sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

"Um vaga-lume lanterneiro que riscou um psiu de luz" *

Ou ainda como diria o gênio, “tênue tecido alaranjado passando em fundo preto da noite à luz” *. De qualquer forma, luz. Foi luz e passou à velocidade dela. Foi rápido e intenso como devem mesmo ser as paixões. E os orgasmos... Sapiência da natureza para que não padeça o corpo que meneia a alma.

Imagino que ainda passe por essas bandas olhando pela abertura da fechadura e sentindo comigo o “aeiouar”* dos ventos que aqui sopram. De novo, sou capaz de apostar que ainda me lê tentando decifrar o indecifrável e desvendar os segredos daquilo que já foi divulgado, do que não tem mistério. Divirto-me fantasiando que, até então, suponha de maneira encantadoramente pretensiosa que falo dele nas suspeições que tenho a respeito do mundo, das suas coisas e dos seus sentidos.

Riscos das mentes metafóricas que dificultam o evidente e desembaraçam o obscuro. Deformidade, vício ou dom? E é com essa noção vacilante que sou capaz de duvidar que, justo aqui, esteja convicto de que falo de você, para você, para celebrar a sombra rosa da saudade que a lembrança projeta nas páginas em branco. Outra história vai sendo escrita em uma nova página. A borracha apagou algumas letras traçadas (bem traçadas) mas, mesmo assim, deixou a marca do que foi contado à lápis. Teria mesmo que ser. Aquilo foi um rascunho cuidadoso para o Best-seller que pode vir a seguir. Ou não. Sim ou não; para mim ou para você. Quem sabe para os dois...

Não tenho certeza de nada, mas desconfio que a amizade não se abalou. Fomos sinceros, fomos intensos, mesmo sendo sonhadores irremediáveis. Talvez, por isso mesmo seja, nos divertimos tanto! Como numa roda gigante de um parque de diversões. As luzes que nela piscam à noite são, evidentemente, vaga-lumes; aqueles do "psiu de luz". Alegria, adrenalina, frio no estomago! E sem passar mal ao descer do brinquedo.

Por Elga Arantes, 2009.

*citações de Guimarães Rosa





http://www.mp3tube.net/musics/Chico-Buarque-Fernanda-Porto-Roda-Viva-Aprenda-a-baixar-as-musicas-do-site-spartanbryahoocombr/10470/

DANI-se!

No ano que passou conquistei muitos amigos de infância. A identificação com algumas pessoas foi surpreendentemente confortadora em meio a crises, enchentes e tufões. Acidentes "naturais" à parte, o novo ano começou com duas histórias já conhecidas: as novas afeições instantâneas e a língua nervosa de pessoas mais afetadas.

Tomar as dores alheias é, por sua vez, uma história antiga e também repetida a cada ano que se inicia. Portanto,e não estranhamente, produzi e dirigi o mais novo conto de Nelson Rodrigues em “A vida como ela é”, no caso da morena do cabelo que brilha.

Fatigada de invenções fabulosas e por não achar graça nenhuma em brincar de detetive, ainda mais encenando o “Dr.Watson” de um amigo meio “sherlokiano”, resolvi simplificar.

Aqui, é apenas um registro de uma menina sensível como uma manteiga exposta ao fogo. Qualquer fogo. Da trempe do fogareiro, da fogueira da inquisição que queimou Joana Darc, da tocha olímpica dos vencedores de duras provas, do das paixões, ou de Nero – aquele maluco que incendiou Roma.

Por Elga Arantes, 2009.


* A trilha sonora é só para te irritar. Pego no seu pé duas vezes; pela letra e pelo título. Ah, não achei outra versão.
* A Dani não sabe fazer careta!

 Fábio Jr - Juventude Transviada

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

E nem precisa ser no campo


Quem casa, quer casa.
Quem descasa, também...


