terça-feira, 20 de outubro de 2009

Geometria não-euclidiana *

"Ah, se eu fosse homem de parar de me portar feito um rochedo
indestrutível e infalível, inabalável e imutável
previsível e impossível (...)"

Hoje eu vou escrever um texto” sobre ela. Ela que não negava. No fundo, sabia que entrava numa fria. Logo ela, que adorava sol e calor. Mesmo assim, desfrutava do prazer enorme trazido por aquele choque térmico: o encontro da certeza gelada das sensações provisórias,e a ardência da afinidade hermética daqueles dois corpos.

A mesma alegria, boemia, simplicidade. Uma certa vaidade envergonhada, recusada. A discrição muitos mais praticada que emblemática. Um respeito nada hipócrita e uma fidelidade aos seus próprios sentimentos. Traços em comum que os aproximavam, sem se tocarem. Como duas pararelas. A vibração que faltava na ressonância de suas vozes roucas, reverberavam quando os olhares se cruzavam de forma displicentemente voluntária.

Eram subjugados pelo orgulho desmedido. Temiam perder a liberdade. Se amparavam numa segurança inquietante. Queriam ter o outro, sem oferecer a reciprocidade de seus desejos futuros. Se reconheciam um no outro, sem reconhecer tamanha intimidade; sem arriscar tanta exposição. No fundo, desejavam se perder, mas jogavam migalhas do passado pelo caminho, para poderem voltar, no caso de alguma coisa dar errado.

Mas era justamente a impotência em romper aquela linha tênue que os separavam, que mostrava o tamanho da fraqueza dos dois. Pobres ingênuos! Acreditavam controlar suas vontades, sem perceberem que eram elas quem os dominavam. Em raros momentos de entrega vigiada, eram traídos por gestos, quase inconscientes, de cuidado e de carinhos desinteressados. E, quando pegos de surpresa por tais ímpetos, dissimulavam alguma fanfarrice proposital para evitar dar explicações a si mesmos.

A cada passo que ele dava em sua direção, ela recuava dois. Mas sabia que cada passada daquele homem valia por um quilômetro a mais de satisfação.

Por Elga Arantes, 2009.

* De acordo com a geometria não-euclidiana, duas paralelas se encontram no infinito.

2 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...

por que o medo de se entregar?

Alvaro Vianna disse...

Bonito texto, mesmo parecendo anacrônico numa época em que muitos parecem preferir linhas oscilantes e multiconvergentes ao modo de "Admirável Mundo Novo"