um beijo, o amor em casa, lavar o rosto então é como se lavasse a alma!
Ai, eu comprei um livro com a obra completa de Machado e juro que tb estou tentando...

Bjs querida.

sblogonoff café disse...

(risos)

Viva Olívia e todos os reinícios!

***
Já parei de tentar Machado de Assis! Eu sou tão roseana que acho que não consigo mais!

Ela gostava muito mesmo de doces, livros e exageros.
Depois, achou que nada se comparava ao prazer de beber um copo de água quando se está com sede. Mata a sede do açúcar e tira o amargo da boca.
Algumas crianças são mesmo fáceis de agradar!

(Conheço uma menina que é "igual que nem!)

****
Moça, pena não ter encontrado vocês. Também, acho que n~~ao seria possível, pois depois da quinta passada só fui abrir o e-mail hoje. Espero que possamos todas ser presença num encontro por aí, a gosto de deus, setembro...
São 12 meses no ano. Em pelo menos um deve dar certo, né?!

Patrícia Ferraz disse...

Meninas, mas eu amo Machado!!!
Adoro os contos, Dom Casmurro!Memórias Póstumas, então, nem se fala! Precisamos trocar mais figurinhas sobre isso...

Fernanda Matos disse...

rsrsr
O seu blog...tá virando confessionário...
Loucas...todas...
Como eu...talvez
Tuareg é um absurdo de livro.

Sheyla disse...

Elga,
Ih...estou assim...tão Olívia!
As crianças é que nos salvam.
Palmas pro escorrega, pra piscina de bolinhas, pra piscina de água mesmo, pro balanço, pras bonecas.
Meninas, separar um momento do dia para voltarmos à meninice é uma alegria que a gente precisa se permitir.
Bjs.

Rodox disse...

Cheguei tarde para comentar. Quando quis, já eram seis. Estranho como os detalhes são importantes. O que parece ser banal, se prestada a devida atenção, se torna um sentimento de extrema grandeza. Temos sede pelos detalhes que adoçam todas nossas relações com o mundo. Machado, a muito tempo foi cortado de minhas leituras. Quisera eu ter o detalhe da paciência. Quem sabe um dia.
Como único homem deste confecionário, deixo expresso meu detalhe mesmo que tardio. Adoro as raspas da lata.

sblogonoff café disse...

Machado na berlinda!!hehehe!!!
O fato é que o homem é prolixo por demais... Mas gente, é um mérito muito grande, maior que o proprio autor, criar Capitu e seus olhos de ressaca!

Elga, falei sobre a mudança de título de post lá no meu e vim aqui falar!Rsrsrs!!
Acho que não tem regra não. A modernidade é líquida! A forma é a gente que dá!

Li seu post sobre o livro do Zygmunt Bauman. Quero ler! Li dele "A Modernidade Líquida" e fiquei quase louca. É interessante como ele trata a evolução da sociedade comparando com os estados da matéria. Imagina aplicar isso ao amor?!!

Sobre as pulgas...
A pendência é algo que se parece com um grilhão no meu pé e que não dá pra resolver de longe!

O salto anabela é sobre o tombo da moça perto de mim! Sabe aquele chavão "seria cômico se não fosse trágico"?! Então, é o caso! ... e vai virar post!

Já a noite passada... Hum... Foi uma coisa que embaralhou a minha cabeça... e coração!Rsrs!

Karen disse...

Com o livro de Machado estou quebrando algumas regras, ou diria manias, minhas. Por exemplo, amo os meus livros, cuido deles com tanto carinho que nunca tive coragem de escrever ou riscar qualquer coisa em suas folhas. Decidida a buscar algo novo, com a obra de machado e um marca texto em µnaos passo tardes tentando mergulhar em cada frase ali escrita.
Juro que ainda não estou convencida que tem algo a ver comigo.

bjs

sblogonoff café disse...

Quero um "Machado" pra quebrar o gelo ô...
Nossa, foi péssima essa!!
Deve ser a TPM!

Hoje o tempo está mais dilatado, igual às pupilas depois do colírio.
OLhar de folha de flandres.
Acho bonita essa palavra, folha de flandres!Rs

Li quase todo o seu blog!
Você é ótima!
Ah, e vi que também existe mutações virtuais aqui! Acho que algumas fotos de alguns posts estão diferentes!Rs

É que a gente muda tanto, né?!
Tem um post onde você fala que o seu gestor sugeriu o batom!!Rs
Menina, nessa vida de advogada a gente precisa ter cara de gente grande. Eu era daquelas que matava aula de direito de trabalho para ensaiar com minha bandinha pop rock!
Vaidade nunca foi o meu forte!
Mas no outro dia, uma cliente falou para a minha sinhá que não confiava que eu já tivesse me formado e que fosse capaz de resolver o problema dela. Me chamou de menininha!! Vê só?!
Falei pra sinhá:
O que eu faço?
E ela:
- Toma esse batom. Nunca deixe de usar!Rs!

Agora, até de doutora a tal cliente me chama!
Por causa do batom e da metamorfose!

Encontrei uma barata na cozinha...

Nó, eu vou embora.
Hoje tô periclitante!!!

Elga Arantes disse...

Machado para quebra o gelo, foi bom!rs. Foi bom mesmo.

Aliás, regras de mais. Aliás, ele é bom pra gente adquirir um vocabulário bem erudito, desses que ninguém entende.

Não fosse avô de Chico Buarque...

Ah, Karen, agora entendi. Teve que quebrar as regras. Escrever os 'palavrões' de Machado e seus significados a lapis, nas margens das paginas!kkkkkkkkkk

Karen disse...

Pois é, quebrando minhas próprias regras! hahahaahah. Ninguém entende mesmo, em alguns versos fico passada. Me pergunto, será meu vocabulário pobre demais, ou ele fez de propósito??? Acho que foi pacto com Aurélio.

Estou com medo de mim nos últimos dias..mas confesso que estou me adorando! ahhaahah

bjs