quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Controle remoto no cinema?



Ninguém me convidara a assistir àquele filme, mas era quase uma obrigação social.

Ouvindo os comentários alheios, pude perceber diferentes percepções dos expectadores sobre o enredo. Além disso, discordavam até sobre a que gênero pertencia. Houve quem acreditasse se tratar de uma comédia romântica. Também apostavam em filme de aventura, suspense. Mas eu continuava afirmando ser um drama.

Tudo bem, era um romance. Também havia uma ou outra situação inusitada que provocasse risadas. Muita adrenalina. Nenhuma ‘sacação’. Mas era bem mais trágico do que cômico. Não via, realmente, ninguém às gargalhadas na platéia, menos ainda estavam a sorrir os atores.

Ela, a protagonista, ainda guardava traços de sua meiguice primordial, a doçura a acompanhara na adolescência, mas na sucessão dos acontecimentos mais recentes foram sendo, por ela mesma, deixadas de lado. Sua amabilidade parecia algo muito mais calculado do que um traço de seu temperamento natural. Tornara-se agressiva e pouco solícita com os mais próximos.

A culpa, se existia, não era dele, certamente, ao menos não de forma absoluta. Mas sua participação na mudança daquele perfil era óbvia. Parecia também sofrer com a dicotomia. Ele se dividia entre a marola e o tsunami, entre o inferno e o céu, entre a certeza e a dúvida. Mas não sabia o que, exatamente, em tal paradoxo era certo e o que era errado. Menos ainda, não sabia distinguir quem desempenhava cada um daqueles papéis tão controversos em sua vida. Pior! Não sabia qual daquelas sensações provocadas pelo mar de dúvidas ou pela posição social naquelas convenções lhe fazia se sentir melhor. Não era mesmo possível definir quem fazia parte do time do bem e quem tinha um pacto com ‘o coisa ruim'.

Tinha certa originalidade, aquela trama. Não havia mocinho ou mocinha, mas também não se percebiam vilões. Ela se dividia entre sua dignidade e o amor por aquele homem. E ele, bem sabia disso. Era, por demais, sensível. Talvez, ainda, surpreendesse no final da trama revelando um competente poder de dissimulação.

Ela acreditava em tudo que ele dizia. A maioria da platéia, não. Eu não fazia parte da maioria, mas tinha um certo medo de perder a aposta. Ela fingia, porém, não acreditar em quase nada. Era socialmente correto e intimamente mais fácil mentir as sensações que aquela história lhe provocava.

À certa altura da trama, demonstravam mesmo que não queriam decidir a questão. Resolver aquele impasse parecia ter se tornado o objetivo maior na vivência de cada um. Teriam medo, talvez, de não mais sentir as emoções provocadas por aquela indecisão. Aquele movimento deveria, de alguma forma, agradá-los. Mesmo que fosse a dor o estímulo de tal movimento.

Comecei a duvidar fosse aquele, realmente, um drama. Confundia-me as idéias como um suspense policial. Se fosse em DVD, decepcionaria os amantes de cinema rebubinando o disco várias vezes. Noutros instantes, lembrava mesmo um daqueles clássicos do início do século passado - interminavelmente chato de se assistir, mas culturalmente essencial. Para não ter que voltar a falar na responsabilidade com os laços sociais e o respeito pelos que me são caros.

Finalmente, tive certeza. Era uma série de ficção científica de poucos recursos. Soube disso logo que saí da sala de cinema, antes do final do filme, já impaciente com o ‘nhém-nhém-nhém’ infindo desse. Lá fora, encontrei-me com os atores interagindo com o mesmo mundo que eu. Eram também os diretores. Eu, já era, a essa altura, coadjuvante. Não fui sugada pelo jogo como em ‘Jumanji’, mas mergulhei naquela película de cabeça.

Esperemos o próximo filme da possível trilogia. Sugeri ao corpo técnico algumas modificações. Será que acatarão? (é de praxe que os filmes de série acabem com uma pergunta que instigue os expectadores...).

Por Elga Arantes, 2008.

domingo, 24 de agosto de 2008

Exatamente, assim:




Metade
(Oswaldo Montenegro)


Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
porque metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço
e que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita em meu rosto num doce sorriso
que eu me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o teu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também.

***

A grande diferença entre o impressívo e a genialidade:
fazer com que as dores, os amores e todas as urgências do espírito sejam explanadas de forma extraordinariamente precisa.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

"Cogito, ergo sum"

O homem que não tinha nome acordou cedo, mas se levantou tarde. Não tinha motivos para amanhecer mais cedo. Fugia do céu azul e do café preto sem açúcar.

O som rotineiro dos afazeres domésticos parecia perfurar seu tímpano, tamanho incômodo que lhe causava. Não era preciso se esforçar para ouvir o barulho nada sintônico da máquina de lavar trabalhando ou o chiado alucinado da panela com feijão reclamando da pressão que sofria. E quando reparou na cantoria desafinada e confiante da empregada lavando a varanda, seu sentimento já era de extrema repulsa, quase ódio. Odiava mesmo calcanhares rachados. E como os dela eram redondos! Ela tentou secar as gotas de suor no buço com os lábios inferiores e o homem então percebeu que ela tinha um bigode incipiente e que suas sobrancelhas eram quase uma só. Teve asco. Depois sentiu vergonha e parou de mirar. “Qual era mesmo o nome daquela senhora?”. O homem sem nome não guardava o nome de ninguém - talvez uma desforra pueril.

Quando teve consciência da confusão de seus sentidos, fechou os olhos, inspirou e expirou com uma arbitrariedade pungente, como se o gesto fosse colocá-lo nos eixos novamente. Claro, foi em vão. Há dias tentava analisar que tipo de transfiguração interna o consumia sem obter resposta. Não conseguia ao menos formular suposições admissíveis. O homem que não tinha nome carregava sensações inomináveis.

Tinha o que fazer, mas achou que nada era mais importante do que observar as veias aparentes de seus pés magros e ressecados. Pensou em um hidratante, contudo teve receio que isso ameaçasse sua masculinidade. Aliás, já se preocupava com o mero pensamento a respeito. De assalto, sentiu vontade de chorar, “Isso sim seria uma manifestação de sua sexualidade abalada”, conjecturou. O homem não tinha nome, não sabia dar nome as coisas e não conseguia perceber que certas coisas tinham mais de um nome.

