quinta-feira, 26 de novembro de 2009

É vagabundo? Então, "Pense Bem"!


Lembro que uma vez, quando criança, minha mãe me levou para escolher um presente de aniversário. Nessa época, ainda os camelôs dominavam o centro de BH. Em frente a loja de brinquedos tinha um desses ambulantes (também de brinquedos, claro!) vendendo um robozinho que andava, tinha luzes que piscavam freneticamente e fazia um barulho infernal. Chamava muita atenção, claro! Eu queria aquele robô, de qualquer jeito. Minha mãe tentou argumentar que aquilo era brinquedo sem garantia, que não era de qualidade, que ia estragar rápido e que não teria como trocar ou consertar, que era caro demais para um brinquedo tão vagabundo. Mas eu queria aquele robô, de qualquer jeito. Então ela negociou: “A gente entra na loja e você olha todos os brinquedos que tem lá. Se depois disso, você ainda quiser ficar com o robozinho, mamãe compra pra você”. E lá fomos nós. Ela tentou de todas as maneiras me convencer a levar algum brinquedo da loja. Coisa boa, de procedência, garantia de fábrica, valia o custo benefício. Devo confessar que tive dúvidas. Até gostei da idéia de ganhar o Pense Bem (nominho providencial, não?) ou a coleção completa dos Ursinhos Carinhosos , mas, no final, sentenciei. Eu queria aquele robô, de qualquer jeito. Optei pelo brinquedo falsificado do Paraguai. Não durou um mês. O brinquedo me deixou na mão. E, para piorar a situação, tive que ouvir o clássico chavão materno: “Eu te avisei, mas você não quis me ouvir! Todo mundo sabe que isso é brinquedo vagabundo; que não vale o que custa”. Depois disso, quando passava em frente a loja de brinquedos e via na vitrine o Pense Bem ou os Ursinhos Carinhosos ficava numa raiva danada da minha teimosia. Mas não tinha mais jeito. Eu não podia mais ter aqueles brinquedos da loja.


Vocês acreditam que, hoje, vinte anos depois, aconteceu isso comigo, de novo?


Tem gente que não aprende, mesmo...


Por Elga Arantes, 2009.



quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Sobre quando ela cansou de deixar subentendido (ou subsentido)



"Eu gosto tanto de você
Que até prefiro esconder
Deixo assim ficar subentendido
Como uma idéia que existe na cabeça
E não tem a menor obrigação de acontecer"

Já amou e foi amada. Tantas vezes, que chegou a conclusão que bastava. Mesmo assim, conheceu gente que valeria a pena repensar sua decisão. Mas optou pela teoria do menor esforço. Quanto menor o esforço, menor o desgaste. Quanto menor o envolvimento, menores os problemas.


Foi assim que, resoluta, decidiu por ele. Para não ter que escolher ninguém. Ele não era opção. Não era cogitável como alguém que ameaçasse suas intenções de não ter intenção nenhuma em relação a alguém. Ele era superficial demais. Totalmente desinteressante pra ela. Mas é claro que ela não estava se referindo à pele, ao corpo, ao desejo. Nisso, ele foi envolvente, desde o começo. Típico de pessoas como ele. Muita prática, experiências distintas acumuladas ao longo dos vários encontros fortuitos. E foi com o argumento da carne que ela se desculpou pelas tantas vezes em que pensou nele e desejou vê-lo de novo. E abraçá-lo de novo. E beijá-lo mais uma vez. E de olhar para ele, de ouvir o que ele tinha a dizer sobre qualquer coisa... Olhar??? Ouvir??? Mas essas eram práticas que, definitivamente, não caberiam entre duas pessoas ligadas apenas pela conveniência; pelo oportunismo. Ela estava encrencada! “Mas não perdida” - tentou se enganar. E foi assim que procurou com todas as suas forças, usando sua lógica, presumindo, censurando-se, resistir àquelas sensações. Nadou contra a correnteza. Fez de tudo. De tudo e tanto que se exauriu.


Ela poderia, mais uma vez, se encher de soberba e dizer que não se importava em saber que, provavelmente, essa história não tivesse um final feliz. Ela poderia simular um realismo cortante e conformado em relação a tudo que já viu e ouviu sobre ele. Ela poderia tentar, mais uma vez, lutar contra tudo o que era (e muitas vezes não queria ser) e dizer que não acreditava em milagres. Ou no amor, não sabia bem. Mas não... Dessa vez, não. Dessa vez, iria confessar suas fraquezas (mas não todas), sua pouca esperteza, quando se tratava de passionalidades, seu romantismo pouco adequado para o momento e dizer que acreditava naquele homem. Que ela acreditava nos dois juntos.


