Se alguém me perguntava se eu ia trabalhar de carro, respondia: "Vou de ônibus. É que tive que vender meu carro quando me casei”. Se perguntavam quanto tempo tinha de formada, defendia-me: "Demorei a me formar porque sofri um acidente que adiou meus planos". Se indagavam quem foi que bateu o martelo para o fim do meu casamento, explicava: “Foi ele quem não quis mais. Mas, apesar de ele já ter me procurado depois, hoje vejo que a separação foi a opção mais acertada”. Se alguém fazia cara de desprezo quando eu respondia ter feito pedagogia, logo justificava: “Comecei a fazer quatro cursos antes de ter coragem de assumir que queria mesmo era fazer pedagogia”.
Esta última resposta era a pior, porque fazia um estrago enorme com uma resposta burra e egoísta. Egoísta porque só estava mesmo pensando em mim, quando tentava justificar qualquer dúvida que pudesse surgir a respeito da minha capacidade intelectual, contando que passei em vários vestibulares e que não foi por falta de competência que não escolhi outro curso. Burra, já que, ao invés de ajudar a combater o preconceito com o curso e o estigma da profissão de educador, acabava fazendo justamente o contrário, ajudando na desvalorização dos profissionais da área.
A negação da recusa do outro, o medo de parecer incompetente, a vontade de se mostrar especial... Orgulho? Vaidade? Soberba? Primeiro, o reconhecimento da pouca nobreza. Depois, a proposta íntima da mudança de hábitos e de atitudes. O desejo de ser alguém melhor para mim e para o resto do mundo. O peito aquecido, o brio frouxo e um apreço adequado por mim mesma.
Mais tarde, quase desisti. Pensei em não publicar esse texto, caro leitor. Tive medo que alguém comentasse (publicamente ou não) algo do tipo: “Forma inteligente de autopromoção. Você se faz de humilde e, pelo tom autopunitivo, ninguém percebe o objetivo maior do desabafo.” Indo mais além, alguém, ainda, poderia pensar que até essa simulação de comentário seria uma estratégia de parecer menos e aparecer mais. E, seguindo essa linha de raciocínio, isso não teria fim.
Mas querem saber? É o risco que se corre quem torna públicos seus devaneios. A gente pode parecer muito inteligente, muito inseguro, muito arrogante, muito carente ou, simplesmente, muito GENTE! É, gente, porque a gente é assim; porque gente é assim; até o agente é assim. Ou não!
Fato é que, incompetência, fatalidade ou falta de talento, é a vida que tenho. Sou eu e como estou, no momento. Até a sorte, ou a falta dela, me pertence, e, sendo assim, devo assumir a MINHA falta de sorte – nos casos em que imagino ser ela a responsável por algo que me ocorreu.
Noves fora, zero: zero mesmo. Volto a estaca zero. E isso quer dizer, devo explicar, que tal desafogo não é garantia de que amanhã não dê as mesmas respostas mascaradas às perguntas que me fizerem. Porque eu posso ter muitas dúvidas a meu respeito; posso me estranhar, de vez em quando (ou na maioria dos dias); posso não saber me descrever e nem mesmo ter a certeza de ser uma boa ou uma má pessoa. Mas não duvidem de uma coisa: sou uma pessoa inconstante. Em alguns aspectos... Em outros, não. Nestes outros, só um pouquinho... Às vezes. Ou não... Dependendo da situação. Ou da cor da saia que estou usando. Mas eu nem uso saias... Geralmente, não. Curtas. Longas, sim.
Eu poderia me chamar Aparecida. Constância, não!
“... o ser humano é contraditório. Um punhado de bem, um punhado de mal. É só misturar com água.” (Zusak, Markus, 2007)
Por Elga Arantes, 2009.