terça-feira, 6 de outubro de 2009

Eu caço com gatos.


Sabe quando alguém te fala ou pergunta alguma coisa e você diz: "Oi?", ou "Como?", ou arranha a garganta como se estivesse obstruída por alguma coisa? (geralmente, pelas palavras alheias, claro que você sabe). Artimanhas para ganhar tempo. Foi isso que fiz quando disse que iria organizar meu pensamento para depois comentar seu post. Tentei ganhar tempo.

Sabia o que dizer, mas não queria parecer, nem podia aparecer, sabe? Na verdade, a única confissão que sou capaz de fazer, nesse momento, é a de não saber receber elogios. Receio agradecer e parecer aparecida; medro dizer qualquer coisa do tipo "Que isso, sou nada" e parecer parecida com todo mundo.

O mais próximo da verdade que posso dizer é que gostaria de ser tudo o que desejo que os outros enxergam em mim. É mais ou menos o que você disse que imagina que sou; ou que quer que eu acredite que você acha.

Às vezes, me pego escondendo atrás das minhas próprias portas. Escondendo de quem? De mim mesma. Sabe aqueles cenários de alucinações de Nelson Rodrigues? Ou nos devaneios dos personagens, nos contos de Rubem Fonseca? Tipo.

A cada elogio que recebo - seu, da Kelly (surpresa!), ou de quem quer que seja- sinto-me na obrigação de ser mais do que sou, de me aproximar da minha meta metafísica e surreal. De ser eu, enquanto eu-ser; espécie; gênero. Além do real, mais do que posso alcançar. Mais do que acho que posso.Isso cansa...

Em momentos de maior carência, acredito ser a mulher forte, honesta comigo mesma (na medida do possível) e com os outros (na medida do quase impossível). Noutros, mais felizes, aceito minha condição de imagem invertida do espelho côncavo (ou convexo?). Às vezes, a ordem desses fatores muda,alterando o produto, completamente. Ou não!

Viu? Mesmo aqui, tento. Tento parecer, pelo menos, diferente. Tento parecer humilde quando ,na verdade, fiquei aturdida de vaidades com tantos elogios que- se eu fosse realmente uma mulher exemplar, não confessaria, aqui- acho que mereço.

Mas como já disse, não sou o que quero, nem o que acredito ser. Devo ser uma mistura do que desejo ser, mais o que desejo que os outros achem que sou, misturado ao que eu desejo que os outros queiram que eu seja (?), com uma pitada da vontade de saber quem eu sou.

E com isso, subo no muro e fico ali, imóvel, esperando que ninguém descubra quem eu não quero ser.


Nota explicativa: Era para ser um comentário para o post que um amigo virtual, Sandro, dedicou a mim, mas ficou tão extenso e confuso, que resolvi usá-lo como postagem, aqui, rs. Nesses tempos em que o tempo não nos dá tempo de produzir (de produzir não, de transcrever a produção do nível do pensamento para a tela do editor de textos), a gente faz o que pode. 'Quem não tem cão caça com gato.' - Quisera eu que o provérbio tivesse sido usado como metáfora da metáfora.


Por Elga Arantes, 2009.

"Tem gente que jura que a vida é virtude
Tem gente que faz o bem por falsidade
Não há no universo uma força que mude
O dom da mentira, o som da verdade
A lábia do sábio, a arma do rude

São Deus e o Diabo unidos na prece"



9 comentários:

Eduardo Lara Resende disse...

Recebi em comentário em e-mail e ia respondendo, quando dei de frente com a situação que V. descreve aqui. Isso não vale, não devia valer... :)Escrever já é um peso; escrever correspondendo às expectativas do leitor, é peso quase insuportável. Dá vontade de ir andando em cima do muro, virar aquela esquina lá na frente, saltar pra rua e sumir em desabalada carreira.
Voltarei aqui, de olhar comprido na receita.
Abraço.

