terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Homem não presta (parte II) **editado





Começou a reparar a moça. Mesmo de costas, pode perceber que era jovem. Uma pele morena meio dourada, não de sol, mas, mesmo assim, bronzeada. Tinha cabelos curtos, na altura dos ombros e encaracolados, meio avermelhados, com a impressão de macios. Não eram cabelos crespos, pareciam até sedosos e estavam um pouco úmidos. Ela deveria ter acabado de sair do banho. Tinha uma cintura bem fina e, como a calça era justa, pode perceber que tinha pernas grossas. Não era muito alta, mas era acima da média para mulheres brasileiras. Fitou sua nuca. Uma pequena tatuagem. Perguntou-se qual perfume ela usava e se seria do gosto dele. Ficou curiosa para ver o seu rosto, quando a moça se virou e, vendo vaga a cadeira ao lado dela, sentou-se ali. Não deu para observar com detalhes, mas viu que ela não era uma mulher bonita. Não era um rosto que chamava atenção pela beleza harmoniosa do rosto, mas a boca carnuda poderia parecer apetitosa para seu namorado, que adorava bocas grandes.

De rabo de olho, observou na altura do quadril da moça. Eram mesmo largo, na dose certa. Enquanto a moça se distraía atendendo uma ligação no celular, com uma voz levemente rouca e arrastando a última sílaba de cada palavra que pronunciava, ela reparou nos pés e nas mãos. Eram meio grosseiros, mas nada que repugnasse. Fingindo desvencilhar seus próprios cabelos do elástico que os prendia, virou a cabeça para o lado dela e olhou demoradamente para seus seios. Eram pequenos e ela estava sem sutiã. A moça deve ter percebido seu olhar, pois, na mesma hora, colocou o celular entre os seios, dando a impressão de ter olhado na sua direção, provocando-a. Ela, de sem graça, parou de reparar. 

A partir de então, teve a impressão de que ela pressionou suas pernas contra as dela. Sem entender porque, percebeu sua respiração acelerar. Teve vontade de molhar os lábios para que ela visse. Fez. Passou os longos cabelos para o outro lado do ombro, o lado onde estava a moça, num gesto sensual. A moça virou o rosto em sua direção, fingindo olhar pela janela. 

Ela não entendia mais nada. Não lembrava mais do moço, nem sentia calafrio ao imaginá-lo atraído pela moça que estava do seu lado. E, agora, sentia os batimentos do seu coração refletindo em suas partes íntimas. Sentia uma umidade e uma pulsação incomuns. O que estaria acontecendo? Isso queria dizer que era  lésbica?

Achou que a moça retribuía a todos os seus olhares, suspiros reprimidos e toques dissimuladamente involuntários e discretos em seus braços e pernas. Não queria mais entender o que se passava ou o que passaria depois que descesse daquele ônibus. Queria encostar seu corpo no dela. Era isso. Não precisou tomar atitude decisiva nenhuma, pois a moça de cabelos encaracolados disse lhe entregando seu celular, “Anota seu número aqui pra mim.” Ela, que teve medo que aquele desejo, que ela nunca havia sentido, passasse, perguntou se ela saltaria ali e a outra respondeu que sim. Perguntou se podia acompanhá-la e a moça com semblante sério, e sem encará-la, respondeu que sim, novamente. “Deve ser a primeira vez pra ela, também”, pensou.

Quando desceram, a menina que não usava sutiã andou um pouco na frente até que a outra que estava a seguindo se emparelhou com ela. Entraram num prédio antigo, subiram dois lances de escada e a moça alta de seios pequenos abriu a primeira porta do lado esquerdo. Era a casa dela. Um porta retrato no aparador, na sala, indicava que sim. A moça que sorria naquela foto quis saber o nome dela, e ela respondeu: Paula. “O meu é Isadora”. Paula, sem conseguir mais conter seus ímpetos, abaixou as alças finas da camiseta de Isadora e colocou as mãos nos seios pequenos e muito duros dela. Apertou as próprias coxas uma contra a outra e quis sentir a tumescência dos bicos do peito dela com a boca. A outra gemendo baixo e sofregamente a conduziu até seu quarto. Deitaram na cama e se beijaram longamente na boca, enquanto se tocavam . Paula sentiu alguma coisa forte, uma ânsia, talvez, e, nessa hora, pediu a Isadora que se levantasse e tirasse a roupa na sua frente, bem devagar. Ela assim fez. Quando se livrou da camiseta que já estava embolada na altura da cintura, Paula pode admirar sua barriga reta adornada por uma cintura bem estreita e por um piercing discreto. Ela abriu o fecho da calça e rebolou de um lado para o outro para conseguir tirá-la. Lá estava aquela maldita calcinha. Totalmente transparente. Bastava mesmo apenas aquele triangulo ínfimo da calcinha para esconder os pouquíssimos pelos que se notava. Depois de algum tempo tateando naquele desconhecido tão instigante, Paula sentiu Isadora empurrá-la para a cama e levantar seu vestido, subitamente. Sem poder fazer mais nada, Paula extasiou-se como nunca em toda a sua vida. Isadora acompanhou o momento e, em seguida, diminuiu o ritmo do movimento que fazia. 

