sexta-feira, 28 de novembro de 2008

"Pra sinalizar o estar de cada coisa."

As Duas Fridas, de Frida Kahlo (1939)

“Então chega o dia em que você abre a porta e sente um cheiro estranho. Vem aqueles sentimentos que esquecemos no fundo e agora se rebelaram em forma de mofo, contaminando as roupas limpas que haviam por cima, algumas até com cheirinho de amaciante.”
Michele Cohen (Sblogonoff)


- Posso abrir essa maionese, ou você comprou para alguma receita, em especial?
- Não... Pode comer à vontade.

Esse mesmo diálogo poderia parafrasear, de maneira simbólica, tanto a ficção (primeira intenção, ao começar esse texto), quanto uma tentativa de expurgo. Até que, lendo a reflexão do senhor dos “Meus anos incríveis”, percebi se tratar de reles entaramelação. (Palavra engraçada, né? Aprendi hoje!). Dizia ele que "Na ficção, os erros dos personagens são sempre culpa nossa. E algumas vezes, é melhor mesmo a culpa ser nossa, porque daí colocamos em quem a gente quiser. Se a culpa é dos outros, só resta sentar e chorar.". E eu, que não intento mais cruzar os braços e fugir das responsabilidades, decidi assumir as minhas.

Pensando nesse comprometimento, encontrei, entre as “Coisas da Bel”, algo que me alertou de forma sutil e discreta sobre a altivez de não responsabilizar o outro por nossas próprias atitudes; sejam elas corretas, ou nem tanto.

Assim, registro, aqui, um quase relatório terapêutico. Auto-análise? Nem tanto; nem Freud; “nem morta!”. Automedicação, talvez.

Certo é que, primeiro, senti-me injustiçada pelo mundo. Depois, critiquei a pouca compreensão das pessoas mais próximas. E, por fim, lancei mão da minha insatisfação usando-a como instrumento para uma tentativa frustrada de legitimação do meu mau-humor e da pouca gentileza que tenho tido com minha própria mãe. Minha genitora, minha companheira. Quantas reencarnações tornar-se-ão necessárias para expiar nossas diferenças, apesar da existência de tanto amor desmedido? Muitas menos, não fosse minha pouca ou nenhuma vigilância.

A providência, através de advertências intermediadas por pessoas tão íntimas como minha irmã terrena, além de me sugerir pequenas delicadezas, conseguiu me atentar para a necessidade de aprimorar o tratamento oferecido a quem me oportunizou a jornada maior.

Disseram-me, certa vez e de forma indireta, como que em “PalavrAvulsa”, que a “elaboração do dilema já dá certo alívio”. Sinto na pele, essa verdade. Aguardo, então, o progresso evolutivo do consolo à plenitude. Claro, com muito trabalho e resignação.

Minha mãe, a verdadeira mulher guerreira de sessenta anos de idade, que trabalha de sol a sol “batendo volante” (sem direção hidráulica ou ar condicionado); que enfrenta a reposição hormonal compulsória pelo início da osteoporose e mesmo assim sobe e desce escada e escala rampa o dia todo, e que ainda faz questão de divertir a neta; que chega em casa com o coração exaltado e as pernas bambas, lembrou-se de passar na padaria e trazer um vidro de maionese só porque eu gosto.

Obs.:
1) Karen, sempre me lembro de você falar da sua mãe, da sua história tão peculiar com ela e de como a relação de vocês mudou, depois da Valentina!
2) Ainda me perguntam porque gosto tanto desse “Reino” e das pessoas que nele habitam.
3) Minha mãe ODEIA maionese.

Por Elga Arantes, 2008.

 Adriana Calcanhotto - Esquadros

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Remissão e Castigo (a ordem dos fatores altera o resultado)

Sempre que brincava de “um homem prá chamar de seu”, os pensamentos dela se desvairavam, e suas idéias inexatas fluíam até chegarem a um estado de suspensão. Levitavam. E assim, sem saírem do lugar, acompanhavam a rítmica corporal daquele instante, indescritivelmente solitário e lancinante.

Fora criada para sentir culpa pela prática infame e profana, mas o que a inquietava o espírito era sua imaginação que, por vezes, parecia ir contra os objetivos tão bem traçados para os próximos passos de sua jornada. De imediato, ela se enchia de uma coragem irreverente e, logo depois, desfrutava de um estranhamento de si mesma.

