
Vocês acreditam que, hoje, vinte anos depois, aconteceu isso comigo, de novo?
Tem gente que não aprende, mesmo...
Por Elga Arantes, 2009.


-Alô!
-Por favor, Edu, não desliga! Eu preciso falar. Eu sei que foi horrível, que pisei na bola, mas eu só estou pedindo que me ouça...
-Eu...
-Não, não, não... por favor, não! Eu sei que você está trabalhando agora, que você vai pedir que eu ligue em outro momento, que a gente se encontre mais tarde, mas sei que depois você não irá a encontro nenhum ou, pior, nem vai mais atender meus telefonemas.
-Calma, eu quero te dizer...
-Não! Não, pelo amor de Deus, não! Não me venha com essa conversinha mole, tentando me fazer acreditar que é melhor do que eu. Não tenha pena de mim. Mesmo porque, se subi no balcão daquele bar e fiz aquele strip, foi para chamar sua atenção. Foi a única maneira que encontrei de fazer com que você olhasse pra mim. Mas, no final, já não conseguia mais parar. Eu tinha bebido demais, além do que, todos aqueles homens me olhando, assoviando, me desejando... Mas eu via você, meu amor, juro!
-Olha, é melhor você...
-Eu sei... eu sei... é melhor que eu procure ajuda, não é isso que você ia dizer? Que eu fui uma louca, descontrolada. Que não é a primeira vez que uma coisa nesse nível acontece. Sei disso tudo. Mas queria que você entendesse que dessa vez eu vou procurar ajuda profissional, sim. Apesar de ter certeza de que não sou alcoólatra, quero provar pra você que não sou uma pessoa inflexível, como você disse. É bom mesmo que você ouça de um profissional que não sou nenhuma compulsiva sexual, ou dependente química. Na verdade, meu amor, só dependo mesmo de você para viver.
-Se você parasse...
-De beber? Eu paro! Eu faço o que você quiser, só não me abandone, não desista de mim. Não vou conseguir ficar sem o cheiro do seu corpo, seu suor molhando meu colo, sem seu beijo sussurrado. Preciso sentir você em mim, quero que me machuque, que deixe em mim suas marcas, me mostre que eu tenho dono. Quero você de qualquer jeito, em qualquer lugar...Faça comigo o que quiser!
- ...
-Alô... você ainda está aí? Está me ouvindo?
-Sim...
-Agora pode falar o que quiser.
-Desde o começo eu estou tentando dizer que eu não sou o Edu, que você ligou errado. Mas, agora, começo a acreditar que foi uma ligação providencial. Se você quiser posso ser o Edu, ou quem você quiser, princesa...
-(Tum, tum, tum...)
Por Elga Arantes, 2009.






Simpatizante do 'ocialismo', Garutatar concluía que livre arbítrio só poderia mesmo ser invenção de americano para ferrar a terra do Pau-Brasil.