
- Ai, meu Deus !!!
Foi o que ela gritou ao ser lançada a uns trezentos metros de distância e a uma altura que não me atrevo a dizer nada com exatidão maior que “como nos filmes de Hollywood”. A voz dele, só ouvi ao perguntar como ele estava se sentindo:
- Porque você não buzinou ???
Ou, na minha interpretação: “Machuquei. Mas estou vivo e consciente o bastante para chamar sua atenção”. Isso me fez acabar com a bobagem de duvidar da existência de Deus, de uma vez por todas. Porque foi a partir daí que agradeci ao ser supremo por aqueles dois estarem vivos. “Pelo menos até aquele momento”, pensei. E como minha mente é fértil para tudo, e realista demais até nos delírios, lembrei de dois amigos que perdi por se recusarem a ir para o hospital, depois de um acidente de carro. Nos dois casos, ao chegarem a casa, visivelmente bem, passaram mal em virtude de uma hemorragia interna. Cássio morreu já no hospital. Trololó, coitado, foi traído por sua valentia inútil e morreu ainda em casa. E foi pensando nisso que conversei com Deus, assim, bem informalmente, durante a mais de uma hora que o SAMU demorou até chegar ao local do acidente. Primeiro, me desculpei por minha temporária incredulidade; em seguida, pedi, sinceramente, que permitisse que aquele casal continuasse, apenas, como vítimas de minha ignorância (preciso dizer que não sabia que a manobra que fazia era proibida) e não se tornassem vítimas fatais.
Na hora, não, mas depois, já em casa (Não na minha. Não tive condições, nem vontade de voltar para minha casa) é que fui pensar na represália travestida de pergunta que sofri por parte do motorista da moto. “Se ele tivesse com os faróis acesos, me dando chances de avistá-lo, talvez, pudesse ter buzinado. E de que adiantaria buzinar para um veículo a mais de cem quilômetros por hora?”. Mas de nada adiantaria chegar a tal conclusão naquele momento. A não ser pela resposta que me deixaria menos sem graça no meio da aglomeração de pessoas que se formou em menos de dois minutos.
Além disso, o livrinho de regras de circulação no trânsito já havia proferido minha sentença. Não minha “máxima culpa”, como se diz na oração católica da Confissão, posto a parcela de imprudência do motoqueiro, mas, mesmo assim, oficialmente, minha culpa. Também, não quero omitir minha suposição construída mesmo ainda no local da colisão de que, mesmo que soubesse não ser permitido convergir à esquerda em uma avenida de mão dupla, onde a faixa é contínua, eu teria feito, assim mesmo. E foi por isso que não me senti, assim, tão injustiçada. E foi por isso, também, que parei de reclamar minha própria sorte – para não usar o antônimo desta e atrair mais uma dose dela na minha vida. Mas, ainda assim, parei de me sentir envergonhada e de me martirizar por não saber sobre uma regra de trânsito, pelo visto, tão básica. Não sabia mesmo e ponto final.
Hoje, falando ao telefone com um amigo, ouvi-lo dizer que se não fossem os dois capacetes terem estragado tanto, meu prejuízo financeiro seria menor, pelo menos, uns trezentos reais, já que cada capacete custa mais ou menos cento e cinqüenta. Ele soube disso pela marca das armaduras. Eu concluí que o prejuízo financeiro é bem melhor que o moral. Se não fossem os protetores que eles usavam, poderia estar carregando uma bigorna de uma tonelada na consciência e o peso de duas mortes nas costas. Respondi:
- Antes o capacete que a cabeça deles, né, amigão?!
E ele, concordando, arrematou:
- Pensando bem, até você teve sorte!
Por Elga Arantes, 2009.
Foi o que ela gritou ao ser lançada a uns trezentos metros de distância e a uma altura que não me atrevo a dizer nada com exatidão maior que “como nos filmes de Hollywood”. A voz dele, só ouvi ao perguntar como ele estava se sentindo:
- Porque você não buzinou ???
Ou, na minha interpretação: “Machuquei. Mas estou vivo e consciente o bastante para chamar sua atenção”. Isso me fez acabar com a bobagem de duvidar da existência de Deus, de uma vez por todas. Porque foi a partir daí que agradeci ao ser supremo por aqueles dois estarem vivos. “Pelo menos até aquele momento”, pensei. E como minha mente é fértil para tudo, e realista demais até nos delírios, lembrei de dois amigos que perdi por se recusarem a ir para o hospital, depois de um acidente de carro. Nos dois casos, ao chegarem a casa, visivelmente bem, passaram mal em virtude de uma hemorragia interna. Cássio morreu já no hospital. Trololó, coitado, foi traído por sua valentia inútil e morreu ainda em casa. E foi pensando nisso que conversei com Deus, assim, bem informalmente, durante a mais de uma hora que o SAMU demorou até chegar ao local do acidente. Primeiro, me desculpei por minha temporária incredulidade; em seguida, pedi, sinceramente, que permitisse que aquele casal continuasse, apenas, como vítimas de minha ignorância (preciso dizer que não sabia que a manobra que fazia era proibida) e não se tornassem vítimas fatais.
Na hora, não, mas depois, já em casa (Não na minha. Não tive condições, nem vontade de voltar para minha casa) é que fui pensar na represália travestida de pergunta que sofri por parte do motorista da moto. “Se ele tivesse com os faróis acesos, me dando chances de avistá-lo, talvez, pudesse ter buzinado. E de que adiantaria buzinar para um veículo a mais de cem quilômetros por hora?”. Mas de nada adiantaria chegar a tal conclusão naquele momento. A não ser pela resposta que me deixaria menos sem graça no meio da aglomeração de pessoas que se formou em menos de dois minutos.
Além disso, o livrinho de regras de circulação no trânsito já havia proferido minha sentença. Não minha “máxima culpa”, como se diz na oração católica da Confissão, posto a parcela de imprudência do motoqueiro, mas, mesmo assim, oficialmente, minha culpa. Também, não quero omitir minha suposição construída mesmo ainda no local da colisão de que, mesmo que soubesse não ser permitido convergir à esquerda em uma avenida de mão dupla, onde a faixa é contínua, eu teria feito, assim mesmo. E foi por isso que não me senti, assim, tão injustiçada. E foi por isso, também, que parei de reclamar minha própria sorte – para não usar o antônimo desta e atrair mais uma dose dela na minha vida. Mas, ainda assim, parei de me sentir envergonhada e de me martirizar por não saber sobre uma regra de trânsito, pelo visto, tão básica. Não sabia mesmo e ponto final.
Hoje, falando ao telefone com um amigo, ouvi-lo dizer que se não fossem os dois capacetes terem estragado tanto, meu prejuízo financeiro seria menor, pelo menos, uns trezentos reais, já que cada capacete custa mais ou menos cento e cinqüenta. Ele soube disso pela marca das armaduras. Eu concluí que o prejuízo financeiro é bem melhor que o moral. Se não fossem os protetores que eles usavam, poderia estar carregando uma bigorna de uma tonelada na consciência e o peso de duas mortes nas costas. Respondi:
- Antes o capacete que a cabeça deles, né, amigão?!
E ele, concordando, arrematou:
- Pensando bem, até você teve sorte!
Por Elga Arantes, 2009.