Fez força para pensar em alguma coisa que o abrandasse. Ao contrário, um pensamento retraído o tomou. Sentiu uma leve mágoa em seu peito. Lembrou da caderneta de contatos. Eram tantos nomes! De alguns daqueles, ele não se lembrava mais, outros tantos, certamente, não se lembrariam dele. O restante ... Um novo sopro afligiu seu coração. Fechou a caderneta com raiva. Quis queimá-la, mas se acovardou. Tinha, realmente, pavor de ficar só. Mesmo que algumas vezes seus pensamentos fossem melhor companhia (apesar de deixá-lo exaurido). Era um homem sem nome e sem coragem.

Finalmente, sentenciou. Pretendia alívio. Derrogaria a exaustão. Não deveria mais cogitar, refletir, imaginar, raciocinar, supor. Não queria mais pensar. Em nada. Descartes soprou no seu ouvido, ordenando-o em tom de senso comum. Subiu até o terraço. Ia pular. Sentiu o vento. Sem olhar para baixo fechou os olhos e suspirou movimentando os ombros.

Era um homem sem nome e sem coragem. Desceu as escadas já sentindo fome. Teve vontade. Vontade de comer carne moída salgada, com angu sem tempero e couve.

Apolinário era mesmo um homem de muita personalidade!

Por Elga Arantes, 2008

terça-feira, 19 de agosto de 2008

"Tadiboje"

Poderia ser “TADIBOJE” ou mesmo “VULKS” as palavras para definir o que sinto agora. Poderia, sim. Nenhuma palavra que existe em nosso vocabulário consegue nomear essa espécie de oco no estômago e bigorna nas têmporas que estou sentindo agora.

Decepção, tristeza, raiva, incredulidade, medo, desconsolo, desalento, angústia. Mais alguém, será, já sentiu tudo isso de uma só vez e ficou paralisado tamanha dor que experimentou em determinado momento?

Se a verdade pode magoar às vezes, a mentira, não possivelmente, mas com certeza, fere rasgando como um animal selvagem. Um bicho. Ela prolonga desenganos ao mesmo tempo em que dilacera esperanças. Mas o pior de seus danos é rebaixar moralmente sua vítima. É vexatório! É como se o ludibriado estivesse exposto, contra sua vontade, no centro de um coliseu lotado de pessoas à sua volta que tripudiam de sua ingenuidade. O escarnecido está em um palco, porém, no nível mais baixo daquele circo e os expectadores nas arquibancadas circulares numa posição superiormente mais confortável. Não lhe é oferecido nem o direito à covardia. Não há como fugir.

O autor do prejuízo será incontestavelmente um legítimo egoísta. Alguém comodista. Aquele que trata somente de seus interesses. Que evita embaraços, sempre. Que desvia dos obstáculos, sempre. Que corre das responsabilidades, sempre. Que não coloca a cara para bater... NUNCA!!! Quando somos “sempre” ou não somos “nunca”, negamos nossa humanidade. Há que existir equilíbrio. E este, é o único termo ao qual é permitido o acompanhamento do advérbio sempre. Deveriam ser considerados sinônimos esses dois. Já que o de equilíbrio é justa medida, igualdade de forças, proporção devida, que só serão encontrados naquilo ou naquele que é benevolente, tolerante, bondoso, com seu próximo – a humanidade.

Para não se ter humanidade, prefiro me relacionar com extraterrestes, pelo menos dou uma voltinha de disco voador. Para não se ter equilíbrio, prefiro me envolver com um doente mental, pelo menos eles não respondem pelos seus atos.

Por Elga Arantes, 2008.


domingo, 17 de agosto de 2008

"Ôh, menino esquisito!"

Para uma sexta-feira, cheguei em casa cedo. Para quem havia estado na casa do Sr. Ronaldo, já era mesmo hora. Explico. O “Opção”, estabelecimento do senhor acima citado, é uma das casas de samba mais legítimas da cidade. Mas começa tão cedo quanto termina. E eu, que adoro a madrugada - e o samba – sempre vou embora querendo mais e querendo esticar o recreio. Continuar exorcizando as dores e os amores, celebrando outros amores, a vida e os bons amigos.

Tenho muitos bons amigos! Mas sempre quando encontro o Ela – como ele ainda se lembra do “Garroci do petaca”, vai sacar na hora - passo mal de rir. Ele sempre lembra de cada coisa divertida! Passei as primeiras horas da madrugada já de pijama, vendo TV e recordando das coisas que ele desenterra cada vez que nos encontramos. Comecei rindo sozinha e lembrando de quando ele vendeu seu carro para trocar e pegava carona comigo. Ele me dava sinal na rua, como se eu fosse taxista. Ele gostava de zombar do corsinha branco. Mas também adorava ir embora nele ao final da noite e ainda tirar onda dizendo para seus rolinhos, no outro dia, que tinha que devolver o carro na casa de uma mulher que não saía do seu pé. Já me fez até fingir que era sua namorada para fazer ciúmes na ex. A menina, coitada, quase enfartou quando soube que eu estava grávida. Achou que o filho fosse dele. Filho da... Elga, claro!

Noutras vezes, a gente trabalhava morrendo de sono, resultado de uma noite anterior agitada. Eu atendia “Banco Universo (adorei!!!), Elga, bom dia.”. E do outro lado da linha, ele com a voz espremida fingia ser um correntista chato para reclamar de alguma remessa de numerário não acatada. Também ficava escondido fazendo caras e bocas de longe enquanto eu atendia algum cliente, só para me ouvir dizer, “O senhor pode me dar licença? É um minutinho só.” E correr para onde ele estava e agachar com a barriga já doendo das suas palhaçadas.

Eu sempre brinquei que ele não teve competência para ‘fazer amigos’ porque roubou todos os meus. Era só eu apresentá-lo e pronto. No fim-de-semana seguinte ele me ligava para avisar que fulano convidou para um churrasco na casa de sicrano. Eu perguntava: “Por que ele ligou para você e não para mim?”. E ele me olhava com a cara de ‘sou foda’ e emitia um orgulhoso grunhido irônico arqueando a sobrancelha.

Apresentei-lhe ao Chico, o Buarque, e caçoei dizendo que para andar comigo tinha que conhecer e gostar de Chico. Em uma semana ele chegou cantando “O Meu Guri” com aquele ar dissimulado e desinteressado de quem já houvesse cantado aquela música inúmeras vezes. Até hoje ele pega no meu pé por conta de um dia, aliás, uma noite (quase sempre são noites) em que bebi meia cuba além da conta (ta bom, foi mais de meia...) e comecei a divagar sobre a música “Construção”, repetindo sem parar o quanto o compositor fora fantástico ao cantar "Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe.". Agora, recordando na mesa de qualquer boteco, completa me arremedando com uma cara explicitamente cênica: “...e depois ele vai mudando e trocando os adjetivos em cada verso fazendo a música virar outra, cara, muito louco!!!!”.

