segunda-feira, 29 de junho de 2009

100 km a mais de coisa boa

Sol de inverno no fim da tarde. Pipoca de panela bem salgadinha. Show do Nando Reis. Cerveja e churrasco, sábado à tarde. Ler e cochilar. Começar a ver um filme e cochilar. Só ler. Só ver um filme. Só cochilar. O cheiro da Mel. Comida japonesa. Espirrar. Ganhar no truco. Luz de abajur no quarto de dormir. Madrugada quente, rodeada de amigos. Livros. Toalha limpinha, macia e cheirando a amaciante. Tomar sol e depois mergulhar na piscina. Dormir dentro do ônibus (eu gosto mesmo, e daí?). Ter namorado. Dançar samba, forró, zouk. Pegar o carro e andar sem rumo. Música para escrever, música para tomar banho, música à toda hora. Lavras Novas e Serra do Cipó, fora de feriado. Dormir com chuva. Show do Zeca Baleiro. Comprar sapato. Beijar na boca. Lasanha quente com Coca-Cola gelada. Receber torpedo inesperado no meio do dia. Ir para Jabó. Achar dinheiro no bolso da calça. Banana quente com leite condensado e canela. Escrever. Shampoo de andiroba. Feriado prolongado. Ler o Blog dos outros. Roupa de cama limpa depois de um dia cansativo. Ver desenho abraçada com a Mel. Tomar Cuba até ficar "molinha". Show do Copo Lagoinha. Ser professora. Comer Nutela puro, na colher. Receber elogios. Sexo. Dormir depois do almoço. Nadar até ficar com as coxas doendo. Fotografias. Roupa usada cheirando a perfume. Água para beber. Ler carta antiga. Dar presentes. Chocolate quente em noite fria. Ficar rouca de tanto cantar. Jogar buraco em dia de chuva. Estar solteira. Roda de violão. Fazer os outros rirem. Levantar, tomar café da manhã e voltar a dormir. Massagem do meu pai. Palmito. Falar "genuflexório". Escovar os dentes. Rock dos anos 80. Amigos antigos. Amigos virtuais. Novos amigos. Creme para o corpo. Comer uma caixa de Bis sozinha e de uma vez só. Ser mãe. Estralar os dedos das mãos ao acordar. Orgasmo. Revistinha em quadrinhos. Calcinha e sutiã novos. Show do Ultaje à Rigor. Leite. Receber um bilhete entregue pela moça do pedágio, a pedido do motorista do carro da frente, que viajava na mesma estrada que eu.

***

- A vida ultrapassa minhas expectativas até em pista de faixa contínua.
- Nó, que brega!
- Brega é esse cd que você colocou pra tocar.

- "Fada... Fada querida... Dona... Da minha vida..." - Olhando para a outra com um sorrisinho debochado e segurando uma escova de cabelo como se fosse um microfone.
- Mas é brega demais!!!

Por Elga Arantes, 2009.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Queria ter uma foto com ela

Eu queria poder falar mais dela.
Queria saber falar dela.
Queria conviver com ela.

Mas posso pouco.
Porque sei pouco.
E convivo nada.

Sei que ela é um amor, e que tem um grande amor. Que escreve sobre o amor. Que vive para o amor.

Sei que ela vai catando as palavras com as mãos, as embola, depois sopra e lança aos céus, como se fossem pássaros; ou borboletas. E elas voam. Mais coloridas e musicais. E, ao mesmo tempo, transparentes e delicadas. Como bolhas de sabão.

Sei da sua feminilidade expressa nos cabelos longos e no sorriso franco. Na forma delicada de se exprimir. No nome que rotula sua beleza inegável.

Sei da sensibilidade legitimada nas artes. Nas cênicas, nas da escrita, nas outras tantas que, estou certa, ela exercita. E cultiva, principalmente. Porque é cuidadosa, cuidadora e dedicada.

Afora isso, não sei mais nada. Isso é tudo o que sei. Isso é tudo o que preciso saber para adorá-la.