Quando sentia vergonha, ela fechava os olhos, apertando-os.


Ah! Ela acreditava em duendes e fadas, também. (só para não perder o costume...)

"Se amanhã não for nada disso
Caberá só a mim esquecer
O que eu ganho, o que eu perco
Ninguém precisa saber"


Por Elga Arantes, 2009.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

"Deixa eu falar!"

-Alô!

-Por favor, Edu, não desliga! Eu preciso falar. Eu sei que foi horrível, que pisei na bola, mas eu só estou pedindo que me ouça...

-Eu...

-Não, não, não... por favor, não! Eu sei que você está trabalhando agora, que você vai pedir que eu ligue em outro momento, que a gente se encontre mais tarde, mas sei que depois você não irá a encontro nenhum ou, pior, nem vai mais atender meus telefonemas.

-Calma, eu quero te dizer...

-Não! Não, pelo amor de Deus, não! Não me venha com essa conversinha mole, tentando me fazer acreditar que é melhor do que eu. Não tenha pena de mim. Mesmo porque, se subi no balcão daquele bar e fiz aquele strip, foi para chamar sua atenção. Foi a única maneira que encontrei de fazer com que você olhasse pra mim. Mas, no final, já não conseguia mais parar. Eu tinha bebido demais, além do que, todos aqueles homens me olhando, assoviando, me desejando... Mas eu via você, meu amor, juro!

-Olha, é melhor você...

-Eu sei... eu sei... é melhor que eu procure ajuda, não é isso que você ia dizer? Que eu fui uma louca, descontrolada. Que não é a primeira vez que uma coisa nesse nível acontece. Sei disso tudo. Mas queria que você entendesse que dessa vez eu vou procurar ajuda profissional, sim. Apesar de ter certeza de que não sou alcoólatra, quero provar pra você que não sou uma pessoa inflexível, como você disse. É bom mesmo que você ouça de um profissional que não sou nenhuma compulsiva sexual, ou dependente química. Na verdade, meu amor, só dependo mesmo de você para viver.

-Se você parasse...

-De beber? Eu paro! Eu faço o que você quiser, só não me abandone, não desista de mim. Não vou conseguir ficar sem o cheiro do seu corpo, seu suor molhando meu colo, sem seu beijo sussurrado. Preciso sentir você em mim, quero que me machuque, que deixe em mim suas marcas, me mostre que eu tenho dono. Quero você de qualquer jeito, em qualquer lugar...Faça comigo o que quiser!

- ...

-Alô... você ainda está aí? Está me ouvindo?

-Sim...

-Agora pode falar o que quiser.

-Desde o começo eu estou tentando dizer que eu não sou o Edu, que você ligou errado. Mas, agora, começo a acreditar que foi uma ligação providencial. Se você quiser posso ser o Edu, ou quem você quiser, princesa...

-(Tum, tum, tum...)

Por Elga Arantes, 2009.

Ilustração de Galvão em www.vidabesta.com

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Fábula tupiniquim ou Isso não me é estranho!!


Garutatar já andava (às vezes se arrastava) cansada de tanto peso que carregava nas costas, diariamente. Apesar disso, sabia que fora agraciada por ter uma 'moradiaenoite' própria.

Pensava na aranha Dalubeca que, freq
uentemente, tinha o árduo trabalho de ter que tecer uma nova trama cada vez que o 'espalhanador' vinha lhe tirar a tranqüilidade de seus dias, destruindo toda a bela mas frágil 'teteia'.

Também se solidarizava com dona Dalhama Samomi, 'rumumuminante' de nome e sobrenome tradicionais, que vivia também tempos invertidamente estranhos. Soubera que, já há algum tempo, a não mais tão distinta senhora dona vaca até aluguel pagava para morar nas verdes pastagens do 'rirricoatoa' fazendeiro. E dizia sempre que os baldes de leite que lhe eram retirados todos os dias lhe rendiam uma 'estAlfafa' difícil de suportar.