Ele também levava a gente em cada programa furado! “Olha a roubada; olha a roubada!”. Pagode com amigo estranho. Gente esquisita dançando axé. Cruzes!
Agora, foi embora. Mudou de cidade para roubar mais amigos de outras pessoas, certamente.

Nesses dias em que esteve aqui, não perdeu a oportunidade de tripudiar e disse que eu devo estar com um encosto do Ursinho Puff. “Hã?”. Ele aclarou: “Muito bonitinho, muito fofo, gente boa, mas não transa com ninguém.”

Ex-bancário, ex-pagodeiro, ex-morador do Floramar... Vai esperar o que de uma pessoa dessas???

Por Elga Arantes, 2008.

sábado, 16 de agosto de 2008

Pelos quatro cantos.

Sabe o que eu queria agora?
Dia de céu azul de Brasília, em abril.
A demora preguiçosa da viagem de trem até Vitória.
Noite quente de muita gente, luz de farol e luz da ‘PUT’ de Sampa.
Vento gelado do agosto de Curitiba embolando os cabelos.
Madrugada malandra e sempre desperta dos arcos da Lapa do Rio.
Um Belo de companhia para contemplar tamanho Horizonte.

Por Elga Arantes, 2008.


quinta-feira, 14 de agosto de 2008

O próximo nascer do Sol...

Alice chegou exausta, mas não se sentia triste. A sensação mais forte era de alívio. Cansaço, pesar e alívio. Era nisso em que se resumia o estado de seu corpo e de sua alma. Resolveu tomar um banho longo para se sentir mais limpa, mais leve...

Não gostava de funerais como a maioria das pessoas, mas aquele, em especial, se tornara uma tarefa mais árdua por se tratar de alguém que era mais que um ente querido. Ela houvera-o acompanhado por muito tempo, participara de muitas de suas conquistas, observara de perto seu desenvolvimento profissional, chorou com ele tantas vezes por suas derrotas. Agora ele descansava em paz.

Tentaria, então, retomar as energias perdidas no ano último em que passou ao seu lado. Naquele ano, especialmente, lutara para ajudá-lo a vencer aquela doença horrível, mas fora em vão. Era crônica e degenerativa, a enfermidade. E assim, venceu-lhe. Fora, também, mais forte que a boa vontade dela, que suas esperanças. Aquela batalha a levou a um esgotamento possivelmente maior que o dele. Este já havia se rendido mesmo aos sortilégios daquela moléstia. Mas ela combatera ali, lado a lado com a fé e de braços dados com toda expectação possível para um momento como o que vivia aqueles dois.

Sentiu pesar. Sentia-se pesarosa por tamanho esforço esbanjado. Também sentiu pesar ao lembrar que já no leito de morte ele lamuriou o passado e evocou mais um ensejo. Interessante como justamente naquele momento invulgar, Alice percebera que ele estava menos inepto de seus feitos. Estava claramente consciente das suas perdas. A mesma coisa não poderia ser dita da consciência que tivera da sua condição naquela altura dos acontecimentos. Era tarde demais para mais pelejo. Lastimara por tanta juventude jogada fora, por tanto amor que ele não poderia viver mais. Assim, ele se fora definitivamente. Não faria mais parte daquele mundo. Do mesmo mundo que ela.

Ela sabia que sentiria saudades. Pior, sentiria sua falta. A saudade era algo capaz de ser sanado por mais transgressora que aquela certeza pudesse parecer aos olhos alheios. A falta, por sua vez, não! E ele fará falta, principalmente, quando ela se sentir feliz. Ela sempre o procurava, pelo menos, para ouvir sua voz quando sentia alegria, mesmo quando daqueles contentamentos, dos quais não sabia justificar, pelo menos em princípio. Engraçado que quando a situação era o inverso do regozijo ela fazia questão de preservá-lo. Dissimulava, sempre que possível, estar tudo bem. Omitia suas dores para não fazê-lo senti-las também. Pretendia que ele a enxergasse como alguém sempre jubilosa e confiante de si e na vida.

Se fazer assim também a fadigara. Na verdade, sentira-se completamente exaurida. Por isso, experimentava, nesta hora, o sentimento de consolo. Mais ainda depois daquele banho. Desligou a ducha, vestiu o roupão muito alvo, enrolou uma toalha nos cabelos encharcados e quando ia calçar os chinelos que estavam do lado de fora do box (não tomava banho calçada, pois achava que o banho ficava incompleto) brecou o movimento voluntariamente e desistiu. Resolveu ir para o quarto descalça. Gostou de ver as pegadas de seus pés molhados que deixava para trás. Quando chegou ao quarto, desenrolou a toalha dos cabelos, estendeu-a sobre os travesseiros sobrepostos e se deitou. Acendeu o abajour e ajustou os fones nos ouvidos. Antes de apertar o play, duvidou que ele descansasse num sossego mais aconchegante que o dela. Se ele descansava em paz, ela era o próprio branco daquela. Cerrou os olhos e antes de pegar no sono dos anjos ainda pode ouvir o trecho da música que a embalou. Seus lábios se movimentavam produzindo um sussurro que declamava: “depois que você foi embora eu fiquei sozinha olhando o sol morrer...”.

Por Elga Arantes, 2008.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

C.M.B.H

Não imaginou que a nostalgia fosse o sentimento que mais fortemente a tomaria, afinal, não era a primeira vez, em quase dezessete anos, que voltava a passar por aquelas ruas. Porém, após uma súbita e forte sensação de indignação e impotência, foi a melancolia que fez companhia a ela, no tempo em que ali permaneceu.

Nunca imaginou que teria a coragem para perambular a pé novamente por aqueles caminhos, como já fizera inúmeras vezes, há anos. De carro, às vezes, usava as ruas sinuosas da região apelidada “Cracolândia” para cortar caminho, evitando o trânsito intenso das horas de pico do dia. Espantava-se, muitas das vezes, quando percebia, ainda antes das oito horas da manhã, alguém acendendo um cachimbo com a mesma naturalidade de quem toma um gole de café – talvez fosse mesmo aquele cachimbo o desjejum do indivíduo.

