
Ninguém me convidara a assistir àquele filme, mas era quase uma obrigação social.
Ouvindo os comentários alheios, pude perceber diferentes percepções dos expectadores sobre o enredo. Além disso, discordavam até sobre a que gênero pertencia. Houve quem acreditasse se tratar de uma comédia romântica. Também apostavam em filme de aventura, suspense. Mas eu continuava afirmando ser um drama.
Tudo bem, era um romance. Também havia uma ou outra situação inusitada que provocasse risadas. Muita adrenalina. Nenhuma ‘sacação’. Mas era bem mais trágico do que cômico. Não via, realmente, ninguém às gargalhadas na platéia, menos ainda estavam a sorrir os atores.
Ela, a protagonista, ainda guardava traços de sua meiguice primordial, a doçura a acompanhara na adolescência, mas na sucessão dos acontecimentos mais recentes foram sendo, por ela mesma, deixadas de lado. Sua amabilidade parecia algo muito mais calculado do que um traço de seu temperamento natural. Tornara-se agressiva e pouco solícita com os mais próximos.
A culpa, se existia, não era dele, certamente, ao menos não de forma absoluta. Mas sua participação na mudança daquele perfil era óbvia. Parecia também sofrer com a dicotomia. Ele se dividia entre a marola e o tsunami, entre o inferno e o céu, entre a certeza e a dúvida. Mas não sabia o que, exatamente, em tal paradoxo era certo e o que era errado. Menos ainda, não sabia distinguir quem desempenhava cada um daqueles papéis tão controversos em sua vida. Pior! Não sabia qual daquelas sensações provocadas pelo mar de dúvidas ou pela posição social naquelas convenções lhe fazia se sentir melhor. Não era mesmo possível definir quem fazia parte do time do bem e quem tinha um pacto com ‘o coisa ruim'.
Tinha certa originalidade, aquela trama. Não havia mocinho ou mocinha, mas também não se percebiam vilões. Ela se dividia entre sua dignidade e o amor por aquele homem. E ele, bem sabia disso. Era, por demais, sensível. Talvez, ainda, surpreendesse no final da trama revelando um competente poder de dissimulação.
Ela acreditava em tudo que ele dizia. A maioria da platéia, não. Eu não fazia parte da maioria, mas tinha um certo medo de perder a aposta. Ela fingia, porém, não acreditar em quase nada. Era socialmente correto e intimamente mais fácil mentir as sensações que aquela história lhe provocava.
À certa altura da trama, demonstravam mesmo que não queriam decidir a questão. Resolver aquele impasse parecia ter se tornado o objetivo maior na vivência de cada um. Teriam medo, talvez, de não mais sentir as emoções provocadas por aquela indecisão. Aquele movimento deveria, de alguma forma, agradá-los. Mesmo que fosse a dor o estímulo de tal movimento.
Comecei a duvidar fosse aquele, realmente, um drama. Confundia-me as idéias como um suspense policial. Se fosse em DVD, decepcionaria os amantes de cinema rebubinando o disco várias vezes. Noutros instantes, lembrava mesmo um daqueles clássicos do início do século passado - interminavelmente chato de se assistir, mas culturalmente essencial. Para não ter que voltar a falar na responsabilidade com os laços sociais e o respeito pelos que me são caros.
Finalmente, tive certeza. Era uma série de ficção científica de poucos recursos. Soube disso logo que saí da sala de cinema, antes do final do filme, já impaciente com o ‘nhém-nhém-nhém’ infindo desse. Lá fora, encontrei-me com os atores interagindo com o mesmo mundo que eu. Eram também os diretores. Eu, já era, a essa altura, coadjuvante. Não fui sugada pelo jogo como em ‘Jumanji’, mas mergulhei naquela película de cabeça.
Esperemos o próximo filme da possível trilogia. Sugeri ao corpo técnico algumas modificações. Será que acatarão? (é de praxe que os filmes de série acabem com uma pergunta que instigue os expectadores...).
Por Elga Arantes, 2008.