O Cavavailá, incentivador nato de superação de obstáculos na floresta, dera à Garutatar a idéia de procurar pela fada. Chegou a apostar que andaria de pijama um ano na floresta se tal intento não rendessem os resultados esperados. A tartaruga tinha, então, decidido. Encontraria a tal fada dos desejos, Free Will, e lhe exigiria a cota de pedidos a qual tinha direito, assim como todos os habitantes da floresta . Soubera por Nafuça, 'fofoca' de plantão, que todas as manhãs Free Will dedicava, pelo menos duras horas, jogando tênis, pois não suportava mais as gozações daqueles serezinhos 'desengorilaçados' que espalhavam pelos quatro cantos que a semelhança da fadinha com aquela baleia hollywoodiana não era apenas o nome. Todos 'capivariram' em risadas.


Estava suando horrores, afinal, eram noventa e nove (?) os tênis que jogava diariamente. Tais calçados eram da já senil amiga centopéia – nascera aleijada, a 'inveterarbrada'! Pobre! Por isso, apelidaram-na, desde cedo, "Com" :

-Se não é 100, só pode ser Com. E riam-se rãrãrãrãrã.........
(tá bom... essa foi fraca!)


Quem assim explicou foi a longa língua da esposa de Sasapofado. Este vivia pulando a cerca, enquanto a mulher lavava sua roupa suja de 'lixúria' – ele era o gari da floresta. Mas parecia que Sasapofaldo não comia assim tantas moscas. Moscas, não... Ouviram-se dizer que tinh
a um 'casolo' com uma inseta. A divorciada LargadaTa Furacão. Outros especulavam ser o tal anfíbio amigo muito próximo do disneylândico Bambi. Mas nunca se sabe a verdade nesses casos, não é 'lesmo'? Poderia ser o Lesmo, inclusive...


Esperou que Free Will terminasse seu treino e reivindicou:

- Vim requerer meu direito. E exijo meu pedido atendido.

Já havia dona Coruja explicado na escola que o senhor presidente da floresta, o galo Cocolloricó, havia confiscado os desejos dos cidadãos da floresta. Com a recessão, inflação, e com o quadro funcional reduzido, teria a tartaruga direito, então, a um único pedido. “Extinção compulsória”, explicavam as más línguas dos tamanduás, que exterminavam milhares de formigas operárias todos os dias.


- Faça, pois, seu pedido. Que deseja?

- Não posso pedir que me tire a carcaça, pois
assim não terei onde morar. Mas quero um fardo mais leve que essa dura casca. Pensei numa carcaça de alface. Mas apesar de leve, verde é uma cor muito comum, aqui. Desejo, então, uma fashion carcaça de repolho roxo.

E, então, depois de registrar com o 'tabeliAuAu', no 'carToTório', o requerimento assinado em quatro vias por ele e por Perdeu, seu 'avelista', o pardal e, depois de quase três meses de espera, foi concedido o tal desejo.
Era agora uma ágil, brega e satisfeita tartaruga.

Mas ocorreu qu
e um dia deparou-se com as 'maCabras' que, adorando mesmo qualquer vegetal, não demoraram em lhe comer metade de sua casa. Depois, as chuvas abundantes (floresta equatorial, sabe como é!) alagava frequentemente o interior de sua morada, o que lhe havia, também, rendido uma bela pneumonia. As frágeis e perecíveis folhas do repolho não suportaram muito tempo.

Garutatar era agora um quase molusco (mudara mesmo de classe) e sem teto.

Perdeu sua casa e, dizem, a masculinidade. SasaPofado admirou o visual do novo indigente. Achou-o super parecido com o tal Lesmo já mencionado na história e... Deixemos essa parte da história para Nafuça - a 'fofoca'.

Mas, concordavam todos, perderia a casa de qualquer forma. O tal leão já estava atrás dos proprietários cobrando um tal de IPTF – imposto sobre propriedade territorial florestal - que ele não conseguiria mesmo pagar.


Simpatizante do 'ocialismo', Garutatar concluía que livre arbítrio só poderia mesmo ser invenção de americano para ferrar a terra do Pau-Brasil.

O cavalo pagou a aposta!

É, deu zebra!


Por Elga Arantes, 2008


* Quando acabei de escrever o conto, fiquei pensando se a centopéia possuía 100 pernas, ou 100 pares de pernas. Vivendo e aprendendo. Descobri que podem ter de 15 a 190 pares de pernas. Mas, aqui, resolvi deixar como sempre foi no meu imaginário infantil: cinquenta pares de pernas; cem pernas, no total.(excetuando as aleijadas, claro!)

** Releitura, a pedido.

*** Lembram? A zebrinha da loteria esportiva...