Claro, reparara que o cenário era mais feio e mais triste que o de tempos atrás, mas nunca poderia ter sentido a força avassaladora do tempo, se não tivesse descido do carro, enchido o peito de coragem e ar (que parecia faltar aos pulmões) e prcorrido o curto trajeto em forma de “c” que era comumente usado como retorno. Observou cada detalhe responsável pela decadência do local e que, nos anos de sua adolescência, praticamente inexistiam. Prestou atenção na imundice do lugar, com moitas de lixo enormes a cada cinqüenta metros, o comércio muito simples e carente, com letreiros contendo erros de ortografia e um cheiro indiscutivelmente desagradável. O conjunto habitacional tinha a pintura antiga e velha, com suas janelas de ferro desgastadas e descascadas, mas não era essa a novidade que lhe causava tristeza. Era o muro alto em seu arredor e as janelas gradeadas, acusando que a violência urbana exigiu novas providências, também naquele local.

Entre aqueles prédios, cortara caminho, todos os dias, na volta para casa, ao sair da escola. Algumas vezes, nas pracinhas, jogava baralho com os amigos ou sentava-se com eles para tocar violão e jogar conversa fora, até ser surpreendida pelo retumbante badalar do sino da igreja que tem, até hoje, São Cristóvão como padroeiro.

Na outra margem da rua, (rua que representava tão fielmente a outra margem - a da sociedade) ainda resistia, o prédio onde funcionou o colégio em que estudara durante sete anos. Naquele prédio, situado na “boca” de uma das favelas mais temidas da grande cidade, viciou-se na alegria, nas novidades da juventude. Sua "droga" era a vida, e medo só tinha mesmo das argüições da professora Solange, famosa por sua exigência intransigente. Ali, entrou menina e saiu mulher; entrou indivídua e se tornou sujeita. Ali, experimentou pela primeira vez a sudorese e o formigamento no rosto, quando de sua primeira paixão adolescente; especulou pela primeira vez sobre situações, até então, apenas imaginadas e supostas intimamente. Ali mesmo, naquele edifício que não parecia mais imponente como nos tempos em que o freqüentava, fez amizades que perduram até hoje. Ali, sua vida aconteceu cor-de-rosa do batom à moda da época e bege da falta de graça das descobertas e dos sentimentos menos nobres, mas que não chegava a ser o cinza dos dias mais sérios que ainda viriam.

Lembrou das batucadas nas olimpíadas do colégio; dos festivais de dança; das aulas de filosofia no horário vespertino, uma vez por semana; dos churrascos e festas na casa dos colegas; das viagens; dos apelidos divertidos e dos muitos anos de convivência diária com aquelas pessoas.

A moça gentil da Secretaria de Educação, então, se aproximou:
- Vamos? Estava te procurando, onde estava?
- Por aí; passeando...
- Aqui? Mas que falta de gosto! (risos).

Gosto foi a única coisa que não faltou na excursão dela por aquelas ruas. Sentiu até o da pipoca doce de saquinho que gostava de comer, ao sair da escola, para despistar a fome que precedia a hora do almoço.

Imaginou que o encontro com alguns de seus antigos colegas lhe traria mais lembranças e que sofreria a sensação do imperialismo do tempo em cada rosto que contemplasse. Mas não tinha receio disso. O medo que sentiu foi o de não conter a emoção, em algum momento, quando entre eles estivesse, assim como não pode evitar ali; bem ali, de frente para aquele prédio e entre a pesada cruz da saudade do passado e a espada imaginária que empunhava para desafiar o futuro.



segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Ana Maria, perdão.


O baile foi dela, mas quem dançou, fui eu.

Sinto muita vergonha. Vergonha pelas minhas fraquezas, vergonha por minha falta de compromisso, vergonha pelas desculpas que tenho dado para as minhas atitudes, vergonha pela falta de responsabilidade com o outro e, principalmente, comigo mesma.
Vergonha por ter bebido tanto naquele dia. Bebi de tudo: egoísmo, ingratidão, inconseqüência, burrice, infantilidade e até uma dose dupla de ‘querer abraçar o mundo com as pernas’, à cowboy.

Naturalmente, meu corpo, reagindo aos malefícios causados pelo exagero foi obrigado a regurgitar. Não. Palavra muito suave para o processo que ocorreu. Meu corpo desembuchou. Desembuchou amizades, confiança, carinho, segurança, consideração, força, coragem e dignidade.

Mais uma vez, seguindo o trâmite normal de quem comete tal irresponsabilidade, foi preciso que recebesse na veia, as substâncias necessárias para estabilizar o desequilíbrio causado. Injetaram uma dolorosa quantidade de realidade e sem tranqüilizante, com certeza. Sei disso porque não senti meu coração nem minha consciência mais calmos em momento algum.

Meu castigo foi merecido, apesar de insuficiente. Ao abrir os olhos, ao invés de receber palavras de apoio que são dados normalmente em situações e ambientes como aquele, o que ouvi foi um sonoro “Eu te falei, mas você não me ouve mesmo, né, Elga?”. Só então percebi que já havia amanhecido.

Também houve seqüelas, sim. O medo. Ah, essa será difícil de encarar! Medo sim, de que você nunca me perdoe, nem com o passar do tempo. Porém, mais ainda, medo de ouvir um - muito pior que qualquer repreensão ou reação de raiva – “Tudo bem, Elga, deixa prá lá”. Isso me doeria muito mais.

Pensei em pedir que meus amigos me estendam as mãos pelos últimos acontecimentos. Mas não o farei. Minha perversidade é tamanha que acredito que poderia estar fazendo isso para sensibilizar, provocando a compaixão das pessoas e a conseqüente compreensão de algumas delas. Sinto vergonha por querer manipular as pessoas também, às vezes.

Assim, o que me resta é engolir em doses diárias, como que um remédio amargo, essa vergonha, esse arrependimento, esse medo e pedir com coração sangrando que perdoe a pessoa que estou. Além disso, preciso lavar o longo prata com nódoas de bílis, no sentido denotativo, e fel, tanto na acepção conceptual como numa outra, mais alegórica, de remeter a circo, à cena deprimente, digna de risos. Uma mulher fantasiada. E o pior, em vão. Já que nem lá cheguei. Por último, mas não menos doloroso de executar, lerei no porta estandarte o que mereço ‘ouvir’.

Sinto vergonha de tudo e também daquele enfermeiro que ficou observando tudo com cara de "Que vergonha!".

***
A catarse.

No domingo pela manhã, atendi ao telefone. Algumas poucas falas. Mas foi no silêncio que ela me disse tudo. Desliguei depois de ser apunhalada com um “Obrigada Elga, tchau.”. Ela teria feito aquilo como punição? Ela me conhece. Sabe que aquilo me atingiria direto no coração. Ou talvez não tenha mais certeza nem disso justamente pela ausência cínica e tamanha falta de sensibilidade.

