São cem anos. E de morte! Ninguém com uma comemoração póstuma centenária e tão célebre poderia ser mera burla. Isso é que não. Tal sentença foi que me levou a temer a irresponsabilidade de falar do que experimentei no sentido de “verificar pelo uso”, e não na acepção literal e fiel de “tentar, analisa e aprender”. Minha homenagem ao ilustre escritor e jornalista foi esta: Fechei os olhos ao reler suas obras para que meu coração revoasse por terras onde nunca esteve.
Apreciar a beleza fascinante nos feitos de Machado de Assis fora mais prazeroso que confirmar, voluntariamente, a relevância da grandiosa obra do autor. Sempre preteri o senso comum às minhas sensações mais subjetivas. E, hoje, posso falar que a golpes de “Machado”, “Assis” me sinto.
Com exatidão ainda maior, a identificação é mesmo com Bentinho. Maior que a exatidão é, decerto, a franqueza à qual me obriga confessar que a cobiça era de enxergar-me em Capitu; ou um pouco dela em mim. Não pela dissimulação ou fim manipulador que produzia no amante atormentado; é um poder que não almejo, mas pelo olhar célebre! A ressaca que mais que o recuo do mar, entende a aproximação alvoroçada das ondas com as areias virgens. E o motim, quase sempre me alucina.
Entretanto, apesar do frenesi que me habita, receio que o efeito produzido seja de marola, e que não signifique mais que ternura, admiração, intimidade ou crédito. Não todos juntos, pois se assim fosse, um único vocábulo derrogaria os demais, neste articulado.
Assim, percebo-me, analogicamente, - posto ser, contraditoriamente, uma ficção que parece afirmar a existência de uma realidade que independe do que se conhece dela - como o personagem pueril e um tanto meticuloso, para não usar outro adjetivo tão banal quanto torpe. O menino quase homem que acreditava no desfecho ditoso de suas imaginações mais extravagantes. E acredito-me, por pretender que somos intimamente parecidos, que se felicitava por tais devaneios. Precisava deles para manter a chispa que se lhe tornara o que possuía de mais egrégio em sua vida. Esta que não mais dele era e que não sabia se algum dia fora, ou se a retomaria.
Esses sentimentos já existiam antes de ler com a alma palavras que, outrora, somente os olhos enxergavam. Eu já existia antes de Machado de Assis e seu Dom. Esses, mais evidente e magnificamente, já se manifestavam também, bem antes de mim. A diferença é que o “eu” de hoje compreende e perdoa a arrogância ingênua do “eu” de ontem e desconfia de si, refletindo sempre. Mas nunca, nunca desacreditando no futuro de quaisquer que sejam os personagens que escolher para confessar suas urgências.
Por Elga Arantes, 2008.