domingo, 15 de julho de 2018

Continho para enganar o domingo


Uma está sempre ali. Pronta. Na hora. Disposta. Mas nunca disponível. Forja uma vontade desprovida de desejo, que é pra despistar os amigos mais próximos.

A outra nunca se expõe. Mistura de beata dos sentimentos com rapariga das vaidades, alivia-se em prantos da alvorada, que é pra afugentar os fantasmas mais íntimos.

Vez ou outra se encontram. E a mistura de menina assustada com senhora deslumbrada adolesce suas dúvidas. E de questão em questão, de descrença em descrença, deixam escapar uma faísca de entusiasmo que incendeia uma esperança inconsequente que as alimentam.

Andam cansadas de seus encontros fortuitos pelas calçadas dos dias arrastados. Sentem que estão prostituindo sua essência e ralando os joelhos da vida, sem propósito algum.

Mas antes que se entreguem àquela insanidade que lhes corroem de tempos em tempos, resolvem tomar um banho e ir ver gente na rua.

Um comentário:

Marcos Satoru Kawanami disse...

Duas em uma só pessoa. Prosa bem poética.