Como tenho feito todas as manhãs, na segunda-feira, abri meus e-mails e dentre eles brilhava, como uma placa de neon daqueles bordéis de novela das oito, o título: “Vocês sabem que não ficaria em silêncio”. Claro que eu sabia. Era por isso, que covarde, já havia resolvido, inclusive, que não entraria em terras comunistas, pelo menos em princípio. Não abri o e-mail.

Na hora de tomar a pílula vermelha e entrar no Matrix tecnológico dos blogs, torci para que algum dos parceiros houvesse escrito algo que me aliviasse a dor. Inutilmente. O que li apenas legitimava minha posição de óvni, alienada. Pulei um dos links como já havia premeditado. Fui embora dali correndo.

Como fez Pedro, o discípulo, neguei três vezes meu compromisso com o que é humano. Logo eu que adoro falar em humanidade. Até hipocrisia cabe nessa história triste e feia. Não devo ter pedigree. Talvez seja uma mistura esdrúxula de raças ou quem sabe seja um extra-terrestre ou um Frankstein.

Ao contrário de Judas, não beijei sua face, Ana. E essa foi a traição.

Por Elga Arantes, 2008.

sábado, 9 de agosto de 2008

Nada de terceira pessoa. Nada de edição.

A bonequinha não mentiu. Tinha realmente olhos grandes que emoldurados pelos longos cílios, caprichosamente pintados, deixavam-nos ainda maiores. E lindos! Mas isso só pude observar do lado de fora, na luz da noite. Sim, a noite, muita das vezes, tem mais luminosidade que dias ensolarados.

Falando nisso, no Girassol, quem girava não era o astro rei, e sim Susi - a bonequinha. Graciosa, parecia flutuar nos braços dos parceiros da dança. Tinha graça também o jeitinho meio tímido dos primeiros momentos. Mas também me senti um pouco encabulada. Principalmente depois de beber suas palavras impressas no convite que me fizera estar ali. Não entendi muito bem o porquê do receio e pensar nisso me contaminou como que por osmose lingüística.

Ela fez a gentileza de me deixar em casa. Não havia lei (Seca) que ela temesse. Não precisava dos subterfúgios do álcool. Admirei-a mais ainda por isso. Conheci o famoso GUG. Também conheci um casal de amigos muito simpáticos e agradáveis. Nesse caso, a conversa não precisaria ser jogada fora, porque acrescentou.

Poderia ter sido mais espontâneo. Se bem que poucas coisas devem ser mais espontâneas que um encontro desses. Foi voluntário, interessado, motivado por uma curiosidade quase científica. Mas, também, um quase esforço para vencer as tais convenções limitadoras, as quais sempre rejeitei. Assim, acabei respeitando o caráter peculiar daquela situação. Lembrei-me da Aline. Sorriso largo, transparente. Amizade tão indispensável! Sorri mais tranqüila. Não queria causar uma impressão errada. Mas também, acredito não me restar apenas mais um dia. Por esse motivo, novamente sorri. E aliviei-me. Teremos outras oportunidades, talvez.

Fechei o livro depois das poucas páginas que teria que reler no dia seguinte, já que meus olhos miravam as letras, mas o pensamento fazia a reconstituição dos acontecimentos das últimas horas.

Engraçado como só dormi depois de analisar criteriosamente aquele re-encontro, como ela já havia mencionado. Também acredito na possibilidade de que tenha sido o caso. Mais engraçado foi como não quis desesperadamente expurgar aquelas sensações registrando com palavras. Seria o tal receio? Como diria Clarice Lispector: “(...) Sobretudo tenho medo de escrever porque no momento em que tento não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu escrevo.”.

Penso em minhas novas amizades. A bonequinha, a outra, uma florzinha, e a terceira, a estrela. Para esta, não sei explicar, não consigo usar o diminutivo. Mas ela deve ter cara de estrela.

Por Elga Arantes, 2008.

"Mas uma história as unia. E como no mundo tudo é magnetismo, um dia, houveram de se encontrar". Susi

* a música postada seria "Duas Sanfonas" (Gilberto Gil), mas não consegui.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

BiscOITO às ninfalídeas


Agora, há OITO e-mails do acórdão, (a sentença já foi dada pelo órgão monocrático), ela pensou que OITO dias atrás quis antecipar a decisão por conta de uma humilhação que a fez correr para o OITÃO do prédio de sua tia e chorar escondidinho para ninguém ver.

Pode-se dizer ele, um OITAVÃO; ela, uma OITAVONA, tamanho gosto pelo samba e pelos detalhes da raça – ela então, admira demais sua fração de sangue negro.

Para não tornar também negro (vício da linguagem horroroso, mas, aqui, com licença poética) o tempo que há de vir, assim como fizeram com certos dias do passado, decidiria: ou OITO ou OITENTA. É assim que será dentro de alguns meses. Mas não chegarão a OITO, os meses, ela já planejou. Estava gostando de usar essa palavra e seus sinônimos, tal qual: projetar. Tinha um projeto, mas não ainda, o co-autor.

Porém, se cansou de relacionamentos fortuitos do tipo: “OI, TENTA. Deu não? Tchau.”.

OITO anos, outra mulher de registro geral ' eme OITO, OITO, OITO dois, zero, quatro, OITO', o conheceu. Mas não conseguiu se equilibrar no lombo do touro os OITO segundos exigidos para cumprir a prova. Nunca gostou mesmo de rodeios. Ia direto ao ponto.

Nascido no dia OITO do mês OITO do ano de OITENTA, ele faz hoje vinte e OITO anos.

Este ano de dois mil e OITO já é mesmo de muitas coincidências!

As borboletas no seu estômago? Claro! São OITENTA-e-OITOS, lindas, coloridas de “pôr o preto no branco” (e da ambigüidade do provérbio) e de vermelho. Vermelho de Maria José, “aquela que é homi sem deixa de ser mulé”.

Maria José são muitas! Devem ser pelo menos OITO. Uma para cada dia da semana e mais outra para as OITO horas em que passa dormindo ou em vigília pensante. A última, noite passada, estava de folga. Experimentou biscOITOS - Repetição da cópula carnal.

Parece que na noite de hoje vai estar também. OI,TENTAção!

Por Elga Arantes, 2008.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Todo dia virando lata.

Olívia andou a pé sob o sol de meio-dia por quase meia hora. A aliteração desintencional lhe deu enjôo. O asfalto daria para fritar um ovo. Seu estômago embrulhou de novo ao se imaginar comendo um ovo frito. Seu estômago estava rejeitando até mesmo pensamentos naquele dia, quão visceral estavam seus ânimos. Estava enjoada de tentar, de andar, de esperar. Não gostava de replay, nem de trekking muito menos de stand by. Estava xenofóbica como nunca!

