quarta-feira, 17 de março de 2021

O segundo que fraciona o inteiro

 A gente pisca e o mundo muda.


O sorriso amarela.

A expressão congela.

A paixão aferrece.

O plano se esquece.

A esperança suspende.

A confiança arrepende.


A gente fica na palavra muda.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

E fim


Por que ama esse ser comum? De vontades vulgares e pensamentos também ordinários?


Como foi que o desejo pelo insólito deu lugar à resignação por dias de ambições inócuas?


Mostra a si mesmo a explicação para cessar a busca pelo que lhe afaga , oferece conforto e alimenta sua alma de orgulho.


Assim foi que dia desses interpelou a razão assoberbada de  jamais ao coração desarranjado  de tanto quase.


Ele, de rima pobre com seu paradoxo por mera ironia da língua, travestiu - se da força do seu simbólico e respondeu, sem hesitar, com a simplicidade que tem tudo que é força.


Eu fibrilo e palpita você tanto engano e egoísmo ! Se eu amasse intentando pecúlios, a estima seria por mim e não pelo ser amado.


Você cobiça com um fim. Objetiva  e condiciona, acreditando  ser amor.


Quando é amor a gente "não é resposta".


Por isso  eu amo porque sim.


quinta-feira, 16 de julho de 2020

"Vergonha é roubar e não poder carregar" - como diria a imagem que tenho da minha avó..

Que preguiça de você com essa ideia careta e fora de moda de que para ser cool tem que ser reservado!

Que pena que eu sinto de quem não consegue expor  conquistas ,  divulgar elogios e fazer mala direta do amor.

Quem não gosta de uma emoção descarada, de uma história bem contada e de uma declaração acalorada?

A moça tá lá zombando da foto  e vociferando "que brega", enquanto de lá ele pensa "que dó ".

É que o moço  sabe bem que nas horas mais solitárias e de lealdade máxima por si mesma, o que ela deseja é a ingenuidade dos planos para o futuro, a imaturidade do apelido  piegas e a cafonice do amor revelado nas redes sociais.

Porque os momentos são virtualmente remotos e o fim é inevitável e real.




sábado, 4 de julho de 2020

Nome pessoal e pronome próprio (e vice-versa)

Agora Ella se sentia tão sem rumo, tão perdida, tão sem lugar que só queria poder  dormir por horas e horas. Talvez fosse a inconsciência mandando pequenas pistas de que mais uma batalha vinha pela frente e que ela precisava se preparar.

Ella, que esteve em paz por um bom tempo, havia optado pela guerra. Mesmo com todos os alertas sussurrantes, ela optou pela batalha do improvável contra o aprazível. A certeza do deleite momentâneo sempre caminhou de mãos dadas com a iminente aflição.

 Tantas vezes ela quis não querer... Tantas outras desprezou sensações que não sabia se nomeava intuição ou ansiedade. No final, sabia que tudo era sintoma, no sentido literal da percepção da alteração da normalidade que cada um cria pra si.

Mas a transgressão  fascina Ella com  a mesma força que a amedronta. É um poder que desafia suas experiências. Que ignora seu conhecimento prévio. Que esfrega na sua cara que muitas vezes o saber vale apenas como mais um item no seu checklist de vida. Que conhecimento sem aplicação nunca foi aprender. E, olha, tem coisa que Ella não aprendia!

E agora ela estava ali. Fingindo que não sabia o que  fazer. Tentando registar sua quase confissão em uma tela que tinha o brilho que ela queria para seu caminho, a partir de hoje, numa tentativa de criar um álibi para um crime futuro . Afinal de contas, " Um homem nada pode aprender senão em virtude daquilo que ele já sabe".

"Aqui vou eu", pensou. De peito aberto, mas de olhos fechados para não enxergar o abismo no qual estava prestes a cair. Tentando fabricar a esperança de uma luta razoável, de curto prazo e que a inspirasse a criar um teorema que ela pudesse esfregar na própria cara, cada vez que ousasse desafiar axiomas.

