quarta-feira, 26 de agosto de 2009

"Alegoria: Nota 10!!!!!!!!!!!"

Além dos brincos e anéis, um relógio dourado. Swatch. Seiscentos reais. Camiseta branca básica e calça caqui de brim comprada na Siberian. Bota marron da Schultz e, para acompanhar, uma bolsa enorme da Loui Vuitton. Batom rosa fosco da MAC. Angel borrifado atrás das orelhas, nos punhos e nos cabelos tratados com cremes que vem em potes de duzentos gramas e custam oitenta reais, em média. Quando entrou na importadora, foi prontamente atendida pela vendedora sorridente. Saiu de lá com o creme Victoria's Secret de melão. Esse ainda não tinha experimentado.

No banheiro, em frente ao espelho, enquanto engrossava a camada de tinta preta que delineava as pálpebras, reparou na mulher ao lado que usava fio dental. Agora que esta escovava os dentes, ela fingia retocar as maças do rosto, ao mesmo tempo em que acompanhava os movimentos da moça. Quando se sentiu observada, Ana olhou para o lado e, ainda com a boca cheia de espuma, emitiu um “hã” entusiasmado; uma interjeição meio que imperativa que poderia ser traduzida por “ Espere, quero falar com você”. Cuspiu e enxaguou a boca, rapidamente, enxugou as mãos e os lábios com papel toalha, enquanto se virava para a outra entre sorrisos e exclamava: “Não acredito. Nanda!”.

Fernanda, ainda sem saber se aquilo era bom ou ruim, mentiu, simulando uma alegria exagerada: “Estava na dúvida se era mesmo você...”. As duas se abraçaram demoradamente e saíram do reservado, lado a lado.

- Não acredito! Você está com pressa?
- Mais ou menos...
- Dá tempo de fazer um lanche na praça de alimentação?
- Acho que sim, se for rapidinho.
- Me conta, o que anda fazendo? Você está bonitona, menina! Moço, me dá uma brotinho de mussarela e um guaraná. E você, vai querer o que?
- Só um suco. Eu tô aí, trabalhando na mesma agência, só que agora efetivada, voltando a estudar... E você?
- Ih, minha filha, pelo jeito, não dei a mesma sorte que você, não. Estou aqui ralando que nem escrava, ganhando uma merreca. Vendedora. Não arrumei nada na área. Ah! Quer saber? Dando pra desfilar no carnaval, defendendo minha escola, tudo certo. Deixa que pago o suco. Vem... vamos sentar aqui. Mas você está diferente! Quem te viu, quem te vê... Tá chique mesmo!
-Que nada! Continuo a mesma coisa. Só que agora tenho que sustentar meus próprios vícios, que só vem aumentando – e riu, orgulhosa de si mesma.

A conversa não durou meia hora. Algumas lembranças desconexas, risos hesitantes, meias confissões, omissões completas e um abraço aliviado, já na saída do shopping.

Enquanto esperava o ônibus passar, Fernanda pensava em como algumas pessoas são pobres de espírito. Desde a época da faculdade, Ana gastava toda economia feita no ano com uma fantasia de carnaval. Vivia filando o lanche dos colegas e deixava de tirar os xerox pedidos pelos professores. Não era destaque, nem rainha da bateria, mas se dizia plena enquanto desfilava seu entusiasmo pela avenida da cidade. Será que ela não percebia que era, apenas, mais uma? Um número qualquer, em meio a tantos outros? Se privava de muito, durante todo o ano, para ser um personagem por dois dias; se fantasiar do que não era, do que nunca poderia ser. Ou pior, em alguns anos, representava ela mesma e seus iguais, em meio a plumas, lantejoulas e purpurinas que tentavam disfarçar sua nada gloriosa trajetória.

Conseguiu um lugar para se sentar, no ônibus lotado. Sempre teve muita sorte. Enquanto tirava da bolsa a fatura do cartão de crédito, não pode ver que a motorista do Uno que deixava o ônibus para trás era Ana. Fez as contas e concluiu que, mais uma vez, teria que pagar apenas o valor mínimo. Ainda assim, faltaria dinheiro para as despesas do quarto e sala alugado num bairro próximo da zona sul da cidade.