"E um filho de cuca legal";
"Onde eu possa plantar meus amigos, meus discos e nada mais"

 Elis Regina - Eu quero uma casa no campo

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Homenagem ao "Mineirês"

Descobri esse texto na internet e achei de uma delicadeza tão grande que resolvi postar aqui.


"Ouvi dizerem que o sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar. Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar das mineiras ficou de fora?

Porque, Deus, que sotaque! Mineira devia nascer com tarja preta avisando: ouvi-la faz mal à saúde. Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso? Assino achando que ela me faz um favor. Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma. Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, só pelo sotaque.

Mas, se o sotaque desarma, as expressões são capítulos à parte. Não vou exagerar, dizendo que a gente não se entende... Mas que é algo delicioso descobrir, aos poucos, as expressões daqui, ah isso é...

Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas. Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho (não dizem: pode parar, dizem: "pó parar". Não dizem: onde eu estou? dizem: "ôncôtô?"). Parece que as palavras, para os mineiros, são como aqueles chatos que pedem carona. Quando você percebe a roubada, prefere deixá-los no caminho.

Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem - lingüisticamente falando - apenas de uais, trens e sôs. Digo-lhes que não.

Mineiro não fala que o sujeito é competente em tal ou qual atividade. Fala que ele é "bom de serviço". Pouco importa que seja um juiz, um jogador de futebol ou um ator de filme pornô. Se der no couro - metaforicamente falando, claro – ele é bom de serviço. Faz sentido...

Mineiras não usam o famosíssimo tudo bem. Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra: "cê tá boa?" Para mim, isso é pleonasmo. Perguntar para uma mineira se ela está boa, é como perguntar a um peixe se ele sabe nadar. Desnecessário.

Há outras. Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada. Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer: - Mexe com isso não, sô (leia-se: sai dessa, é fria, etc).

O verbo "mexer", para os mineiros, tem os mais amplos significados. Quer dizer, por exemplo, trabalhar. Se lhe perguntarem com o que você mexe, não fique ofendido. Querem saber o seu ofício.

Os mineiros também não gostam do verbo conseguir. Aqui ninguém consegue nada. Você "não dá conta". Siôcê (se você) acha que não vai chegar a tempo, você liga e diz:

- Aqui, não vou dar conta de chegar na hora, não, sô.

Esse "aqui" é outro que só tem aqui. É antecedente obrigatório, sob pena de punição pública, de qualquer frase. É mais usada, no entanto, quando você quer falar e não estão lhe dando muita atenção: é uma forma de dizer, olá, me escutem, por favor. É a última instância antes de jogar um pão de queijo na cabeça do interlocutor.

Mineiras não dizem "apaixonado por". Dizem, sabe-se lá por que, "apaixonado com". Soa engraçado aos ouvidos forasteiros. Ouve-se a toda hora: "Ah, eu apaixonei com ele...". Ou: "sou doida com ele" (ele, no caso, pode ser você, um carro, um cachorro). Elas vivem apaixonadas COM alguma coisa.

Que os mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe. É um tal de bonitim, fechadim, e por aí vai. Já me acostumei a ouvir: "E aí, vão?". Traduzo: "E aí, vamos?". Não caia na besteira de esperar um "vamos" completo de uma mineira. Não ouvirá nunca.

Na verdade, o mineiro é o baiano lingüístico. A preguiça chegou aqui e armou rede. O mineiro não pronuncia uma palavra completa nem com uma arma apontada para a cabeça.

Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, o mineirês. Nada pessoal. Aqui certas regras não entram. São barradas pelas montanhas. Por exemplo: em Minas, se você quiser falar que precisa ir a um lugar, vai dizer: - Eu preciso de ir.

Onde os mineiros arrumaram esse "de", aí no meio, é uma boa pergunta. Só não me perguntem. Mas que ele existe, existe. Asseguro que sim, com escritura lavrada em cartório. Deixa eu repetir, porque é importante. Aqui em Minas ninguém precisa ir a lugar nenhum. Entendam... Você não precisa ir, você "precisa de ir". Você não precisa viajar, você "precisa de viajar". Se você chamar sua filha para acompanhá-la ao supermercado, ela reclamará: - Ah, mãe, eu preciso de ir?

