No banheiro, em frente ao espelho, enquanto engrossava a camada de tinta preta que delineava as pálpebras, reparou na mulher ao lado que usava fio dental. Agora que esta escovava os dentes, ela fingia retocar as maças do rosto, ao mesmo tempo em que acompanhava os movimentos da moça. Quando se sentiu observada, Ana olhou para o lado e, ainda com a boca cheia de espuma, emitiu um “hã” entusiasmado; uma interjeição meio que imperativa que poderia ser traduzida por “ Espere, quero falar com você”. Cuspiu e enxaguou a boca, rapidamente, enxugou as mãos e os lábios com papel toalha, enquanto se virava para a outra entre sorrisos e exclamava: “Não acredito. Nanda!”.
Fernanda, ainda sem saber se aquilo era bom ou ruim, mentiu, simulando uma alegria exagerada: “Estava na dúvida se era mesmo você...”. As duas se abraçaram demoradamente e saíram do reservado, lado a lado.
- Não acredito! Você está com pressa?
- Mais ou menos...
- Dá tempo de fazer um lanche na praça de alimentação?
- Acho que sim, se for rapidinho.
- Me conta, o que anda fazendo? Você está bonitona, menina! Moço, me dá uma brotinho de mussarela e um guaraná. E você, vai querer o que?
- Só um suco. Eu tô aí, trabalhando na mesma agência, só que agora efetivada, voltando a estudar... E você?
- Ih, minha filha, pelo jeito, não dei a mesma sorte que você, não. Estou aqui ralando que nem escrava, ganhando uma merreca. Vendedora. Não arrumei nada na área. Ah! Quer saber? Dando pra desfilar no carnaval, defendendo minha escola, tudo certo. Deixa que pago o suco. Vem... vamos sentar aqui. Mas você está diferente! Quem te viu, quem te vê... Tá chique mesmo!
-Que nada! Continuo a mesma coisa. Só que agora tenho que sustentar meus próprios vícios, que só vem aumentando – e riu, orgulhosa de si mesma.
A conversa não durou meia hora. Algumas lembranças desconexas, risos hesitantes, meias confissões, omissões completas e um abraço aliviado, já na saída do shopping.
Enquanto esperava o ônibus passar, Fernanda pensava em como algumas pessoas são pobres de espírito. Desde a época da faculdade, Ana gastava toda economia feita no ano com uma fantasia de carnaval. Vivia filando o lanche dos colegas e deixava de tirar os xerox pedidos pelos professores. Não era destaque, nem rainha da bateria, mas se dizia plena enquanto desfilava seu entusiasmo pela avenida da cidade. Será que ela não percebia que era, apenas, mais uma? Um número qualquer, em meio a tantos outros? Se privava de muito, durante todo o ano, para ser um personagem por dois dias; se fantasiar do que não era, do que nunca poderia ser. Ou pior, em alguns anos, representava ela mesma e seus iguais, em meio a plumas, lantejoulas e purpurinas que tentavam disfarçar sua nada gloriosa trajetória.
Conseguiu um lugar para se sentar, no ônibus lotado. Sempre teve muita sorte. Enquanto tirava da bolsa a fatura do cartão de crédito, não pode ver que a motorista do Uno que deixava o ônibus para trás era Ana. Fez as contas e concluiu que, mais uma vez, teria que pagar apenas o valor mínimo. Ainda assim, faltaria dinheiro para as despesas do quarto e sala alugado num bairro próximo da zona sul da cidade.
Já em casa, depois do banho, deixou-se cair nos lençóis puídos da cama de sucupira. Deu uma folheada na revista dos famosos que ela assinava, quando lembrou-se de levar para fora o lixo da casa. Algumas embalagens de macarrão instantâneo e algodões ainda úmidos e sujos de maquiagem. A caixa vazia do creme importado a fez lembrar de acrescentar a primeira parcela à sua lista de contas a pagar. Deixou para colocar o lixo lá fora mais tarde, quando o síndico, provavelmente, já estivesse dormindo e não viria atrás dela para lhe cobrar o condomínio do mês. Apagou todas as luzes da casa, colocou o relógio de grife para despertar a uma hora nada glamorosa da manhã e dormiu cheirando a perfume importado e dívidas.
Por Elga Arantes, 2009.
