terça-feira, 3 de agosto de 2010

Ele nasceu aos nove meses.


Tudo dentro da mais morna normalidade. Uma gestação tranquila, apesar de inesperada. Lembrava que quando descobriu guardar em si mesma uma fagulha de esperança de que as coisas  seriam diferentes, sentiu tanto medo que quase pensou em desistir. Mas abortar tal possibilidade era uma ideia covarde demais. Já houvera passado por aquela experiência outras vezes e nem isso fazia com que ela se sentisse à vontade para reviver todos aquelas sensações novamente.

Aos poucos foi tomando consciência da situação de novidade. A mudança de planos, a especulação sobre o porvir . Passava por um estado de confusão completa. Apesar das experiências anteriores, aquela era uma situação inédita para ela. Ainda assim, seu corpo físico reagia às mudanças de forma equilibrada, dessa vez. O incômodo se resumia a raras náuseas, quando "engolia" algo que não conseguia "digerir" muito bem. Das ondas de calor ela até que gostava, apesar de tão frequentes.

Mais tarde,em alguns momentos, parou de sentir o pulsar dentro de si. Chegou mesmo a acreditar que não havia mais um acréscimo de estima pela vida crescendo em seu corpo. Até que um toque, um carinho qualquer, fazia com que um movimento arrebatador a surpreendesse, mais uma vez.

O final da gestação fora pra ela uma prova de fogo. Tinha a sensação de que os planos mudaram. Alguma coisa parecia se revoltar dentro de si. Talvez não quisesse mais vir a tona. Não parecia mais fazer parte dela, apesar de prosseguirem juntos. Sentiu dores consideráveis. Vieram as lágrimas; algumas de arrependimento por ter levado adiante tal projeto. Agora não era mais possível desistir. Não tinha nem mais forças para reagir.

Imaginava, então, sua vida do nascimento em diante. Sabia o quão delicado era cuidar de algo tão valioso e que se tornaria tão imprescindível em sua vida. Sabia também que, em algum momento, ele iria embora, teria que seguir. Ela sofreria, choraria sua partida. Sentiria falta dos momentos em que lhe faria sentir uma mulher completa. E foi dali mesmo em diante que recordou, também, quantas alegrias e prazeres tudo aquilo podia lhe proporcionar. O êxtase era inegavelmente superior as adversidades que teria que enfrentar, tinha isso como certo.

Deve ter sido por isso que quando deu a luz, aos nove meses, não houve mais espaço para o receio. Deve ser por isso que recebeu tão alegre e entusiasmadamente, quando ele nasceu. Deve ser por isso que comemorou e fez questão que outras pessoas soubessem da novidade. Deve ser por isso que deu o nome de AMOR a tudo aquilo que sentia quando estava ao lado dele.

Como numa providencial coincidência, o amor entre eles nasceu aos nove meses!

Por Elga Arantes, 2010.






5 comentários:

Daniel Savio disse...

Todo mundo tem momentos de insegurança, mas com certeza olhar nos olhos de um filho recem nascido bane um bocado destas inseguranças...

Fique com Deus, menina Helga Arantes.
Um abraço.

Marcos Satoru Kawanami disse...

aquilo foi uma pegadinha pra saber se vc já tinha desfranzido o fuxico.

sblogonoff café disse...

Será que o amor chora ao nascer?!!!

Marcos Satoru Kawanami disse...

amor não chora. amor pode estar todo fodido, mas não chora. aí, eu pergunto por quê? e o amor responde: "porque eu góstchu!".

Mulher Vã disse...

Texto lindo. Dizem que uma mulher só ae torna completa, depois que tem um bebe. Será? Ainda não alcancei essa graça plena.

Mas tive um emprego que durou exatos nove meses, nove longos e castigamente meses, quando finalmente me livrei dele, conheci e dei valor real à palavra liberdade! =P

Beijo de saudade!!!