No supermercado, o mineiro não faz muitas compras, ele compra "um tanto de coisa". O supermercado não estará lotado, ele terá "um tanto de gente". Se a fila do caixa não anda, é porque está "agarrando lá na frente". Entendeu? Deus, tenho que explicar tudo. Não vou ficar procurando sinônimo, que diabo. E não digo mais nada, leitor, você está agarrando meu texto. Agarrar é agarrar, ora! Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena, suspirará: "- Ai, gente, que dó".

É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras. Eu aviso que vá se apaixonar na China, que lá está sobrando gente. E não vem caçar confusão pro meu lado.

Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro "caça confusão". Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele "vive caçando confusão".

Para uma mineira falar do meu desempenho sexual, ou dizer que algo é muitíssimo bom (acho que dá na mesma), ela, se for jovem, vai gritar: "Ôu, é sem noção". Entendeu, leitora? É sem noção! Você não tem, leitora, idéia do tanto de bom que é. Só não esqueça, por favor, o "Ôu" no começo, porque sem ele não dá para dar noção do tanto que algo é sem noção, entendeu?

Ouço a leitora chiar: "- Capaz..." Vocês já ouviram esse "capaz"? É lindo. Quer dizer o quê? Sei lá, quer dizer "tá fácil que eu faça isso", com algumas toneladas de ironia. Gente, ando um péssimo tradutor. Se você propõe a sua namorada um sexo a três (com as amigas dela), provavelmente ouvirá um "capaz..." como resposta. Se, em vingança contra a recusa, você ameaçar casar com a Gisele Bundchen, ela dirá: "ô dó dôcê". Entendeu agora?

Não? Deixa para lá. É parecido com o "nem...". Já ouviu o "nem..."? Completo ele fica: "- Ah, neeeeem..."

O que significa? Significa, amigo leitor, que a mineira que o pronunciou não fará o que você propôs de jeito nenhum. Mas de jeito nenhum. Você diz: "Meu amor, cê anima de comer um tropeiro no Mineirão?". Resposta: "neeeem..." Ainda não entendeu? Uai, nem é nem. Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?

A propósito, um mineiro não pergunta: "você não vai?". A pergunta, mineiramente falando, seria: "cê não anima de ir"? Tão simples. O resto do Brasil complica tudo. "É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem..."

Ei, leitor, pára de babar. Que coisa feia. Olha o teclado todo molhado. Vai dar curto circuito! Chega, não conto mais nada. Está bem, está bem, mas se comporte.

Falando em "ei...". As mineiras falam assim, usando, curiosamente, o "ei" no lugar do "oi". Você liga, e elas atendem lindamente: "eiiii!!!", com muitos pontos de exclamação, a depender da saudade...

Tem tantos outros... O plural, então, é um problema. Um lindo problema, mas um problema. Sou, não nego, suspeito. Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras.

Aliás, deslizes nada. Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão. Se você, em conversa, falar: - Ah, fui lá comprar umas coisas... "- Que' s coisa?" - ela retrucará.

Acreditam? O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o que.

Ouvi de uma menina culta um "pelas metade", no lugar de "pela metade". E se você acusar injustamente uma mineira, ela, chorosa, confidenciará: - Ele pôs a culpa "ni mim".

A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios, em Minas... Ontem, uma senhora docemente me consolou: "preocupa não, bobo!". E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras, nem se espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um: "não se preocupe", ou algo assim. A fórmula mineira é sintética e diz tudo.

Até o tchau, em Minas, é personalizado. Ninguém diz tchau pura e simplesmente. Aqui se diz: "tchau pro cê", "tchau pro cês". É útil deixar claro o destinatário do tchau. O tchau, meu filho, é prôcê, não é pra outro, 'tendeu?"