Como se a tarefa não fosse difícil o suficiente, Ella sentia um pesar que só de falar lhe embrulhava o estômago e a obrigava a engolir o choro. "Nunca vai ser bonito lutar contra o amor. Nunca vai ser corajoso desistir de um sentimento tão real quanto forte", pensava.

Esquecer o quão bem fez alguém que hoje ela precisava deixar, para não esquecer  d'Ella mesma. Mas ela queria poder olhar para o que passou e falar "Quem é que não aprende mesmo, em? ".

Então, quando estava prestes a terminar seus devaneios, teve a sensação de fogo na garganta e soube logo: era a centelha da expectativa otimista incitando sua presunção tão vaidosa quanto tímida.

Ella já não sabia mais se queria ter razão ou ser feliz.

Amanhã ela acordaria e tentaria racionalizar a frase feita, antes de tomar uma decisão. Por que para agora, ela queria apenas aceitar o chamado do subconsciente e fugir, ops, dormir.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Plano B


Ele só quer estar ali dentro. Do quarto. Dela.
Mas quando ela, resoluta, se maquia, para tentar sair um pouco de si, ele se faz plateia.
Com a alma nua, segura um pincel que tenta esconder a loucura que sente por ele, acreditando que dissimula com tinta o desejo estampado no rosto.
Uma ou duas músicas que quase lhe fazem trair suas convicções, mais um gole, o isqueiro sempre a mão. As mãos sempre prontas para fazer arder o fogo eterno que jurava que se apagaria a qualquer momento.
O medo botava prazo de validade no desejo.
Gasta mais energia para se convencer que não é real. Mesmo assim, não tem pressa em descobrir que o tempo é linear, apesar de devorar os minutos que têm juntos.
Orgulho e ansiedade minam qualquer história que se rascunha ali.
É fraca demais para viver sem o controle do que sente.
E justamente por isso resolvera se sabotar, revezando suas noites entre os beijos de desapego de um e as tentativas de dominar o desequilíbrio que o timbre da voz daquele outro lhe causa.
Talvez se referindo a ele como o outro, destituiria da posição de protagonista aquele homem, ainda no próximo ciclo.
Arrogante, assume o risco, apostando que sabe lidar muito melhor com a desilusão inevitável que com a iminência de uma paixão não correspondida que tem os dias contados.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Enquanto seu lobo não vem

Um dos grandes desejos que ainda tinha na vida era se apaixonar, mais uma vez. Era tão forte que acteditava que o pacote completo não a amedrontaria. Talvez mais ingênua que safa, acreditavao que saberia fazer das suas vivências algo mais que meras dores e delícias a serem relembradas. Respeitava suas experiências e as tratava com o valor que deveriam ter.

Todo esse embrolho de pensamentos fragmentados e vontades coesas lhe fizeram perceber que o que almejava era o jargão simplório do gozar a vida. Gozar a vida metaforicamente falando e literalmente agindo no corpo físico de um homem. O que resultava no paradoxo perfeito das sensações do orgasmo visceral no plano das ideias.

Em vez do autoglagelamento, da culpa ou da vergonha, assumia a condição humana de ser razão e também  carne. Compreendia a necessidade do alimento etéreo e também material. Mais uma vez, masturbar ideias e materializar o gozo do corpo e daquilo que nomeiam alma.

Por ora, confirmava-se com os rascunhos de um folhetim barato e com o ensaio amador daquilo que poderia nunca estrear. E foi com a resignação realista de alguém que sabia que o "por ora", por vezes e para muitos, poderia ser a única coisa que aconteceria, que admirou a honestidade da vida em ser como ela é. E esperava que ela se orgulhasse por enxerga-la sem viseiras,  trilhasse seu caminho sem muletas e a percebesse sem a arrogância dos que acreditam ser mais do que podem ser.

Aos crédulos, um brinde à bênção da esperanca, desde que ela não pereça antes do próprio crente. A ela, que dormiu como uma deusa e acordou simples mortal, restava a gestão dos pensamentos, transcritos sob a réstia de uma luz que projetava sombras de ilusões passageiras.

Isso deveria bastar. Deveria. No entanto, cá estava. Praticando a habilidade de fingir ser mais madura do que realmente era. Competência quase inócua, não fosse pela capacidade de flexibilizar convicções. 

domingo, 25 de novembro de 2018

"Garçom, o de sempre!"


