domingo, 1 de abril de 2012

Vestido de noiva

Eram muito ligadas, as duas. Naquela sexta feira, estava feliz em ver a amiga dormindo em sua casa, de novo, depois de dias difíceis de um afastamento involuntário. Mal sabia o quanto sua companhia a fazia bem. Mal sabia o quanto a presença dela, naquele dia, fora importante. O sonho! A amiga havia sonhado com vestido de noiva preto. Depois, mais tarde, lembrara: “Ah, sonhei também que vocês dois ficaram juntos naquela noite e que, no dia seguinte, pela manhã, chegaram até mim, mostrando as enormes tatuagens que vocês dois tinham feito no corpo.”. Ela achou o sonho engraçado. Mas será que queria dizer alguma coisa? As duas tão amigas, tão cúmplices, tão ligadas... Aquele sonho sobre o que mais lhe tirava a tranquilidade, justo na noite em que dormira em sua casa... Um vestido de noiva preto, as mensagens psicografadas, os indícios, a ausência constante, o telefone mudo e a noite de completo desassossego e reflexão que tivera, fizera-lhe concluir. Vivia uma história com ela mesma, apenas. O luto em uma noiva só podia ser mesmo pela morte do homem que ela acreditou que seria seu um dia. Mas ele se foi antes.
A sensação que tinha era de não ter conseguido viver o presente, por ter pensado demais no passado. Talvez, ela não tenha sido capaz de superar suas dores e perdas, até ali. Mas será que algum dia realmente havia tentado? Costumava acreditar que os dois estavam conectados de maneira tão intensa que seria inútil tentar esquecer aquilo tudo que, agora, ela temia ter sido apenas uma impressão unilateral. É difícil aceitar que nada daquilo existiu. É muito triste pensar que o que tiveram foi apenas... nada! Antes tivesse tentado realizar o discurso que improvisara, logo depois da separação, quando lhe perguntavam sobre os dois: “Eu gosto muito dele, mas é impossível ficarmos juntos!”. 
Quando se lembrou das expectativas que havia criado, quando recapitulou as coisas que havia dito e feito de forma impulsiva (sempre com a justificativa de que uma oportunidade perdida nunca volta), quando pensou em todas as desculpas que inventou para legitimar alguma atitude tosca que ele havia tomado sentiu-se patética. Completamente ridícula! Ela não teve limites. Acreditou ser amor, depois vício, denominou obsessão, pôs a culpa em sua vaidade, chamou de doença. E naquele momento em que tentava fazer com que seu coração fizesse as pazes com a razão, desconfiava ser irrealizável.
Ela havia cedido demais, dado confiança demais, espaço demais, chances demais, falado demais. Quantas vezes havia dito que seria a “última vez” ou que “nunca mais”? Deu àquele homem o tempo que nunca dera a ela mesma. Mesmo com toda a ansiedade, afobamento, pressa, tentou aguardar o tempo certo. E quando começou a se perguntar como saberiam a hora certa, foi que percebeu uma linha solta em toda aquela urdidura. Ela que já tentava aceitar a ideia de que devagar se vai ao longe, não conseguia entender o que o fizera mudar o passo, desacelerar, parar naquele ponto. E tinha medo de perguntar. Melhor acreditar que era ela quem havia desistido. Era ela quem não queria mais aquilo.(...) Que nome poderia dar para aquilo que estiveram vivendo? 
Tentou, então, focar nos defeitos dele: seu egoísmo, sua indecisão, sua falta de humildade, sua agressividade. Ela não precisava juntar mais defeitos aos seus, que já eram tantos! Não precisava dele para comentar um livro, discutir a letra de alguma música, nem para escolher um filme para assistir no domingo à tarde. Na verdade, isso até seria impossível, já que ele não gostava de ler, não sabia a letra toda nem de “Atirei o pau no gato” e nunca tinham visto um filme inteiro juntos.
Já havia conjecturado as lembranças que a atormentariam, a partir de sua decisão. Imaginou, dessa vez, quais seriam as recordações que ele tentaria espantar de sua mente. Como se esqueceria das vezes em que ria dela, quando desligava o telefone em sua cara e, logo em seguida, ligava de novo, ao que ele dizia: “Você não muda!”? Como ele poderia suportar imaginá-la inventando apelidos totalmente constrangedores para mostrar o tamanho do seu amor por outro? Como viver sabendo que ela poderia ter com outro um sexo tão encaixadinho como tinham? Para quem ela faria estrogonofe, nos finais de semana? Como seguir sabendo que não serão os seus sapatos que ela tiraria, nas vezes em que ele desabasse na cama, bêbado? Quem gargalharia com ela, pelos comentários mais idiotas? Será que teria com alguém a mesma liberdade, em casa, enquanto esperassem o sanduíche chegar? Como agüentaria pensar em outra pessoa sentindo aquele cheirinho, recebendo as pequenas surpresas, os cafunés, enquanto ele fingisse dormir? Como não ter a sua companhia incondicional, em qualquer programa? Como faria sem saber o que ela está fazendo agora... Ele também sofreria. E como era humana, não achou ruim que assim fosse.
Cansou de acreditar que iria ficar bem com as migalhas que ele lhe oferecia. Não conseguiria mais falar para as pessoas sobre eles e tentar explicar do que é feito o sentimento que tinha por ele. Não sabia qual a natureza dessa coisa que a prendia a ele. Mas sabia que não conseguiria mais fingir que dava conta daquilo. Queria se desiludir. Não queria mais ter esperanças, ela que sempre acreditou. Não queria mais sentir amor, nem ódio. Não queria sentir mais nada. Ela sabia que essa desintoxicação seria difícil. Abster-se dele não seria fácil. Mas andava preferindo a morte a ter uma recaída e passar por tudo novamente.
Por isso, para não ter o risco de uma recaída ao encontrá-lo, resolveu lhe escrever:
“Vou embora e quero sua permissão, já que, sem o seu consentimento, não terei sua ausência. Quero que me deixe, porque hoje a dor é maior que tudo de bom que já tivemos um dia; as decepções vieram de brinde com a falta de entendimento. E é por isso que digo que não quero mais as coisas desse jeito. Substituí a mania de pensar em você todos os dias, o dia todo, pela obsessão em conseguir não sofrer mais. Penso, agora, no porque de não ter enxergado e parado com isso antes. Porque é tão difícil mudar a rota, se sabemos que o tempo vai curar essa dor; se já vivemos isso com outras pessoas? Qual o sentido de se acumular experiências, se não as usarmos para nosso bem? É por isso que, a partir de hoje, para o meu próprio bem, não vou mais chamá-lo de meu bem. Não se preocupe, não quero seu mal, aliás, continuo amando você. E para que esse amor vire indiferença e não raiva é que sugiro que paremos por aqui.”

