quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Tomara que seja a última vez, neste ano...

Falta coragem!
Falta coragem para sentir a dor que expurga ou condena.
Sair do coma (morte súbita ou redenção).
Entender a posição. Aceitar as alternativas. Mostrar disposição.
Recolher todo o querer que se espalhou ao redor.
Sentimento desperdiçado...
Transbordou e secou formando uma crosta que cimentou meus pés nesse chão que não é mais meu. Chão etéreo. Chão batido e úmido. Não! A poeira, aqui, não sobe mais.
E para a hemorragia de emoções, um torniquete de realidade. Para anemia da apatia, transfusão de amor. Quem terá sangue compatível com o meu?
Tudo aqui paira. A vontade, os sonhos, as ações.
Quem pode saber por quê?
Quem se atreve a ter certeza?
Quem arrisca uma sentença?
Se nada é definitivo, porque a permanência do indesejado?
Talvez com o liquidificador ligado, o som, a TV e todas as luzes acesas, eu me sinta menos só.
Quem sabe com as luzes apagadas essa casa pareça menor.
Quem sabe se eu fechar os olhos enxergue qualquer coisa.
Vou fazer força para querer muito alguma coisa.
Quem sabe um ano novo para esperanças envelhecidas por um desejo antigo...
Quem sabe?
Sabe quem?
No fundo, eu sei!

Por Elga Arantes, 2008.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

SOCORRO!!!!!!!!!!!

"Socorro, não estou sentindo nada; nem medo, nem calor, nem fogo. Não vai dar mais pra chorar, nem pra rir. Socorro, alguma alma, mesmo que penada, me empreste suas penas. Já não sinto amor, nem dor, já não sinto nada. Socorro, alguém me dê um coração, que esse já não bate, nem apanha. Por favor, uma emoção pequena; qualquer coisa. Qualquer coisa que se sinta; em tantos sentimentos deve ter algum que sirva. Socorro, alguma rua que me dê sentido, em qualquer cruzamento, acostamento, encruzilhada. Socorro, eu já não sinto nada, nada!"

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A golpes de Machado, Assis estou

São cem anos. E de morte! Ninguém com uma comemoração póstuma centenária e tão célebre poderia ser mera burla. Isso é que não. Tal sentença foi que me levou a temer a irresponsabilidade de falar do que experimentei no sentido de “verificar pelo uso”, e não na acepção literal e fiel de “tentar, analisa e aprender”. Minha homenagem ao ilustre escritor e jornalista foi esta: Fechei os olhos ao reler suas obras para que meu coração revoasse por terras onde nunca esteve.

Apreciar a beleza fascinante nos feitos de Machado de Assis fora mais prazeroso que confirmar, voluntariamente, a relevância da grandiosa obra do autor. Sempre preteri o senso comum às minhas sensações mais subjetivas. E, hoje, posso falar que a golpes de “Machado”, “Assis” me sinto.

Com exatidão ainda maior, a identificação é mesmo com Bentinho. Maior que a exatidão é, decerto, a franqueza à qual me obriga confessar que a cobiça era de enxergar-me em Capitu; ou um pouco dela em mim. Não pela dissimulação ou fim manipulador que produzia no amante atormentado; é um poder que não almejo, mas pelo olhar célebre! A ressaca que mais que o recuo do mar, entende a aproximação alvoroçada das ondas com as areias virgens. E o motim, quase sempre me alucina.

Entretanto, apesar do frenesi que me habita, receio que o efeito produzido seja de marola, e que não signifique mais que ternura, admiração, intimidade ou crédito. Não todos juntos, pois se assim fosse, um único vocábulo derrogaria os demais, neste articulado.

Assim, percebo-me, analogicamente, - posto ser, contraditoriamente, uma ficção que parece afirmar a existência de uma realidade que independe do que se conhece dela - como o personagem pueril e um tanto meticuloso, para não usar outro adjetivo tão banal quanto torpe. O menino quase homem que acreditava no desfecho ditoso de suas imaginações mais extravagantes. E acredito-me, por pretender que somos intimamente parecidos, que se felicitava por tais devaneios. Precisava deles para manter a chispa que se lhe tornara o que possuía de mais egrégio em sua vida. Esta que não mais dele era e que não sabia se algum dia fora, ou se a retomaria.

Esses sentimentos já existiam antes de ler com a alma palavras que, outrora, somente os olhos enxergavam. Eu já existia antes de Machado de Assis e seu Dom. Esses, mais evidente e magnificamente, já se manifestavam também, bem antes de mim. A diferença é que o “eu” de hoje compreende e perdoa a arrogância ingênua do “eu” de ontem e desconfia de si, refletindo sempre. Mas nunca, nunca desacreditando no futuro de quaisquer que sejam os personagens que escolher para confessar suas urgências.

Por Elga Arantes, 2008.