Vê qualquer poesia em alegar cansaço. E foi assim que se deleitou ao perceber a estafa emocional.

Masturbou sentimentos latentes para expor as lágrimas que lhe davam a sensação de libertação.

Quer mais madrugadas jogadas fora para exercitar a esperança de que jogará mais madrugadas fora sofrendo por alguém que não merece. Porque ninguém nunca merece. Mas ela merecia encher seu vazio. Tinha orgulho em ratificar sua teoria pueril de que era sempre melhor amar sem ser amada do que estar repleta de nada. 

Agora estava ali. No quarto escuro. TV em stand by, assim como ela. A música tinha uma letra de um lamento qualquer, como ela. A casa estava vazia, como ela. 

Implorava a insônia que outrora tanto temeu, porque, hoje, aceitaria qualquer companhia.

Sem fé, não sabia a quem pedir. Se virou e tentou até dormir. Pena não ser Geni.

domingo, 15 de julho de 2018

Continho para enganar o domingo


Uma está sempre ali. Pronta. Na hora. Disposta. Mas nunca disponível. Forja uma vontade desprovida de desejo, que é pra despistar os amigos mais próximos.

A outra nunca se expõe. Mistura de beata dos sentimentos com rapariga das vaidades, alivia-se em prantos da alvorada, que é pra afugentar os fantasmas mais íntimos.

Vez ou outra se encontram. E a mistura de menina assustada com senhora deslumbrada adolesce suas dúvidas. E de questão em questão, de descrença em descrença, deixam escapar uma faísca de entusiasmo que incendeia uma esperança inconsequente que as alimentam.

Andam cansadas de seus encontros fortuitos pelas calçadas dos dias arrastados. Sentem que estão prostituindo sua essência e ralando os joelhos da vida, sem propósito algum.

Mas antes que se entreguem àquela insanidade que lhes corroem de tempos em tempos, resolvem tomar um banho e ir ver gente na rua.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Dízima periódica do devaneio cíclico *


Eu sou de cismar.
Cismo com tudo.
Cismo com "uns trem"...
Cismo com umas pessoas...
Cismo.
Cismar é projetar o pensamento com fixidez. E vou te falar, eu fixo, viu ?!
Pra piorar,  sou ariana e, quando cismo, o orgulho não me deixa desistir. Aí  já viu: pode (vai) dar merda.
Pior é  quando cismo de raciocinar a cisma. Cismo que pra abstrair preciso dissecar a cisma, numa espécie de cirurgia exploratória. Nunca deu certo. Mas, como é cisma, insisto. E quando a cisma cisma de padecer, já foi tarde. O estrago foi feito.
Por tantas, cismei, então, de tentar a autópsia das finadas cismas. Pra não recair, óbvio. Sou boa legista também não - e isso não foi cisma, conclusão.
Como cismei que cisma é coisa de gente burra, ando cismada em parar de ruminar ideias.
Cismei !
Porque, sabe...
Eu sou de cismar.
Cismo com tudo.
Cismo com "uns trem"...
Cismo com umas pessoas...
Cismo.
Cismar é projetar o pensamento com fixidez. E vou te falar, eu fixo, viu ?!
Pra piorar,  sou ariana e, quando cismo, o orgulho não me deixa desistir. Aí  já viu: pode (vai) dar merda.
Pior é  quando cismo de raciocinar a cisma. Cismo que pra abstrair preciso dissecar a cisma, numa espécie de cirurgia exploratória. Nunca deu certo. Mas, como é cisma, insisto. E quando a cisma cisma de padecer, já foi tarde. O estrago foi feito.
Por tantas, cismei, então, de tentar a autópsia das finadas cismas. Pra não recair, óbvio. Sou boa legista também não - e isso não foi cisma, conclusão.
Como cismei que cisma é coisa de gente burra, ando cismada em parar de ruminar ideias.
Cismei !
Porque, sabe...

 * que se elevado a ele mesmo é igual a infinito

sábado, 12 de agosto de 2017

Tá acompanhando ?