Penso que é daquelas pessoas que, ao falar, olham a gente nos olhos. E que, ao ouvir, não desvia a atenção nem por um segundo. Não se distrair com qualquer que seja o “ao redor”, ao redor. E, ainda assim, dá conta de tudo que está a sua volta.

Penso que adora vestidos, saia de roda, que é para combinar com a leveza e o refinamento que mostra quando dança por entre as bolinhas analogicamente coloridas do seu mundo paralelo.

Penso que seu poder está numa varinha de condão que, junto com sua verdadeira identidade, são seus maiores segredos. Assim, como os heróis e as heroínas das tantas histórias. Penso que ela é uma fada.

Penso em como tive sorte em encontrá-la. Penso em como gostaria de abraçá-la no seu ano novo. Em como gostaria que a distância física fosse, pelo menos, menor. Mas lembro da proximidade de almas e fica tudo mais sereno...

Penso que ela não sabe quem é, pois sua lindeza é tamanha que não caberia no espaço de nenhuma certeza.

Sei que só penso; e só penso que sei. E são nessas conjecturas e imprecisões que vou construindo uma amizade que sei que já existe. E penso que ela sabe, também.

P.S.: Também sei que não fará mal nenhum se eu manipular a data da postagem para que seja no dia do aniversário dela. Penso que ela vai gostar. Ah! Sei que ela gosta de U2.

Por Elga Arantes, 2009


 u2 - With Or Without Out You

Constância Aparecida

Se alguém me perguntava se eu ia trabalhar de carro, respondia: "Vou de ônibus. É que tive que vender meu carro quando me casei”. Se perguntavam quanto tempo tinha de formada, defendia-me: "Demorei a me formar porque sofri um acidente que adiou meus planos". Se indagavam quem foi que bateu o martelo para o fim do meu casamento, explicava: “Foi ele quem não quis mais. Mas, apesar de ele já ter me procurado depois, hoje vejo que a separação foi a opção mais acertada”. Se alguém fazia cara de desprezo quando eu respondia ter feito pedagogia, logo justificava: “Comecei a fazer quatro cursos antes de ter coragem de assumir que queria mesmo era fazer pedagogia”.

Esta última resposta era a pior, porque fazia um estrago enorme com uma resposta burra e egoísta. Egoísta porque só estava mesmo pensando em mim, quando tentava justificar qualquer dúvida que pudesse surgir a respeito da minha capacidade intelectual, contando que passei em vários vestibulares e que não foi por falta de competência que não escolhi outro curso. Burra, já que, ao invés de ajudar a combater o preconceito com o curso e o estigma da profissão de educador, acabava fazendo justamente o contrário, ajudando na desvalorização dos profissionais da área.

A negação da recusa do outro, o medo de parecer incompetente, a vontade de se mostrar especial... Orgulho? Vaidade? Soberba? Primeiro, o reconhecimento da pouca nobreza. Depois, a proposta íntima da mudança de hábitos e de atitudes. O desejo de ser alguém melhor para mim e para o resto do mundo. O peito aquecido, o brio frouxo e um apreço adequado por mim mesma.

Mais tarde, quase desisti. Pensei em não publicar esse texto, caro leitor. Tive medo que alguém comentasse (publicamente ou não) algo do tipo: “Forma inteligente de autopromoção. Você se faz de humilde e, pelo tom autopunitivo, ninguém percebe o objetivo maior do desabafo.” Indo mais além, alguém, ainda, poderia pensar que até essa simulação de comentário seria uma estratégia de parecer menos e aparecer mais. E, seguindo essa linha de raciocínio, isso não teria fim.

Mas querem saber? É o risco que se corre quem torna públicos seus devaneios. A gente pode parecer muito inteligente, muito inseguro, muito arrogante, muito carente ou, simplesmente, muito GENTE! É, gente, porque a gente é assim; porque gente é assim; até o agente é assim. Ou não!

Fato é que, incompetência, fatalidade ou falta de talento, é a vida que tenho. Sou eu e como estou, no momento. Até a sorte, ou a falta dela, me pertence, e, sendo assim, devo assumir a MINHA falta de sorte – nos casos em que imagino ser ela a responsável por algo que me ocorreu.