Claro que ela não quis. Mas precisou caminhar sob o sol do meio do dia.

A hóstia incandescente castigara seus pés, deixando em brasa a sola desses que calçavam um sapato de salto alto que pareciam confessar em tom de penitência: “Eu não queria estar aqui, mas preciso.”.

Ainda bem, ele não olhou para seus pés. Mas a encarou. Os olhos dela, naquele dia, estavam opacos. Sorte sua. Ele não enxergaria o reflexo dos sapatos - nem o slogan que eles traziam - apenas por isso; já que os olhos de seu perispírito miravam o chão e refletiriam facilmente seus pés cansados de caminhar. Não fossem os olhos nebulares...

Melhor assim. Ele poderia perceber sua rendição. E ele não deveria querer alguém que se entregasse facilmente. (...) Soubesse ele das mazelas enfrentadas por Olívia, a contrataria pelo dom da ressurreição, simplesmente.

Mais uma vez, os saltos, os terninhos, o maldito perfil comercial.

- Gostaria de um tempo para pensar – arriscou Olívia, sem receios.

- Posso aguardá-la até a próxima terça-feira. É um bom tempo, não?.

- Precisaria que fosse até a quinta, pelo menos. – atreveu-se.

- Quinta... quinta... tudo bem. Se não passar da quinta, posso esperar.

Respondeu o homem, talvez imaginando que aquela segurança fosse ideal para a função. E ele acertou, em partes. Era segurança. Não se fazia de rogada. Mas também havia algo de ‘Será que estou fazendo a coisa certa?’ omitido no tom da voz.

Saiu de lá e passou por um jardim de uma rosa. Continuou andando e nem achou que o sol estava assim tão quente. Seu celular tocou. Agendou para amanhã. De novo. Agora era um convite. Aceitou.

Quando chegou a casa, recebeu um beijo na boca, seguido de um “Eu te amo”. Sorriu. Conferiu seus e-mails e respondeu positivamente a outro convite. Ficou alegre, realmente.

Foi ao escritório, olhou o caderninho ao lado do telefone e havia mais dois recados a serem retornados. Um deles lhe devolveu a luz à menina dos olhos. Assim, depois de lavar o rosto ainda quente e retirar a maquiagem, olhou no espelho e viu uma menina que não vira há dias.

Voltou ao ‘Tuareg’. "Aquele era o melhor livro do mundo!" A dignidade estava em voga lá e cá. Já naquela hora acharia até mesmo ‘Lucíola’ o melhor de todos os livros – ela adorava exageros e não gostava mesmo de Machado de Assis. E olha que tentou...

A menina foi à cozinha, abriu uma lata de leite condensado, jogou sobre uma banana, salpicou canela e colocou no microondas. Experimentou. Depois, pensou: “Banana com canela e Tuareg é a melhor sobremesa do mundo”.

Ela gostava muito mesmo de doces, livros e exageros.

Depois, achou que nada se comparava ao prazer de beber um copo de água quando se está com sede. Mata a sede do açúcar e tira o amargo da boca.

Algumas crianças são mesmo fáceis de agradar!

Por Elga Arantes, 2008.



Bela é a tulipa, mas como a Rosa perfuma!

Se eu fosse ontem a pessoa que me tornei e hoje sou, não teria acreditado em falsas promessas e teria contado somente comigo.

(Pensando melhor, se amanhã eu for melhor que hoje, não reclamarei o leite derramado e me despirei dessa nuança de vítima indefesa).

Se ontem soubesse o que hoje sei, teria marcado com pedrinhas aquele caminho caso quisesse voltar. E como eu quis!

(Também se tivesse voltado, não teria conhecido desvios tão excitantes!).

Se eu me conhecesse ontem como me conheço hoje, teria feito publicidade ou jornalismo, ou teria mesmo terminado o curso de letras.

(E talvez tivesse me frustrado sem saber se não segui a área educacional, nua e crua, por assim dizer, por preconceito puro. Além disso, nunca saberia se seria mais realizada como tal).

Se eu já não tivesse começado a escrever esse texto, deixaria essa filosofia porca e preguiçosa só nos calabouços dos meus pensamentos e escreveria sobre tulipas e girassóis.

(E não falaria da Rosa, a moça que conheci hoje e que me disse que há tempos não olhava para alguém e percebia brilho no olhar e sorriso de esperança misturado com uma simpatia ingênua).

Se eu fosse outra, soubesse mais, conhecesse mais, escrevesse com mais critério, não descobriria a cada instante, não me surpreenderia a todo o momento e talvez hoje terminasse o dia sem levar a Mel para aproveitar a linda tarde de sol e o céu azul lá fora... onde tudo acontece!

Se não fosse o 'se', hoje não haveria poesia despretensiosa, nem a mulher de hoje vestida da moça de sempre.

Aquela Rosa, hoje, teve todas as cores e se deixou enxergar assim, branca.

Branca da fusão das cores. Dos significados. De todos aqueles sentimentos.

Branca da paz do final do meu dia.



Como gosto de parênteses!

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Homenagem por Dias tão especiais!

Ainda era bem cedo para um sábado. Ela acordara pensando em sua vida, na vida de outras pessoas, até que suas reflexões se esbarraram na história de vida daquele homem.

Quando se conheceram, a empatia parecera recíproca. Mesmo sem se verem, conversavam todos os dias em que o acaso permitiu. E sempre que, assim autorizados pela eventualidade, iniciavam um diálogo, ficavam um tempo considerável trocando impressões sobre qualquer coisa. Os assuntos eram interessantes, por vezes espontâneos, mas sempre muito agradáveis. Ela gostava quando ele atendia suas chamadas telefônicas. "Será que ele se lembrava disso?", pensou.

Uma vez, perguntou assim de forma despretensiosa sobre ele à pessoa que lhe proporcionou a ligação entre os dois. Mas este, de respostas monossilábicas ainda, limitou-se a fornecê-la informações superficiais. O que ela já havia suposto quando dos bate-papos informais. Como sua curiosidade era inócua, apenas torceu para que os acontecimentos que sobreviessem lhe proporcionassem conhecer aquele homem pessoalmente.

Como haveria de ser, finalmente se conheceram. E por anos ela o admirou. Ainda admira. Admira sua história de luta e de conquistas, admira sua responsabilidade com a vida e com as pessoas à sua volta, admira seu bom senso, sua generosidade, sua autenticidade. Admira o esforço e a capacidade daquele homem de compreender o próximo, de concatenar atitudes ao contexto de vida das pessoas ao seu redor, a generosidade em aconselhar sem julgar, mas de discernir o bom do mau e o mal do bem. Acima de tudo, ela admira sua sensibilidade e sua humanidade.