Depois de um tempo que ela não pode mensurar, sentiu sua bexiga cheia e, quando chegou ao banheiro, supôs que fora apenas uma sensação. Voltou para o vício insistente. Mais algum tempo transcorrido – e agora, ela podia se arriscar a julgar terem sido alguns minutos que não completavam uma hora – e, provando não ter sido apenas uma impressão, esvaziou sua bexiga, sofregamente.

Quando, na cama, esperou que sua pulsação se abrandasse e que seu coração não mais lhe passasse a impressão de marteladas no ouvido. Assim, pode se virar de lado e sorrir saciada, se ajeitando para uma noite de descanso recompensadora. Foi quando pode ouvir a respiração prolongada e cadenciada dele. Já havia se esquecido que dividia com ele, seu leito. Nem por isso, demorou a se lembrar que foi o egoísmo dele que a fizera ser "um homem pré chamar de seu", naquela noite.

Virou-se para o outro lado, abraçou-se ao travesseiro e dormiu.

Por Elga Arantes, 2008.


 Marina Lima - Mesmo que seja eu

sábado, 22 de novembro de 2008

Música incidental

(O texto é uma articulação de frases e a fusão de músicas de Nando Reis e Frejat. Ontem, fui ao show deles. Deu nisso... )

***

Acordou pensando no que já vivera e no que ainda queria viver:

“O que você está dizendo? Milhões de frases sem nenhuma cor”

Não digo que não me surpreendi. Antes que eu visse, você disse e eu não pude acreditar. Os anos se passaram, enquanto eu dormia. E quem eu queria bem me esquecia.

E agora, o que eu vou fazer se os seus lábios ainda estão molhando os lábios meus? E as lágrimas não secaram com o sol que fez? Seu rosto olhando pra mim não tem nenhum defeito. Eu sinto a sua falta e a falta é a morte da esperança.

Será que eu sei que você é mesmo tudo aquilo que me faltava? Você se parece com todo mundo. Foi quando a ficha caiu que então eu vi você diferente. Não quero mais a sua boa intenção, mas se você fosse um grande mal pra mim tudo agora doeria bem menos. Ou se eu nunca tivesse sido feliz...

Se eu pudesse, mudaria o mundo na televisão com um toque no controle remoto, aqui na minha mão. Esquece a nossa última briga, lembra o primeiro beijo. Eu sei que alguma coisa minha, em você ficou guardado. Sinais do corpo, eu sei ler nas nossas conversas demoradas. Mas há dias em que nada faz sentido e os sinais que me ligam ao mundo se desligam.

Eu trocaria a eternidade por essa noite. Mas só porque você me viu cair em contradição, dormindo em sua mão, não vai fazer a chuva passar, o mundo ficar no mesmo lugar. Dos cegos do castelo me despeço e vou. Sozinho no escuro, nesse túnel do tempo, sigo o sinal que me liga à corrente dos sentimentos onde se encontra a chave que me devolverá o sentido das palavras ou uma imagem familiar.

Eu queria jogar, mas perdi a aposta. A gente pensa que escolhe... Certeza é o chão de um imóvel. Prefiro as pernas que me movimentam... Esperei por tanto tempo e esse tempo agora acabou. “Nunca mais" parece triste; triste eu era, agora passou. Eu não quero mais mentir, usar espinhos que só causam dor. Eu tenho andado tão sozinho que eu nem sei no que acreditar. Que a paz que busco agora nem a dor vai me negar.

A vida é mesmo coisa muito frágil, uma bobagem, uma irrelevância, diante da eternidade do amor de quem se ama. Procuro um amor que seja bom pra mim. Vou procurar; eu vou até o fim. Amor do caviar, do pão com ovo; namoro num fusquinha ou num volvo.

Quando não se tem mais nada, não se perde nada (...) Pode ser o que se for, livre do temor. Quando se acabou com tudo, (...) já, então, agora dá para dar amor. Quando não tiver mais nada, (...) o seu coração acordará. Quando estiver com tudo,(...) sua consciência adormecerá.

É bom olhar pra trás e admirar a vida que soubemos fazer! Eu fiz o meu melhor. "O mundo é bão, sebastião!"

Você pode entender que eu não vou mais te ver, por enquanto. Sorria e saiba o que eu sei, eu te amo.

Depois, ligou o aparelho de som e ouviu a música:

“Depois de pensar um pouco
Ela viu que não havia mais motivo, nem razão
E pôde pordoá-lo.

É fácil culpar os outros,
Mas a vida não precisa de juízes.
A questão é sermos razoáveis.