Noves fora, zero: zero mesmo. Volto a estaca zero. E isso quer dizer, devo explicar, que tal desafogo não é garantia de que amanhã não dê as mesmas respostas mascaradas às perguntas que me fizerem. Porque eu posso ter muitas dúvidas a meu respeito; posso me estranhar, de vez em quando (ou na maioria dos dias); posso não saber me descrever e nem mesmo ter a certeza de ser uma boa ou uma má pessoa. Mas não duvidem de uma coisa: sou uma pessoa inconstante. Em alguns aspectos... Em outros, não. Nestes outros, só um pouquinho... Às vezes. Ou não... Dependendo da situação. Ou da cor da saia que estou usando. Mas eu nem uso saias... Geralmente, não. Curtas. Longas, sim.

Eu poderia me chamar Aparecida. Constância, não!

“... o ser humano é contraditório. Um punhado de bem, um punhado de mal. É só misturar com água.” (Zusak, Markus, 2007)

Por Elga Arantes, 2009.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

"Você lembra da Nayara?" *


Aos doze anos, era a mais inteligente
, a mais doce e a mais lerda da turma de sexta série. Meu pai, que achava engraçado seu nome, a chamava de “Priscila Rapidinha”. Dizia ele que pelo acento gráfico no lugar errado (?). Vai entender... Eu achava, além de engraçado, um apelido contraditório. Rápida era uma coisa que, definitivamente, ela nunca foi.

Hoje, mais de vinte anos depois, ela continua inteligente, doce e... lerda! A diferença, de lá para cá, é a certeza do quão indispensável se tornou sua amizade, ao longo desses anos. Também não posso deixar de mencionar sobre sua memória de longo prazo. Ou melhor, da inexistência desta. Ela não se lembra de nada que aconteceu há mais de cinco anos. Uma espécie de Alzheimer às avessas. Ela é mesmo peculiar em tudo.

É romântica, sem deixar de ser realista; meiga, sem deixar de ser forte; generosa, sem deixar de ser justa. É franca, responsável e amiga. Além de ser uma “morena de parar o trânsito”, como dizem alguns amigos.

Ela é como seu nome. Originalmente comum, mas, na prática, original, pela forma acentuada de lidar com as coisas do mundo, com as situações que a vida lhe apresenta.

É ética, crítica, pacífica, prática (Rápida, não!). É fantástica! É proparoxítona! É Príscila! E não há acordo ortográfico, nem de espécie alguma, capaz de mudar isso.

Príscila, que seu ano novo seja repleto de amor, saúde e paz. Amo você.


*Nayara é uma grande amiga da Príscila que ela me apresentou há uns dez anos atrás, quando viajamos juntas (as três) no carnaval. Até hoje, TODAS AS VEZES em que a Priscila se refere a Nayara para mim, pegunta: “Você lembra da Nayara?”. Virou chacota.

Por Elga Arantes, 2009.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Minha palavra de honra, nessas palavras confessas

"Um erro assim tão vulgar
Nos persegue a noite inteira
E, quando acaba a bebedeira
Ele consegue nos achar"


Não me leve tão a sério, assim!

Não que eu não seja sincera; sou até demais! Mas você já deveria saber que meus sentimentos são tão sinceros quanto efêmeros.

Também, não me venha com “não me toques”, nem “pise em ovos” ao falar comigo. E pode relaxar e desfazer essa cara de preocupação que você faz quando digo que estou morrendo de saudades. Não fantasie acreditando que tenho por ti um amor irrestrito. É que sou mesmo assim: Exagerada, inflamada, apaixonada! Apaixonada pela vida, apaixonada por meus desejos, apaixonada pela idéia de me apaixonar, mais uma vez.

Por enquanto, vou exercitando minha capacidade de amar o mundo, através de você. Preciso do concreto para exercitar o abstrato. Preciso de uma imagem. De um rosto para quando precisar pensar em alguém. De inspiração para exorcizar minha escrita. De um número gravado em meu celular para ligar nas madrugadas solitárias em que estou cercada de gente bacana. Minha paixão precisa de uma expressão humana para não cair por terra. Minha esperança precisa de movimento para não cair no ostracismo.