Sim, porque como ser humano que é ele também tinha suas imperfeições. As inúmeras vezes que protelou compromissos, sua briga diária com o relógio – talvez no intuito de provar que a desgastante noção imperialista do tempo não o subjugava. Não se curvava mesmo a nenhum tipo de tentativa de dominação, fosse ela qual fosse. Uma teimosia quase infantil, às vezes, uma intransigência voluntária, quem sabe para reforçar sua posição de caudilho. Nada que pusesse em dúvida ou, sequer, abalasse sua retidão. Esta, sempre fora mesmo inquestionável.

Fundador de uma instituição de sucesso se orgulhava dos louros conquistados. Uma vez, ela o ouvira dizer que seus partícipes estavam superando-o. Qual o quê. Era admirável a equipe que havia formado, mas não, eles ainda não superaram seu mentor. Ainda tinham muito que aprender. A inteligência e a astúcia, o compromisso e a responsabilidade, a honestidade e a probidade, já eram qualidades solidificadas na personalidade de cada um deles, era explícito. Contudo, havia outros atributos que a faziam acreditar ainda estar aquele homem em primazia sobre os demais. Ele ainda sobejava. Aprendia enquanto ensinava, recebia quando se doava, tinha dom de apoderar-se ao mesmo tempo em que mediava. Em cada um faltava ainda um pouquinho dele. Ele ainda teria que doar a um, sua solicitude desmedida, a outro, reforçar-lhe a necessidade das práticas solidárias, num terceiro a virtude que dá o sentimento de nossas fraquezas.

Ela se perguntava, às vezes, se eles tinham consciência da ventura da qual desfrutavam. A resposta lhe vinha sempre das demonstrações de apreço que esses mesmos davam àquele homem. Fosse em gestos respeitosos, em atitudes tomadas para felicitá-lo ou em mero discurso. E nesse caso, não poupavam palavras. Também não eram perfeitos e algumas vezes o contrariavam. Mas nada que não fosse aceitável pela natureza da relação institucional.

Ela pensou no quanto realmente gostava daquele homem. Também sabia ter sido ela a responsável em lhe causar emoções inéditas. Fora a primeira a provocar-lhe sensações ainda por ele desconhecidas, mesmo com toda sua vivência. Ela se orgulhava disso. Ainda que não fosse algo que dependera de sua eficiência ou de qualquer outra de suas habilidades. Aquilo fora providencial. O elo eterno entre eles. Mesmo assim, vangloriava-se. Assim, como ele, era ela vaidosa, intransigente e teimosa. Tinha personalidade forte. E sabia que isso poderia ser tão bom quanto ruim. É possível, isso tenha arranhado sua relação de carinho com ele. Mas ela queria acreditar que não. Que assim como ela, ele enxergava os tropeços apenas como... tropeços. Plausível, levada em conta a peculiaridade da ligação.

Desejava muito poder presenteá-lo duplamente pelas datas importantes que se aproximavam. Mas sabia que lhe comprar um presente pouco, ou nada, acrescentaria à vida dele. Era desapegado. Preferia presentear a ser presenteado.

Resolveu, então, dar-lhe alguma coisa produzida por ela mesma. Quis que fosse fruto de algo que lhe proporcionasse prazer. De sua paixão por escrever, teve a idéia de enviar-lhe uma carta. Pensou em como começar. Com qual denominação se referiria a ele? Resoluta, designou: "Querido sogro...".

Sim. Diferente do pai de sua filha, ela não usava para ele a partícula que determinava algo que não é mais, que já passou. Dizia ela achar difícil pronunciar "meu ex sogro". Desculpa tola. Na verdade, quem acha difícil mesmo é o seu coração.

"Feliz dia dos pais! Feliz aniversário! Felizes dias comuns. 'Dias' felizes!"

Por Elga Arantes, 2008.


sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Der Mann ohne Verwandtschaften – o homem/mulher sem vínculos.


Ref.: Pagando a promessa feita. Apenas um aperitivo...

“O principal herói deste livro é o relacionamento humano. Seus personagens centrais são homens e mulheres, nossos contemporâneos, desesperados por terem sido abandonados aos seus próprios sentidos e sentimentos facilmente descartáveis, ansiando pela segurança do convívio e pela mão amiga com que possam contar num momento de aflição, desesperados por ”relacionar-se". E no entanto desconfiados da condição de "estar ligado", em particular de estar ligado "permanentemente", para não dizer eternamente, pois temem que tal condição possa trazer encargos e tensões que eles não se consideram aptos nem dispostos a suportar, e que podem limitar severamente a liberdade que necessitam para - sim, seu palpite está certo - relacionar-se...

Em nosso mundo de furiosa "individualização", os relacionamentos são bênçãos ambíguas. Oscilam entre o sonho e o pesadelo, e não há como determinar quando se transforma no outro. Na maior parte do tempo, esses dois avatares coabitam - embora em diferentes níveis de consciência. No lí
quido cenário da vida moderna, os relacionamentos talvez sejam os representantes mais comuns, agudos, perturbadores e profundamente sentidos da ambivalência. É por isso, podemos garantir, que se encontram tão firmemente no cerne das atenções dos modernos e líquidos indivíduos-por-decreto, e no topo de sua agenda existencial.

***

Os especialistas estão prontos a condescender, confiantes em que a procura por suas recomendações será infinda, uma vez que nada que digam poderá tornar um círculo não-circular, e portanto passível de ser transformado num quadrado...Suas recomendações são copiosas, embora geralmente se resumam a pouco mais do que elevar a prática comum ao nível do conhecimento comum, e daí ao status de teoria autorizada e erudita. Gratos beneficiários dessas recomendações percorrem as colunas de "relacionamento" em publicações sofisticadas e nos suplementos semanais de jornais sérios ou nem tanto, para ouvir o que queriam de pessoas que "estão por dentro" (uma vez que são tímidos ou envergonhados demais pra falarem por si mesmos), para espreitar os feitos e procedimentos de "outros como eles" e conseguir o máximo conforto possível por saberem que não estão sozinhos em seus solitários esforços para enfrentar a incerteza. “

Fragmentos de prefácio, págs 8, 9 e 10. In: BAUMAN, Zygmunt. “Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos”. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor, 2004.

V O T E

Hoje acordei com muita vontade de escrever. Ou melhor, de ler. Na verdade os dois. Na mais pura verdade, de pensar.