Por Felipe Peixoto Braga Neto.
In: "As coisas simpáticas da Vida", 2005.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Só porque adoro essa música...

"Me deixe sim, mas só se for pra ir ali,
E pra voltar.
Me deixe sim, meu grão de amor, mas nunca deixe
De me Amar.

Agora as noites são tão longas,
No escuro eu penso em te encontrar.
Me deixe só, até a hora de voltar.

Me esqueça sim, pra não sofrer,
pra não chorar; pra não sentir.
Me esqueça sim, que eu quero ver
Você tentar sem Conseguir.

A cama agora está tão fria, ainda sinto o seu calor.
Me esqueça sim, mas nunca esqueça o meu amor.

É só você que vem, no meu cantar meu bem,
É só pensar que vem, lara lala
Me cobre mil telefonemas, depois me cubra de paixão.
Me pegue bem; misture alma e coração."

Trilha sonora para trânsito com chuva e obras.

Trilha sonora para dias difíceis sem fluoxetina.

Trilha sonora para recomeço. Trilha sonora para despedida.

Trilha sonora para a cegueira. Trilha sonora para cura.

Sonoridade para uma trilha qualquer. Desde que nova!

Obs: Que bom que estão todos de volta! Que bom! O ano, agora, parece que começou, aqui...


 Marisa Monte e Arnaldo Antunes - Grão de Amor

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

As cores e as coisas

Do vermelho ela gostava em qualquer situação. Quando estava triste ou feliz. Também gostava da cor refletida nas paredes brancas do quarto, ou da cor intensa que se apresentava diretamente na luminária. O gosto pelas outras cores era sempre condicionado pelo seu estado de espírito (ou do corpo físico, mesmo; ou dos dois juntos). O azul a deixava deslumbrada quando o black-out estava fechado, mas não tinha o mesmo efeito quanto a janela tinha apenas a cortina de vual branco como adorno para o ambiente. Noutras vezes, a mesma cor lhe causava um abatimento morno. De qualquer maneira, sabia que aquela luminária que mudava de cor, incontestavelmente, fora a melhor escolha para o presente que dera a si mesma, no último natal.

Achava que alguns sentimentos também poderiam ser um objeto. E, ainda, que um único sentimento poderia se apresentar de variadas formas e causar distintas sensações, mesmo quando provocado por um mesmo objeto (este, referido como objetivo, ponto central, motivador).

O medo que sentia de amar aquele homem para sempre tinha a medida exata do temor que nutria quando imaginava deixar de amá-lo, algum dia. Esse medo só não era maior do que o de descobrir, num dia qualquer, que aquilo tudo, na verdade, não era amor. O desengano seria um castigo terrível para sua covardia, assim como para sua displicência em acreditar mais no mundo que em si mesma.

Calculava, portanto, que no final das contas todos esses medos eram afluentes que desaguavam no rio caudaloso da incompreensão daquele sentimento pela qual era escravizada. Pela cronicidade daquela doença que um dia fora aguda. Fosse como fosse sabia que as conseqüências da mazela eram reais. Tão reais que a enfermidade transcendia o corpo e sangrava-lhe a alma. Mas gostava da cor do sangue. Sangue corre nas veias, pulsa no coração. Quando esquenta se rebela, deserta do corpo. Sangue é movimento. É reação. Sangue é vida!

Abriu a luminária, apertou bem a rosca que fazia a bandeja de cores girar, até que ela ficasse numa única posição. Ligou novamente o abajur que agora refletia apenas a cor vermelha. Naquele dia, não queria perceber, nem por um momento o azul morno que lhe lembrava gelo seco. O frio que queima sem esquentar. Queria mesmo a impressão do calor. Mesmo que fosse do inferno do desassossego.

Por Elga Arantes, 2009.