Paula teve certeza que Isadora era uma “veterana” quando ia saindo do apartamento de Isadora sem dizer nada e ela apenas informou: “Gravei meu número no seu celular, pra quando sentir saudades, ou quiser sair da rotina”.

Desceu a rua atordoada, mas com um sorriso de satisfação no rosto. Lembrou do namorado e duvidou que ele já tivesse sentido tamanho prazer. Pensou que poderia disputar com ele a atenção das mulheres na rua e riu. Pensou nele assistindo aquela cena que acabara de se passar. Pensou nos seios duros de Isadora que cabia perfeitamente... Pensou no corpo perfeito dele e em como era bom senti-lo dentro dela. Pensou em lhe fazer uma surpresa.

Horas depois, já no apartamento dele, deitada na cama, exaurida, depois de confirmar como era bom sexo com ele, observou o namorado ligar a TV e sintonizar no canal do jogo de futebol. Pensou que nenhum homem presta e que, por isso, de vez em quando, ligaria para Isadora.

Por Elga Arantes, 2009.

P.S.: Rendi-me às críticas e a falta de graça, editei...




quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Homem não presta (parte I)



Seu ciúme era doentio. E infundado. Ele não dava motivos para tamanha insegurança. E quando a consciência a alertava sobre as injustiças já cometidas com ele,  ela dizia em voz alta para si mesma, e quase que involuntariamente,  que nenhum homem prestava.


Além de patológico, o ciúmes que sentia era atemporal. Sentia ciúmes do passado, do presente e do futuro dele. Torturava-se pensando nas palavras que ele já  teria sussurrado no ouvido da ex namorada, noutros tempos; pensava quanto tempo levou para que ele dissesse a ela o primeiro 'eu te amo', e se ele demorou mais tempo para se declarar a ela que para a ex. Simulava mentalmente uma cena de sexo selvagem entre os dois, se perguntava se ela tinha estrias e celulites, ou se desfilava tranquilamente nua na frente dele ostentando um par de seios perfeitos.


Apesar de bem mais jovem que ele, imaginava o namorado, então já marido, no futuro, a trocando por uma mulher dez anos mais nova. Simulava uma cena onde  os três se encontravam, e ela, já mais prejudicada pelos anos e a preocupação com os dois filhos que eles, certamente, teriam, sentiria-se humilhada ao ser comparada com aquela moça linda e rígida, de coxas grossas, sorriso fresco e segurança de primeira mão.


Mas o que mais lhe atormentava eram as especulações que fazia no tempo presente. Se ele não atendia a alguma ligação do seu celular, ela logo queria saber o porquê. Se ele recusava um convite para acompanhá-la a um evento social e ele dizia estar cansado, ligava na casa dele várias vezes, para ter certeza da veracidade da afirmação. Às vezes, ia mais longe e imaginava que podia ter alguém lá com ele. Assim, vez ou outra, dava uma incerta em sua casa, mentindo saudades ou qualquer coisa do gênero. Tinha pânico em imaginar alguma mulher na arquibancada reparando suas pernas definidas, nas peladas de quarta feira, por isso, quase nunca falhava de dar uma passada lá para lhe dar um beijo, ou esperar o fim do jogo mesmo, apesar de achar um porre o passatempo masculino. Não raras vezes, via uma mulher bonita na rua e imaginava em que circunstâncias ele poderia conhecê-la, se aproximar dela. Imaginava a vagabunda partindo para cima dele com todo seu charme e ele, safado como todo homem, caindo nas suas teias. Se não fosse ele mesmo a atacar a ninfeta. Ou uma coroa sarada.


Agora, sentada no banco daquele ônibus, viu uma moça passar pela roleta - sem reparar maiores detalhes - e se apoiar na barra de ferro do ônibus para pegar o dinheiro na bolsa. Como encontrou dificuldades, a moça sentou com sua bunda enorme (mas nada desproporcional, era preciso ser justa), delimitada por largos quadris, na barra horizontal, logo depois da roleta. O movimento fez com o cós de sua calça jeans se abaixasse e deixasse a mostra a minúscula tanga fio dental que usava. Imaginou seu homem reparando aquela vestimenta (?) de tule preto, que tinha um adorno de flores bem miúdas em tons bebê, que dava uma certa ingenuidade a peça, que, também por isso, tornava-se ainda mais sexy. Pra que tanto apelo sexual? Pra que se fazer tão provocante? Algumas mulheres, também, não prestavam.  


Quando olhou para o lado, viu um senhor olhar fixamente para o corpo da moça. Velho babão! Lambendo, com a testa, as ancas da vadia. Homem não presta, mesmo. Não salva um...