Então, no trajeto de casa até a Federal, tomei a decisão de retomar meus estudos, minhas leituras mais técnicas e controlar minha vontade de ficar tanto tempo no blog. Vi dia desses em um programa da Rede Minas, “Sem Censura”, que um dos sintomas da compulsão é se dedicar pelo menos três horas diárias em determinada atividade. Confesso, fiquei apreensiva. Estou quase lá! Assim, estava resolvida quanto a isso. Em seguida, bastava resolver o assunto do post de hoje para depois começar minhas outras atividades.

Falar sobre a censura? Deixarei para os amigos jornalistas e publicitários visitantes e aqui linkados. Falarão com mais critério. Compulsão? Para os médicos e psicólogos. Se bem que me sinto, às vezes, minha própria terapeuta. Desculpas à classe. Foi só uma brincadeira. Não serão necessárias retaliações. Por essa razão, não.

Queria que fosse alguma coisa para fugir da mesmice. Poderia falar da minha vontade de perguntar para a Shirley*, ajudante de alguém, em sua casa, porque ela, uma moça jovem, de 24 anos de idade, nunca aprendera a ler e escrever. Dali, sairiam reflexões sobre a educação no Brasil, preconceito social, julgamentos alheios e a cegueira da justiça, assistencialismo, filantropismo. Ah, nem ! Assunto muito extenso e complicado.

Quem sabe falasse sobre minha hesitação religiosa, sobre meus deslizes dogmáticos e sobre o “Hermanoteu na terra de Godah” que assisti ontem e, além de me matar de rir, me fez pensar mais uma vez na bíblia, na manipulação de alguns sobre o “restante-maioria-esmagadora”. Isso renderia, certamente, muito pano pra manga. Panos quentes, frieza humana, tabus, clichês enjoativos, fé, polêmica, acusações de heresia, liberdade de expressão, o livro recorde de vendagem do escritor Dan Brown, até a manipulação da mídia. Capaz que Aécio Neves fosse mais rechaçado aqui que as certezas, muito provavelmente, fabricadas. Cansariam os leitores que vêm em busca de um inocente coffee-break.

Ora, talvez falar sobre a invasão da língua inglesa no cotidiano dos brasileiros fosse uma boa pedida Os tópicos seriam: valorização da cultura, identidade, neologismos grosseiros, xenofobia. Opa! Trabalho acadêmico. Não seria o espaço apropriado.

Era tanta coisa que tinha vontade de... de quê, mesmo??? Postar, contar, dividir, demonstrar, mostrar, expor. Bingo! A exposição. O medo de estar “pavonizando” demais. De estar fazendo desse espaço meu diário eletrônico. Ou, pior. De agenda com direito a papel de bala colado e frases escritas na língua do “p”. Orkut de pensamentos, de intimidades. E aqui, qualquer um pode se “auto adicionar” e se tornar “seu amigo”. E eu, uma adolescente ansiosa pelos novos comentários, cabisbaixa quando constatasse que quase ninguém a visitou naquele dia, ou leu o que tinha a dizer. “Será que minha vida é tão desinteressante para os outros como tem sido pra mim?”, pensaria, desconsolada.

Bingo, bingo! Desinteressante por quê? Tenho muitos amigos, uma filha gente-boa demais, uma família bacana, possibilidades. Porque me sinto assim, às vezes? Homem? Não! Não é possível que esteja me sentindo assim porque não coloquei nenhum ser do sexo masculino em foco novamente na minha vida. Eu já não tinha decidido que assim era melhor? Não tinha analisado que estava feliz em não estar colocando ninguém com potencial para par romântico no meu enredo? Porque essa sensação de vazio, dia sim, dia não? Instabilidade cansativa! Coisa dessa geração “nhem-nhem-nhem” e dessa sociedade fluida.

Bingo, bingo, bingo! Queria também falar de “O amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos”, de Zygmunt Bauman. Um desses autores que conseguem traduzir em palavras o que a gente sente em forma de borboletas no estômago e que vão se multiplicando de maneira tão descontrolada que chegam à mente. Abalam a razão. O prefácio do livro é a parte que, na minha opinião, melhor resume o mal maior da “sociedade líquida” em que vivemos, os relacionamentos. Sendo mais precisa, as dificuldades de se relacionar. “Relacionamento, hoje em dia, é tudo”. Mantra contemporâneo. Tal frase deveria ser traduzida e proferida em sânscrito. Ninguém tem coragem de discordar de tal mandamento sagrado. Não podemos passar por alienados num mercado tão concorrido, certo??? (qual a figura de linguagem ideal para o tom de ironia?). Pensei em colocar aqui, um trecho do livro, mas, aí sim, esse post ficaria longo. Mas é muito perfeita a fala do autor. Resolvo aqui que coloco em forma de um post separado deste, prometo. Assim, ninguém compra gato por lebre.

Olha! Talvez, fosse interessante falar sobre Bingos... assunto polêmico, engraçado, triste...

(pausa para observação)

É pena! O post já ficou muito extenso. Acho que restou apenas decidir o título do texto.
Poderia ser “Bingo!” Não, não, não, muito óbvio. “Diário eletrônico”, muito batido. “Saia da mesmice”, idem. “Sobre...” nem vou me desgastar pensando. Já tenho um post que tem título parecido. “Para rir e para pensar”. Pretensioso... “Falando pelos cotovelos”. “Escrevendo pelos cotovelos”. É. Poderia ser. Mas ainda está fraquinho. Se bem que “Sobre várias coisas e coisa nenhuma” ficaria legal. Também poderia ser, “Comecei o dia chorando e parece que ele vai terminar em gargalhadas”. Nossa, dramático!!!! Ou tragicômico? “Friday, casual day”. Sacaram a ironia? Hã? Hã? Se tem que explicar, não é bom... “A liquidez das idéias”, “Apenas mais um post”, “Ela sempre dá um jeito de falar de si”, “Andando em círculos”, “Foco no foco do cliente” - Ih, o Geraldo vai zombar da minha cara.“Título interativo (placa provisória)”. Gostei.

Pensando melhor, se você já está lendo é porque já fiz a escolha. E por falar em escolha... escolhi terminar meu dia em gargalhadas. Yes, I’m gonna party. Hoje vai ter samba!

P.S.: Se você acha que deve dar opinião, link “Comentários”. Se quiser fazer uma crítica construtiva ou nada construtiva, também. Afinal, mencionei no texto “liberdade de expressão”, não foi?

*nome ficticio

Por Elga Arantes, 2008

Bom Humor. Fim da TPM. A carinha dele está bem melhor.