"Textão" é texto grande ? Ou chato ? Ou chato e grande ? Ou prolixo e entediante?  Ou o que se autopromove ? Ou todas as alternativas anteriores?

Em princípio achei que não fosse escrever textão - seja lá o que isso signifique, agora não sei de mais nada. Mesmo porque eu sou apenas um instrumento dos meus devaneios. Mentira, sou nada. Até posso ser, mas hoje quero não.. E é disso que estou falando. Tentando falar. Hoje não quero texto psedofilosófico ou pretensioso. Não queria editar pensamentos e nem normatizar sensações. Mas se a idéia é  falar dos meus quarenta anos - isso seria um novo parágrafo?  E essa pergunta nem foi metafórica, pois estou certa de que escrevo um novo ciclo na minha vida. Tá acompanhando ?

(Mereceu um novo parágrafo ) Na verdade sempre é. Sempre que se faz essa reticência nos escritos da vida da gente ... (ou um parêntese, como esse, ou este aqui, literalmente gráfico) - tá acompanhando ? Oh God,  é  muita intertextualidade para pouca meta. Sempre que a gente para para pensar se está entrando numa nova fase,  é porque já "restatou". No meu caso, quem deu a dica foram as lentes: antes um luxo, agora necessidade. Minha visão de curta distância entrou em  recesso comigo e não retornou. Irônico, não ? Visão boa minha agora é  só a de longa distância. Logo agora que identifiquei a parte boa de fazer quarenta que é tentar entender que não posso controlar tudo o que tem por vir. Visão de longa distância pra que, então, geeente ? Gurinha mesmo estou provando desse veneno (será ?). Programei um filminho aqui e os primeiros 10 minutos me estimularam a sonambular acordada. Atendi ao chamado ( Não suponha isso. Essa linha de filme nem é  minha praia. A deixa aqui foi outra, mas não quero dar spoiler). Eis me aqui. Porque nas minhas horas de ócio faço o que tenho vontade. Não sofro mais pensando como eu era animada ( estou na área, Samia  😭). Pra ser bem franca, tento não sofrer. Tá acompanhando ?

Li outro dia que os cientistas têm reconhecido as mesmas sinapses para relacionamentos presenciais e virtuais. Junte - se a isso a informação da minha terapeuta que disse que sou romântica sim (eu negava, aliás, nego veementeme) e que o que não sou é  carente. Sentencio resoluta: não quero um namorado, quero companhia. Se for virtual, então,  que seja. Sou nostálgica,mas não idiota. Posso até não conseguir, mas, ao menos, tento me adaptar. Aos novos tempos, aos novos cremes, à nova idade - antagônico, não ? Acompanhou ?
A saudade é  da saudade. Não de alguém. Sempre fui mesmo minha própria referência  pras coisas etéreas.

Semanticamente, textão. Mas como a beleza na minha idade, o conteúdo do texto ficou meio que discussão política  em boteco no final de noite: sem empirismo nenhum. Porque dizem que a beleza é  intuitiva. ( tá acompanhando ?) "A beleza interior!". Balela ! Nada como o viço da pele. A juventude é  linda !

"Não troco minha vida aos 40 pela que eu tinha aos 20 e poucos"  ( ahã, tá! ). "Ahã, tá ",  pra mim, viu ? Antes que venha algum pos-mod de plantão polemizar meu divã eletrônico.

No confessionário eu diria do sorriso sarcástico que ensaio quando leio textos que padecem na idade balzaquiana. Ei ! Psiu! (Não) Desce daí. Aí é  o cume. Olha que vista ! Não perde o momento olhando a descida que te espera. Contempla a paisagem. É  a mais linda  de todas. Maturidade e independência na medida certa. Metabolismo ainda não é  inversamente proporcional, apesar de desacelerado.  Tá acompanhando ? Que bom pra você,  porque eu já me perdi no título. Do texto. Do filme. Da idade (a da loba ).

Falando nisso, deixe eu voltar a trama agora que lá libertei meus demônios  e posso agora encarar o coelho de 2 metros que prevê o apocalipse.

O fim do mundo não chega aos 40, concluo.