6 comentários:

sblogonoff café disse...

São forças poderosas demais que se manifestam depois dos beijos, abraços e lençóis. Dominamos e ficamos sob o domínio de uma coisa que sabemos o que é , mas que é difício denominar. E mesmo que os percalços nem sejam tantos, acreditar que o tempo vai curar tudo isso, vai cicatrizar, vai fazer amor parecer indiferença, é exercício de extrema fé.
Porque às vezes parece que o tempo passa pra todo mundo, mas o pasado fica na gente agarrado com hiper bonder e não deixa a lembrança virar adubo pra um relacionamento melhor. É como se guardássemos expectativas de altares numa caixa e esperássemos uma mágica acontecer.
É difícil quando percebemos que a varinha de condão é nossa... Mas ainda não aprendemos a manejar.

Como sair ilesa das lutas?
Como sair ilesa dos lutos?

Ser freira adianta?
Lama no Tibet?

Rs!

Vamos lá!!!
Viva os amores, mesmo os imperfeitos!!
São as flores da estação.

sblogonoff café disse...

Eu escrever dificio!! haha!

Tinha um negócio assim pra eu comentar: PROVE QUE VOCÊ NÃO É UM ROBÔ!!

Isso vai ser título de uma postagem!

Marcos Satoru Kawanami disse...

Elga,

Um alívio que as mulheres têm, e que os homens, em geral, não têm, é chorar. Escrever não alivia tanto.

;*
Marcos

Mulher Vã disse...

Antes de tudo, quero dizer que adorei a carta dela pro cara!
As vezes sofre-se mais imaginado o que pode perder do que quando realmente acontece né?!
Fica-se pensando o quanto será ruim seguir em frente sem aquela pessoa ao lado.
Em vez do nosso mundo girar em torno no sol e de si mesmo, bem que podia dar umas cambalhotas né?!
Só pra variar um pouco as coisas!

É dificio, mas não impossível.

Deixo aqui, um abraço na personagem do texto.

Anônimo disse...

Se isso for uma história real,penso em quanta injustiça há no mundo. Eu que sempre admirei sua inteligência, seu charme, sua alegria, sua amizade, queria poder merecer seu amor assim tão exagerado, tão cego, tão doce.

Quridíssima, você merece ser feliz no amor porque sempre cuidou bem de seus amores, foi leal sempre. Por isso fique tranqüila, sua hora vai chegar e já está próxima.

Meu amor garante isso a você. E lembre-se que amor sincero nunca se engana e o meu por ti é sincero.

Elga Arantes disse...

A gente sofre de véspera mesmo, Vã. Igual peru. E por... Rs...

Kawanami, já chorei bastante, mas escrever me alivia mais, crê?

Michele, já falamos muito, Ne?