segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Manjericão, polenta e pergolado.

 Que gosto será que tem o seu beijo ?

 Será que mordisca o lábio inferior e em que ritmo será que movimenta a mandíbula? Gostaria só de saber de ouvir falar, nem sonho alto em ter amostra grátis desse evento. Até a possibilidade de uma conversa em que eu possa confessar minha curiosidade luxuriosa é uma utopia que de tão cruel se faz um adjetivo qualquer que ilustre sinceridade, desejo e devoção.

Imputada em uma função social que me permite ser completamente atravessada pelo seu magnetismo e pela força colossal que você é, sigo por aqui, te ouvindo e te olhando, bem de pertinho. Ouvindo sua risada rasgando o som ambiente e exigindo que a natureza se renda a sua humanidade imperfeita e suficiente.

A incompletude da nossa relação é ao mesmo tempo castigo e redenção. Por meio do respeito que eu lhe devo, assino todos os dias uma promissória que acredito, nunca vou resgatar. Ainda assim, me encho de uma esperança pueril de que algum dia seja ela protestada ou que você me execute e acabe logo com essa vontade de um sei lá o quê que nunca vivi.

Caso contrário, sigamos assim, com nosso afeto real, ainda que ambíguo de minha parte, e que nem por isso tira dele sua legitimidade. Com sua ignorância providencial sobre o sentimento inédito que plantou em mim. Com a resignação de ser grata por poder te ter integralmente para mim, quando trocamos nossa juras - por vezes veladas- de amizade eterna.

Que a cor dos seu olhos continue a encontrar a alegria dos meus ao estar com você. E que eu continue sendo mastigada pelos mesmos dentes que rasgam meu juízo e depois se arranjam em um sorriso que me faz pensar outra vez:

Que gosto será que tem o seu beijo ?

domingo, 29 de junho de 2025

Água que não leva

Sábado à noite. Lavei o chão da sala. Música, água e sabão. Abaixei para torcer o pano e vi meu reflexo no fundo do balde que já desejei chutar mil vezes. Era uma silhueta escura apenas. Olhei e pensei, sem motivo aparente, que eu não sabia dizer quem eu era. Quem fui até aqui. Nem ao menos quem eu gostaria de me tornar. Não sabia mesmo me descrever. Vai ver nunca tenha existido um "eu" legítimo. Talvez uma mulher nunca seja algo além uma mescla de gente que precise apoiar e acompanhar ao longo da vida. Uma mistura de "só tenho que" com " quem sabe amanhã " tão homogênea que se passa pela pureza de uma substância que dá o sentido da existência real de um ser. Ser forjado culturalmente para servir, ainda hoje caio nas armadilhas desse engodo que romantiza a exploração de maneira tão sutil, velada, encoberta, disfarçada, dissimulada que deixa na palavra de protesto um gosto amargo de culpa por apenas não querer mais ser. E como é solitário assumir a dureza dessa verdade e ao mesmo tempo não se dar em rendição por amor. Não o próprio, que para isso teria que me reconhecer. A questão é que esse amor não garante o mesmo amparo e companhia que oferece quando a conta da subserviência chega. O saldo é geracional e, por tanto, não quita a dívida que provavelmente ficará para outra mulher forte, independente afetuosa, resiliente e exausta. Mas o que importa é que a casa está limpa e posso andar descalça sem sujar os pés. 

sábado, 26 de abril de 2025

Mais sobre a saudade

Sinto saudades homéricas de momentos revistados por meio de fotografias tiradas de maneira quase irresponsável. Mas como prever que os registros pudessem provocar um misto de "não sei o quê" com "quem me dera".  Sinto falta da ignorância de quem não havia ainda experimentado a descrença como acometimento e não mais como mero sintoma. A patologia degenerativa, progressiva e irreversível. O castigo de quem já viveu o suficiente para saber que daqui em diante qualquer encontro é tratamento paliativo da luta desesperada por alívio e um pouco de qualidade de (não) vida. Porque viver vai longe dessa obsessão de organizar palavras na mente e despejar em uma tela que simboliza o único brilho possível de ser refletido nos olhos órfãos de quem ainda se considera filha de um Deus que não tem certeza se já conheceu. 


sábado, 9 de novembro de 2024

Sentença.

 Ninguém está imune.

Em um minuto, em quase imperceptíveis frações de segundo, o portal magicamente real do que se acredita sobre o viver, te suga para um lugar que ninguém sabe bem onde é . Então, o bem que se confunde mal; a saúde se traveste adoecida; a lucidez se converte; a lealdade se cansa e trai; a menina acorda senil e vai crochetar ilusões. Ali, já do outro lado, sem saber  calcular o quanto já caminhou, você segue urdindo a linha do tempo que também mal se sabe quem começou. Você continua tecendo o ponto cruz que cada um precisa carregar e que talvez, apenas talvez, seja mesmo sua.

Ninguém está imune.

O vírus que vem sempre em larga escala, provoca uma epidemia de nostalgias e salpica a vida com grandes saudades e alguma solidão não mensurável, porque, né, a gente não se especializou na gente mesmo. Então, a gente se vacina da gente mesmo e depois quer se embriagar do outro. É claro que não ia dar certo.

Ninguém está imune.