(continua...)



Por Elga Arantes, 2009.



quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

09 de dezembro (ou dia do panetone)


Direta ou indiretamente, no fim das contas, estaremos falando de amor; ou da falta dele. Os episódios escandalosos de corrupção que assistimos diariamente nos noticiários é uma das formas mais desleais de desamor ao próximo. Desleal porque trai, desrespeita, desconsidera e desampara quem acreditou nos seus autores. Desleal porque fomos nós, cidadãos brasileiros, quem escolhemos, para nos representar, aquelas mesmas pessoas que hoje tiram o pão da boca dos nossos filhos; que nos negam o direito à saúde de qualidade; que sucateiam a educação.


A poucos dias, o Ministério Público denunciou que, na região mais carente das nossa Minas Gerais, foram desviados nada menos que R$ 2,5 milhões dos cofres públicos. Dinheiro que deveria ter sido utilizado em educação, saúde, obras sociais e infraestrutura. Os larápios negaram direitos básicos como novos postos de saúde, sistema de abastecimento de água, merenda escolar e medicamentos. Impediram a construção de banheiros, repito, banheiros!, para a população de baixa renda, além da construção de casas para evitar a contaminação por doença de Chagas. Muita gente nem sabe que essa doença ainda existe. É sério! Você também não sabia? Viu?!


Eu entendo como se esses políticos estivessem colocando o barbeiro malfeitor da enfermidade dentro da casa das pessoas que lá vivem. Em cima da cama delas, embaixo dos travesseiros - de quem tem travesseiros. E camas... Fico pensando se todos eles conseguem andar pelas ruas e olhar no rosto de uma criança descalça e sem calças, barriguda de tanto verme na barriga, em frente a uma casa que tem como vista o esgoto a céu aberto  (que, por vezes, é também o sanitário da moradia ) e, simplesmente, ter uma boa noite de sono.


Hoje, no dia internacional de combate a corrupção, assistimos estarrecidos a pancadaria na Praça do Buriti, em Brasília (espero mesmo que a maioria não tenha, de todo, banalizado esse tipo de violência). A PM, literalmente, desceu o cacete nos manifestantes que protestavam contra um governador safado que, por enquanto, nada sofreu por ter recebido propina. Quer dizer, a população é alertada, frequentemente, quanto a responsabilidade de se exercer a cidadania. Somos convocados à participação política e lembrados, a todo o tempo, que até quem não quer fazer política, só com esse discurso já está fazendo. Mas quando assumimos e colocamos em prática a tentativa de exercer nosso direito, de exercer a democracia, somos brutalmente repreendidos. Para não falar espancados. Nós, que temos legitimamente o direito de cobrar de volta o dinheiro tirado dos nossos bolsos, somos rechaçados por uma polícia que deveria defender os homens de bens dos bandidos; dos fora da lei. Enquanto isso, não na sala de justiça, mas, provavelmente, no seu amplo e luxuoso gabinete, o governador de lá assitia a tudo, impunemente. ..É um cenário surreal. Quem reclama, apanha; com quem merece, nada acontece. A polícia alegou estar garantindo o direito das pessoas de IR e VIR. Só se for de IR pra puta que pariu e VIRar chacota de político safado. E nosso direito a saúde, educação, lazer, trabalho, moradia descente, não conta?


A cada paulada que um policial dava, ele batia em cada um de nós, cidadãos brasileiros. A cada tiro de borracha disparado, doía na pele de todos nós. As bombas de gás usadas lá, sufocaram o grito de revolta de todo o povo brasileiro. Espero, sinceramente, que pensemos e sintamos assim. Se não por solidariedade ou cidadania, que seja, pelo menos, por amor próprio. Por que se chover em você, pode respingar no outro, logo aí, do seu lado. Porque, direta ou indiretamente, no fim das contas, estaremos falando de amor; ou da falta dele.


Em tempo, o projeto de lei que tornará inelegível políticos condenados pela justiça em primeira ou única instância precisa de mais gente apoiando e acompanhando para não cair no esquecimento. Com o projeto previsto para ser votado somente no ano que vem, precisamos estar atentos para que o recesso festivo do natal e do ano novo não faça o esforço passar em brancas nuvens. Do branco, só queremos mesmo é a paz de espírito. Mesmo porque, o ano só será novo e feliz, se algo novo e feliz efetivamente acontecer. Leiam as últimas notícias.


Ainda, segue, mais uma vez, agora aqui no blog, a lista  dos políticos desonestos. Por favor, gente, é o mínimo que podemos fazer. Ler a lista e não votar neles. Senão, nem o direito de reclamar verbalmente da situação teremos.


"A penalização por não participares na política, é acabares por ser governado pelos teus inferiores".
Platão



 "O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética... O que me preocupa é o silêncio dos bons." 
Martin Luther King




Por Elga Arantes, 2009.

 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Para que você entenda




"Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas."

Clarice Lispector