Marcos Satoru Kawanami disse...

entendo.

minha avó, ai que raiva!, me elogiava de tal maneira que parecia estar me obrigando a me tornar o predicado do elogio.

quê massacre...

sandro caldas disse...

Elga, nunca tinha recebido uma resposta-post. Fiquei muito feliz, muito mesmo!!! Emocionado, até.
O que eu enxerguei em você é único, faz parte das minhas emoções, simbologias próprias, devaneios, projeções. Pode parecer maluco, pois mal a conheço..quer dizer, não a conheço, nem mesmo mal! Mas prefiro deixar a imaginação ter a certeza sobre o que penso sobre você e quem sabe um dia, ter a prova real (tenho certeza que teria)!
Grande beijo!!!
A SUA FORÇA É IMENSA!

Bel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bel disse...

Adorável ....

Já gostei do Sandro. Ele vê exatamente como te mostras ... adoravelmente pulsante. Da beleza que de ti vem ... aos poucos irão/irá confirmar.... assim como eu venho fazendo há algum tempo. Acredite, Adorável, a virtualidade pode ser espelho: daqueles bem grande ... lindamente emoldurado. Por aqui a essência é alimento. Só ficamos quando algo nos prende ... e tu és teia.
Teu fã-clube é merecido. Faço parte dele. Aceite o que te vem ... querida ... agradeça a beleza que te rodeia.
Um grande beijo,
Bel

Elga Arantes disse...

Eduardo,

"Todo mundo é parecido quando sente dor". E escrever, dentre outros prazeres, dói. A sensação é essa, sim. De fuga. 'De quebradinha', da esquina do muro, kkkkk.

Marcos,

Seus comentários são os melhores! Sempre imprevisíveis. As vezes, lancinantes, noutras, uma naturalidade sarcástica, algumas vezes uma inteligência sóbria... "Minha avó, ai que raiva...".Engraçado...Mas vou ter que concordar com ela. Vc é quase um predicado do elogio, sim, rs.

Sandro,

Vc é mais uma surpresa linda desse mundo, aqui. Estou tendo um prazer enorme em pagar minha língua sobre virtualidades e tecnologias.

Bel,

Sabe que foi uma dificuldade sem tamanho receber seus afagos e carinhos, no começo? Vc é intensa demais e isso me exigiu uma exposição e uma explicitação dos meus sentimentos que eu nunca imaginei conseguir. É, principalmente, por sua causa que hj sou uma pessoa mais amena, amorosa... Por sua causa, não tenho mais uma vergonha descabida em mostrar, falar sobre o amor, ilusões, desilusões, esperanças inocentes, mesmo que falando de um jeito mais vulgar e menos flutuante. Sua doçura é contagiosa!

Veleu galera!

Elga Arantes disse...

Ah! Mais uma coisa: desculpem pelos erros. De concordância e tal... Postei o texto sem revisão, mas já estou fazendo isso, aos poucos.

Bj.

Bel disse...

Linda!!!!

... vou guardar umas das minhas lágrimas ao te ler (especialmente hoje)... vou congelá-la pra te oferecer quando a gente se encontrar. Só assim irás perceber o que me ofereces, o que me despertas ... o que há pra ti em mim ... o que há de ti em mim.
Tu és minha Adorável.

Beijos, muitos.

Sininho.

Mulher Vã disse...

Hahahaha

Soubesse não tinha te elogiado no post anterior [é que vou lendo de tras pra frente, tipo carangueijo].
Brincadeiras à parte, voce tem talento até quando dizer que não tem palavras. E isso nem é elogio, é constatação! Hunf!

Essa parte: "(...)evo ser uma mistura do que desejo ser, mais o que desejo que os outros achem que sou, misturado ao que eu desejo que os outros queiram que eu seja (?), com uma pitada da vontade de saber quem eu sou(...)", me traduziu desconcertantemente.

Beijo

Vã.