quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Homem não presta (parte I)



Seu ciúme era doentio. E infundado. Ele não dava motivos para tamanha insegurança. E quando a consciência a alertava sobre as injustiças já cometidas com ele,  ela dizia em voz alta para si mesma, e quase que involuntariamente,  que nenhum homem prestava.


Além de patológico, o ciúmes que sentia era atemporal. Sentia ciúmes do passado, do presente e do futuro dele. Torturava-se pensando nas palavras que ele já  teria sussurrado no ouvido da ex namorada, noutros tempos; pensava quanto tempo levou para que ele dissesse a ela o primeiro 'eu te amo', e se ele demorou mais tempo para se declarar a ela que para a ex. Simulava mentalmente uma cena de sexo selvagem entre os dois, se perguntava se ela tinha estrias e celulites, ou se desfilava tranquilamente nua na frente dele ostentando um par de seios perfeitos.


Apesar de bem mais jovem que ele, imaginava o namorado, então já marido, no futuro, a trocando por uma mulher dez anos mais nova. Simulava uma cena onde  os três se encontravam, e ela, já mais prejudicada pelos anos e a preocupação com os dois filhos que eles, certamente, teriam, sentiria-se humilhada ao ser comparada com aquela moça linda e rígida, de coxas grossas, sorriso fresco e segurança de primeira mão.


Mas o que mais lhe atormentava eram as especulações que fazia no tempo presente. Se ele não atendia a alguma ligação do seu celular, ela logo queria saber o porquê. Se ele recusava um convite para acompanhá-la a um evento social e ele dizia estar cansado, ligava na casa dele várias vezes, para ter certeza da veracidade da afirmação. Às vezes, ia mais longe e imaginava que podia ter alguém lá com ele. Assim, vez ou outra, dava uma incerta em sua casa, mentindo saudades ou qualquer coisa do gênero. Tinha pânico em imaginar alguma mulher na arquibancada reparando suas pernas definidas, nas peladas de quarta feira, por isso, quase nunca falhava de dar uma passada lá para lhe dar um beijo, ou esperar o fim do jogo mesmo, apesar de achar um porre o passatempo masculino. Não raras vezes, via uma mulher bonita na rua e imaginava em que circunstâncias ele poderia conhecê-la, se aproximar dela. Imaginava a vagabunda partindo para cima dele com todo seu charme e ele, safado como todo homem, caindo nas suas teias. Se não fosse ele mesmo a atacar a ninfeta. Ou uma coroa sarada.


Agora, sentada no banco daquele ônibus, viu uma moça passar pela roleta - sem reparar maiores detalhes - e se apoiar na barra de ferro do ônibus para pegar o dinheiro na bolsa. Como encontrou dificuldades, a moça sentou com sua bunda enorme (mas nada desproporcional, era preciso ser justa), delimitada por largos quadris, na barra horizontal, logo depois da roleta. O movimento fez com o cós de sua calça jeans se abaixasse e deixasse a mostra a minúscula tanga fio dental que usava. Imaginou seu homem reparando aquela vestimenta (?) de tule preto, que tinha um adorno de flores bem miúdas em tons bebê, que dava uma certa ingenuidade a peça, que, também por isso, tornava-se ainda mais sexy. Pra que tanto apelo sexual? Pra que se fazer tão provocante? Algumas mulheres, também, não prestavam.  


Quando olhou para o lado, viu um senhor olhar fixamente para o corpo da moça. Velho babão! Lambendo, com a testa, as ancas da vadia. Homem não presta, mesmo. Não salva um...


(continua...)



Por Elga Arantes, 2009.



9 comentários:

Alvaro Vianna disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sheyla disse...

Elga,
Gostei de todas as descrições do texto, pois pude visualizar toda a cena. O esquisito é que existem mulheres e homens assim...
Estou curiosa pela continuação.
Bjs.

Marcos Satoru Kawanami disse...

Rousseau cometeu seu maior erro ao formular o Mito do Bom Selvagem; com a mesma boa vontade, a mulher insiste em crer que homem presta.

Homem carece de variedade, harém. Está no DNA.

Bel disse...

... quero ver o revés. Como a Sceyla espero pela continuidade do texto ... da vida.
Um beijo, Adorável,

Bel.

Karen disse...

Coração,
realmente ciúmes é algo estremamente complicado e irracional. Vezes ou outra, me pego brigando com o meu, extrapolando o limite da razão e irracionalmente tendo xiliques. Mas tenho uma certeza de que o meu amor e nossa cumplicidade extrapolam qualquer calcinha sexy ou vadia por aí dizendo como snao lindos seus olhos. Olhos que têm só para mim.
Saudades

PS: sonhei com vc hj!!!
bjs

Alvaro Vianna disse...

Hilário

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

o ciúme é o fragelo do caração e a dor do corpo

Bruno disse...

Não tenho paciência pra ciúme, hahahah! Se começa de ceninha, eu largo falando sozinha :P

Tô curioso pra saber o final.

sblogonoff café disse...

Passei aqui e vou deixar uma risadinha com consoantes (rsrsrsrs).

Anéim!!! rsrs