Côncavo ou convexo, na reta final, todo mundo se vê refletido no espelho.  A gente se enxerga  sem querer ver. Mas os olhos da alma não tem como cerrar. E, por isso, às vezes, a gente aperta os olhos para embaçar o que está bem  ali, nua, sem pudor, e crua, sem sabor - a verdade que sussurra:

Ninguém está imune a absolutamente nada.

sábado, 26 de outubro de 2024

Lentes divergentes (para corrigir a miopia)

Sua escrita pífia é restrita a um lamento piegas de quem se sabe responsável por sua própria existência e que conclui, resoluta, ser ela uma coletânea de grandes desilusões e pequenos fracassos.

Sempre numa busca velada por reconhecimento intelectual, é uma pensadora (do simples ato de processar ideias, mesmo) que tem um talento que se restringe  em saber requentar palavras em frases de efeito reformadas por suas péssimas escolhas. Resignada, percebe-se momentaneamente despida de sua mortalha feita de sonhos tímidos e incompetentes,  defronte ao seu espelho julgador. 

Cínica arrependida, não acredita que haja tempo e busca um pretexto que a distraia dessa certeza tão sincera quanto dura, enquanto sente, por alguns segundos, abençoadamente enganada por uma narrativa mundana espiritualizada disfarçada de (mais uma) chance. Carrega a calma dos desiludidos como escudo e empunha a espada dos sentimentos adormecidos, para afastar os maus espíritos.

Esforçada, empenha-se em crer e fazer crer os que lhe são caros, para sua redenção não literal.

Deseja, resumidamente e acima de tudo, o conforto do bom final, pelo que torce que se demore, para que assista a história fazer sentido, afinal de contas,  viver é maravilhoso e um encantador jargão existencial.

terça-feira, 29 de junho de 2021

Ei, você !

Ô, menina, que pena ver você ser assim passada pra trás pelo seu próprio espelho. Se achando o centro do mundo do outro, cega, iludida e melancólica. De uma melancolia tão carente de compreensão, que se defende com a agressividade do órfão abandonado. Arrogância disfarçada de autonomia.

Escuta, moça, deixa eu te contar,  prepotência e autossuficiência só têm em comum a tonicidade das palavras. Já o tônus da vida é reconhecer-se interdependente nas relações que cultiva. Dizer-se conectada  e solidária às pessoas pela empatia, desde que estejam longe e não possam te afrontar, te testar e te tirar do eixo, nunca passou apenas de repertório para suas redes sociais. 

Vem cá, mulher, por que não experimenta a paz que mora nos bastidores dos sentimentos mais simples? Na humildade da autocrítica? Na desafetação? Reconhecer-se ser inacabado é sapiência. Produza o que te alimenta a alma, sem se considerar menos capaz por depender da luminosidade alheia. Estamos todos ao redor do sol, ele não mora no seu umbigo. Deixe que essa ideia te aqueça. E pare de queimar a língua.

domingo, 20 de junho de 2021

Refluxo

Vem das vísceras, o chamado da minha consciência.

O que machuca meu coração dói no meu estômago. 

Por isso quase nunca choro. O que transborda em mim é a bile que me regula e desintoxica. Prefiro a possibilidade de dias amargos que uma história azeda. 

O que busco é o quinto sabor da vida, respeitando meu  sexto sentido, pra não correr o risco de me deixar em segundo plano.

Para digerir certas verdades, as vezes é preciso nausear as incertezas. 

É que coragem requer estômago! 


quarta-feira, 17 de março de 2021

O segundo que fraciona o inteiro

 A gente pisca e o mundo muda.


O sorriso amarela.

A expressão congela.

A paixão aferrece.

O plano se esquece.

A esperança suspende.

A confiança arrepende.


A gente fica na palavra muda.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

E fim


Por que ama esse ser comum? De vontades vulgares e pensamentos também ordinários?


Como foi que o desejo pelo insólito deu lugar à resignação por dias de ambições inócuas?


Mostra a si mesmo a explicação para cessar a busca pelo que lhe afaga , oferece conforto e alimenta sua alma de orgulho.


Assim foi que dia desses interpelou a razão assoberbada de  jamais ao coração desarranjado  de tanto quase.


Ele, de rima pobre com seu paradoxo por mera ironia da língua, travestiu - se da força do seu simbólico e respondeu, sem hesitar, com a simplicidade que tem tudo que é força.


Eu fibrilo e palpita você tanto engano e egoísmo ! Se eu amasse intentando pecúlios, a estima seria por mim e não pelo ser amado.


Você cobiça com um fim. Objetiva  e condiciona, acreditando  ser amor.


Quando é amor a gente "não é resposta".


Por isso  eu amo porque sim.


quinta-feira, 16 de julho de 2020

"Vergonha é roubar e não poder carregar" - como diria a imagem que tenho da minha avó..

Que preguiça de você com essa ideia careta e fora de moda de que para ser cool tem que ser reservado!

Que pena que eu sinto de quem não consegue expor  conquistas ,  divulgar elogios e fazer mala direta do amor.

Quem não gosta de uma emoção descarada, de uma história bem contada e de uma declaração acalorada?

A moça tá lá zombando da foto  e vociferando "que brega", enquanto de lá ele pensa "que dó ".

É que o moço  sabe bem que nas horas mais solitárias e de lealdade máxima por si mesma, o que ela deseja é a ingenuidade dos planos para o futuro, a imaturidade do apelido  piegas e a cafonice do amor revelado nas redes sociais.

Porque os momentos são virtualmente remotos e o fim é inevitável e real.