
E não sabemos se isso é problema,
Ou é a solução"
Naquele instante, contrariando seus momentos de devaneios solitários, ele sabia exatamente o que o atraia para, cada vez, mais perto dela. Seu ânimo alegremente exaltado em qualquer situação; sua independência; o humor escrachado, meio impróprio, na opinião dele, e, talvez, por isso, tão sedutoramente encantador; e os olhos. Ah... os olhos!E as sobrancelhas! Não conseguia escolher apenas um entre os dois adjetivos, aparentemente contraditórios, para definir sua expressão: força e doçura. A doçura do mel da cor dos seus olhos, muito claros, emoldurados por duas escuras linhas espessas e imponentes. Era um semblante agridoce, o dela. Talvez, por esse motivo, sentisse um leve gosto de torrada com geleia de damasco, cada vez que a beijava. O corpo, os odores mais singulares que os odores também singulares de outras mulheres, o suor tênue, os movimentos esteticamente admiráveis, mesmo nos momentos menos pudicos, a voz um pouco grave que impunha respeito nos momentos mais tensos e a fazia uma mulher irresistivelmente sensual, em outras tantas ocasiões. Assustou-se ao entender que descrevia e detalhava alguém que beijara há algumas poucas semanas.
No começo, zombava do seu jeito de moleca, da sua irresponsabilidade, em momentos onde era aceitável e compreensível ser um pouco desprendida. Aos poucos, foi sendo surpreendido por aquela ex menina e, em poucos dias, passou a admirá-la. Ouvia suas histórias de vida que vinham sempre temperadas com comicidade e despretensão, e se identificava, assim como, com os pontos de vista que ela expunha sobre as coisas, em geral. Noutras vezes, se irritava, sobremaneira, com sua alienação sobre as coisas menos práticas e que situavam-se em esferas mais indiretas e menos acessíveis, mas, ainda assim, conseguia entender seus motivos e perceber seu interesse mascarado. Ela sabia adequar seus argumentos de forma objetiva e, muitas vezes, quase o convencia. Ele se encantava com sua inteligência refinada e explicitada até nas superficialidades, onde poderia ser disfarçada, comumente. E era exatamente assim que ele comprovava a capacidade de juízo daquela mulher.
Mas tudo aquilo se transformava em empecilho quando conjecturava reservar para ela um lugar mais privilegiado em sua vida. Toda a beleza, espontaneidade e alegria causava insegurança, quando pensava na distância que os separava. Toda aquela afinidade, comprovada logo no primeiro encontro, ainda como meros conhecidos, projetava nele um pavor em imaginar afeiçoar-se passionalmente por aquela criatura. Ela ameaçava os projetos mais céticos que ele já fora capaz de desenvolver, ao longo de sua vida adulta.
Se irritava ao pensar que ela era a pessoa certa, na hora errada, e, ao mesmo tempo, a pessoa errada, na hora certa. E como esse paradoxo era perfeito para definir sua vida, naquele momento (!); para ilustrar seus sentimentos em relação a ela; para poder dar a intensidade das suas sensações, em relação as suas certezas, eternamente instáveis. A vida esfregava em sua cara, mais uma vez, a sua completa incapacidade de segurar as rédeas de seu destino, de gerir suas vontades em prol de um objetivo maior. Ele não conseguiria, nunca, fazer suas escolhas. Seria sempre escolhido.
E foi assim que, resoluto, decidiu mais uma vez não decidir nada, pelo menos, nos próximos dias. Aquela firme decisão a respeito de sua indecisão, colocou-o, mais uma vez, em seu devido lugar. Ficou ali, parado, de pé, no centro do saguão, sem saber direito o que fazer. Ele ainda não sabia qual era seu devido lugar. Ganhou um beijo, quando estava distraído:
“Não vai me dar os parabéns?”
“Ô, linda, nem vi você se aproximando...parabéns! Você merece tudo de bom.”
"Obrigada. E, então, onde vai me levar?"
"Desculpe, você me pegou desprevenido; ainda não pensei em nada..."
"Tudo bem, eu escolho. Vamos?"
"Sim, claro!"
"As chaves (?)... Eu dirijo"
"Sim, claro..."
Por Elga Arantes, 2009.

*Ilustrações de Galvão em www.vidabesta.com