Preciso me permitir. Preciso da sua permissão para usar o que você tem de melhor para mim. Nosso passado, nossa história. Um amor que não caiu doente e definhou até a derradeira. Um amor que morreu são. Por isso, são boas lembranças, as nossas. E por serem nossas, suas e minhas, é que me dou o direito de me apropriar de sentimentos que são atemporais por serem sublimes e belos.

E enquanto isso tudo durar, será eterno e intenso. Assim mesmo, do jeitinho que sou; aos olhos do mundo e aos seus.

Fique tranquilo, devolverei você ileso. Com o corpo bem tratado, o ego acariciado, o coração afagado e a alma em paz. Ficaremos em paz. Uma paz que só vai acabar com a inquietude bem-vinda de uma paixão.

Porque não é por você que estou apaixonada. A paixão é pela vontade. E a vontade é de paixão.

"E eu falei, 'nem pensar'..."
(...)
"Eu fui sincero como não se pode ser."

Por Elga Arantes, 2009.

Ilustração: www.vidabesta.com

quinta-feira, 4 de junho de 2009

"TREM BOM É COISA BOA!!!"

 Zeca Baleiro - Até o fim (Música Completa)


Era um bom dia. Nada de extraordinário, como achava que deveriam ser os dias mais felizes, portanto, era um dia normal. Normalmente bom.

Na sessão de terapia, depois de explanar vagamente sobre sua trajetória pessoal, a terapeuta foi adiante com seu plano.


- Diga-me, qual foi a pior dor que já pode experimentar. Mostre-me sua pior cicatriz. Aquela que hoje mais te incomoda.


Fechou os olhos e pensou nas várias vezes em que sofreu e se decepcionou. Nas vezes em que quase desistiu e nas que não pode resistir e se entre
gou. Pensou nas noites em claro que passou chorando pelo primeiro namorado. Na sua inexperiência que não a deixou enxergar e na ingenuidade que a fez acreditar que toda história de amor tinha final feliz. Lembrou do ciúme doentio que a fez desistir da segunda e avassaladora paixão. Recordou das dores que a força da distância, a crueldade do tempo e a falta de vigilância nos valores mais nobres lhe causaram, quando do fim do amor mais forte que já vivera. Lembrou da decepção, do abandono, da solidão. Dos problemas com sua família, desde os sacrifícios de sua mãe até a irresponsabilidade de seu pai. Na perda trágica de entes queridos. Do desastre financeiro. Dos obstáculos que afetaram, de forma irreversível, sua carreira. Em quanto tempo já tinha perdido.

Depois, apertou os olhos e lembrou do primeiro
beijo, de música popular brasileira, dos lugares que conheceu, de banana quente com canela e leite condensado, nas noites eternas que viveu. De som de piano e saxofone, de entrar no mar em dias de sol quente, de samba, das medalhas que ganhou no ballet, das cartas de amor que tem guardadas. De dormir depois uma noite inteira dançando em festas memoráveis, do céu estrelado da pequena cidade do interior, de cheiro de dama-da-noite do jardim da casa de campo, das declarações de amor que já ouviu, da filha...

E já com os olhos abertos, pensou em como ainda era jovem e no tempo que tinha pela frente. Nas músicas que ainda aprenderia a cantar, nas viagens que ainda faria, nos amores que poderia viver e no amor maior que vivia diariamente. Nos pés que ainda doeriam muito de tanto dançar, no perfume dos cavalheiros-da-noite, das cartas que ainda escreveria, nos novos tombos e nas novas cicatrizes.

Por fim, teve certeza. Levantou a barra da calça jeans que vestia, apontou nas marcas e disse:

- As da perna. Essas cicatrizes são as que mais me incomodam, hoje.

Naquele mesmo dia, extraordinariamente bom, foi que ela recebeu alta na terapia e mudou seu conceito particular para dia feliz. Hoje, ela procura o nome de um bom cirurgião plástico.


Por Elga Arantes, 2009.