Já em casa, depois do banho, deixou-se cair nos lençóis puídos da cama de sucupira. Deu uma folheada na revista dos famosos que ela assinava, quando lembrou-se de levar para fora o lixo da casa. Algumas embalagens de macarrão instantâneo e algodões ainda úmidos e sujos de maquiagem. A caixa vazia do creme importado a fez lembrar de acrescentar a primeira parcela à sua lista de contas a pagar. Deixou para colocar o lixo lá fora mais tarde, quando o síndico, provavelmente, já estivesse dormindo e não viria atrás dela para lhe cobrar o condomínio do mês. Apagou todas as luzes da casa, colocou o relógio de grife para despertar a uma hora nada glamorosa da manhã e dormiu cheirando a perfume importado e dívidas.


Tirinha de Galvão, em www.vidabesta.com.br

Por Elga Arantes, 2009.

24 comentários:

Cadinho RoCo disse...

São muitos os contrastes da vida.
Cadinho RoCo

Thaís Gomes disse...

E mais contrastantes ainda são os valores!

Sheyla disse...

Elga,
Achei seu texto tão real, mas tão real, que chega a doer, sabe?
Dói por vários motivos.
Primeiro, porque creio que todos, em algum momento de nossa existência, já passamos por um encontro com algum conhecido dos tempos do colégio e nos vimos, assim, desconsertados?
E tem a questão dos valores de cada um, né?
Bjs.

Henry McIllan disse...

Retribuindo a visita, e o lisonjeio...

"deixou-se cair nos lençóis puídos da cama de sucupira. Deu uma folheada na revista dos famosos que ela assinava..."

Boa escrita é medida pelo esmero com os detalhes. Adoro isso. Parabens, moça. Apareça mais...;-)

sblogonoff café disse...

Esse é um dos textos das aulas de interpretação de texto, sabe?!
Quando eu comecei a ler a tragetória de nanda, pensei: Pôxa, como essas coisas conseguem completar a pessoa?! Eu nunca digo, mas eu vou aos becos do mundo, vejo a miséria, as dificuldades e o pior que pode haver em uma sociedade. Vendo essas coisas, sinto culpa de desperdiçar arroz. Sabe aquele arroz que cai enquanto a gente lava?! Então! E a Nanda lá com sua bolsa da Loui Vuitton...
Aí depois vem a Ana. (...)
De quem é realmente a alegoria?!
Porque a gente vende a alma ao diabo assim?
O que nos move?

Márcia, o seu texto dá um papo pruma noite inteira! Por essas e outras que eu te adoro!!

Sopro de Eves!

Anônimo disse...

Elga,

vc tem a sensibilidade de fazer a gente refletir sobre assuntos tão delicados de uma forma elementar: se deliciando com uma leitura leve, cotidiana, mas que trás nuances de mobilização do espírito.

E eu, na minha admiração, faço uma pergunta parecida com a da sua leitora aí de cima:

"Quem teve maior nota no quesito alegoria? Fernanda ou Ana?"

Parabéns pelo talento.

Prado

Cadinho RoCo disse...

Já de volta.
Cadinho RoCo

Evandro Varella disse...

Que belos escritos!
Estou te seguindo, posso?
Abração.

Karen disse...

Conheço tantas pessoas assim, que nem imagina! De várias épocas, e sempre penso isso. Que coisa vazia e triste.
Pessoas reais.

saudade.
bjs

odith adikusuma disse...

Hi Elga, thank you for your comment. Sorry my spanish is not good enough to understand what is written in your blog. Happy blogging..

best regards from Indonesia
OA

odith adikusuma disse...

Ok... Sorry and thank you for your correction..

OA

Eduardo Lara Resende disse...

Verdadeiro e triste - o fato. Muito bom, o texto. Vou seguir V. também.
Abraço

Natália disse...

É um problema sério de personalidade. É o famoso vazio. É a cosutmeira ânsia mal curada. É o desejo incessante de ser algo que não foi, não é e nunca poderá ser.

É a queda por aqueles que rejeitaram, que fecharam os olhos.

É triste e mal amado.

Adorei!

Beijos

Elga Arantes disse...

Oi gente!

Obrigada pelas visitas, pelos comentários, pelos pontos de vista. Sei que, às vezes, não consigo respondê-los, mas a vontade era de estar aqui muitas vezes mais, mas, todavia, contudo (rs)... o tempo!!! Sempre ele...

Aos amigos e antigos (aqui em BH tem um boteco com esse nome, rs), e aos novos, meu muito obrigado. Afinal, é muito melhor 'falar' quando tem alguém 'ouvindo'.

Beijos

Ps: Natália, é uma pena que vc não tenha perfil, aqui inserido, para saber mais de vc... Assim, espero que volte outras vezes.

sandro caldas disse...

Oi, Elgo. Muito obrigado pela sua visita. Achei vc uma pessoa muito inteligente.
Bom, caso vc não volte aos comentários da entrevista com Malu Fontes, lhe digo: eu escrevo todos os textos e com algumas exceções, convido outras pessoas para escrever para o Vinil. Nestes casos, apesar do meu nome aparecer como quem publicou o texot, eu cito quem escreveu.
Bjão e apareça sempre, sempre!!!
CONVITE: Vc quer escrever um texto especialmente para o Vinil? Ia adorar!

sandro caldas disse...

DESCULPA, NO COMENTÁRIO ANTERIOR ESCREVI "ELGO"! DESCULPA ELGA!!!

sandro caldas disse...

Mais um comentário bobo: vc parece que tem 20 aninhos! Bjão!

Fabrício Romano disse...

Muito bom!

Elga Arantes disse...

Sandro,

Desculpe a gafe e parabéns pela entrevista, então, rsrsrs. Muito boa, mesmo.

Eu? Escrever para seu blog? Quanta honra. Não sei se poderia. Sobre o que seria? É que sou meio covarde. E vaidosa. Por vezes, deixei de tentar com medo de falhar. (como me custa essa franqueza, talvez, desnecessária e, certamente, prejudicial)...

Sobre eu parecer 20 aninhos, penso: pela foto, ou pelo texto? Tomara que pela foto... rs!

Obrigada pela visita, de verdade. Gosto muito da 'sua casa'. E das coisas que leio lá.

***

Fabrício,

Isso, pra mim, é um afago no ego; um elogio desmedido, vindo de você. Obrigada e volte sempre que quiser. E puder. Ou os dois juntos.

Um beijo.

Airton Leitão disse...

Tenho um irmão que é doutor em Literatura Portuguesa. Vou copiar teu texto e mandar para ele ler.
De minha parte, parabéns.
No mais, muito obrigado pela visita ao meu blog, que nada tem de boa literatura, onde apenas dou bronca nos políticos.

Bruno disse...

É um mundo muito atraente, muito bonito, muito legal, muito cheiroso, mas muito vazio.

Gostei muito da sensibilidade, da leveza, dos detalhes... virei leitor!

Um beijo e obrigado pela visita

Bel disse...

... Adorável,

Saudades alargadas de ti. Ainda estou fora de casa, da minha Curitiba, e , de certa forma de mim. Mas ... vim te ver pra poder me ver também. Como esse nosso mundo me faz falta. Sinto-me acarinhada quando estou mais presente nele. Quando nos vejo nele.
Querida ... esse teu texto muito me tocou. Sempre ... fico pensando se as molduras realmente enfeitam qualquer obra. Fico pensando o que seriam das verdadeiras obras de arte sem as molduras. Fico pensando que meus poucos quadros ainda não são emoldurados porque os preços são elevados demais. Prioridades? Mas como saberei se a beleza poderia se ampliar naquelas telas sem moldura? Ainda valorizo algumas embalagens... em mim e fora de mim. Ainda me aprisiono pela primeira impressão da aparência. Ainda acho que a beleza mobiliza o mundo todo. Assim como acho que tu me mobilizas pela beleza reluzente. Tanto protetor solar há em mim ... tanto pó de arroz e base. Mas, ainda há ... também uma insisitente vontade de mergulhar cada vez mais fundo e dentro. Ainda há a vontade de gastar menos algodão.
Há tempo pra tudo ... há tempo pra nós.
Lindo esse teu texto ... bem redigido. Uma poesia concreta ... diria.
Um grande beijo,
Bel.

Elga Arantes disse...

Nossa, saudades, bel, querida!!! Volte, volte...

Bruno, bom que apareceu. Nos encontraremos sempre, por aqui, ou por lá.

Airton, gosto muito do caráter do seu blog, da proposta. Sobre mandar o texto para seu irmão, puxa vida, fico até encabulada. Meu sonho é viver de literatura. Ou, pelo menos, viver mais a literatura. Lendo, escrevendo, evoluindo...De qualquer forma obrigada pelo elogio. Todo undo gosta.

Mulher Vã disse...

Ihhh! Tem um tantão de Fernanda por aí nesse mundão de deus. Por outro lado, atire a primeira pedra quem nunca passou por um momento de futilidade!

Aff que droga! As vezes não tenho grana nem pra xeróx das apostilas... =(

Smacks!