E por isso voltou
Por que sempre o amou
mesmo levando a dor e aquela mágoa,
mas segurando a sua mão
Sentiu sorrir seu coração
e amou-o como nunca havia amado

Mas como começar de novo
Se a ferida que sangrou
Me acostumou a me sentir
Prejudicado?

É só você lavar o rosto
E deixar que a agua suja
Leve longe do seu corpo
Um infeliz passado

E por isso voltou
Pra quem sempre amou
mesmo levando a dor e aquela mágoa,

e viveram felizes
e para sempre
Eles estavam livres
Da perfeição que só fazia estragos”

Pensou mais um pouco:

"A minha gratidão é uma pessoa!”

(...)

Finalmente, decidiu:

Por pensar demais eu preferi não pensar demais.

Por Nando Reis e Frejat. Participação especial de Elga Arantes. (rs!)


sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Ainda no Reino de BLOZg

(POST RESPOSTA)


Então, um dia apareceu a Bruxa do Oeste para enfrentar a madrasta malvada da Branca de Neve...

Mentira! Nada disso...


Vou começar de novo:

Então, um dia apareceu a Bruxa do Oeste querendo detonar com o Reino de BLOZg. Dorotéia ficou preocupada. Estava tão feliz naquele lugar que nem pensava em ir-se embora (apesar de continuar procurando seu “Kansas” particular). A Bruxa chegou trazendo confusão, e os amigos que a menina havia feito por lá, também estavam sofrendo com sua feitiçaria.

Dorotéia quis achar uma solução para a situação ali instalada. Mas, qual seria? Na verdade, não sabia de quem se tratava. Não conseguia ver o seu rosto. Era nebuloso e a bruxa só andava de cabeça baixa. Talvez sua figura fosse tão horrenda que não tinha coragem de se expor. Ainda, pode ser que a beleza e alegria daquele reino lhe ofuscasse a vista e, por isso, não conseguia fitar o olhar.

Como não conseguia se aproximar da tal bruxa, e não tinha ainda desacreditado na possibilidade de que tudo fosse resolvido sem maiores embates, Dorotéia resolveu deixar em um bilhete, um recado para a Bruxa do Oeste:

Procure-me, pessoalmente, para conversármos. Essa é a minha maneira de não ser egoísta com você, nem de desprezá-la. Estou aguardando”.

Por Elga Arantes, 2008.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

"Daqui prá frente tudo vai ser diferente!"



No começo, foi tudo muito bom. Fiquei feliz com sua chegada. Ele era uma novidade para mim. Desde então, seguiu comigo acompanhando outras conquistas.

Com o passar dos anos, apesar de importante, ele deixou, naturalmente, de ser novidade. Já fazia parte do meu cotidiano. Não era mais tão interessante. Comecei a desprezá-lo. Primeiro, involuntariamente, depois, quando comecei a me sentir vigiada e cobrada por ele, fui o desconsiderando, propositalmente.

Mais recentemente, consegui enxergar minha culpa na nossa relação. Eu deixei que a situação chegasse a esse ponto. Nada foi imposto. Eu o desejei e acreditei que ele era essencial em minha vida. Resolvi pelo relacionamento constante e, em todos esses anos juntos, nunca pensei em dele abrir mão.

Por tudo isso, agora que percebo a influência dele sobre mim, penso que é hora de rever minhas atitudes em relação a nós dois. Hoje, percebo que, tratá-lo de forma displicente tem atrapalhado muito minha relação com as pessoas ao meu redor. Elas percebem, comentam, criticam minha forma de agir com ele. Julgam que meu comportamento é desrespeitoso.

Já me alertaram que não sou obrigada a estar com ele em todos os momentos, mas que devo assumir que se ele existe em minha vida, por escolha minha, isso exige de mim determinado tipo de comportamento, no mínimo, de bom convívio social; para não falar em consideração. Sugeriram-me, também, que a maneira com que me relaciono com ele, diz muito sobre mim e sobre minha forma de me relacionar com os outros.

Nas vezes em que me defendo, argumentando que não quero ser dele escrava, ouço que não preciso possuí-lo mas, que se assim decidi, é de bom tom que, pelo menos, retorne as ligações do meu "bendito" celular !!!

Por Elga Arantes, 2008.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

"Espelho, espelho meu..."

- ... mas toda criança assiste a contos-de-fadas.

- Conto de fadas? (risadas nervosas) Isso é que não é mesmo!

- É uma historinha infantil; só isso.

- Não é, não. Sabe o que é? É a história de uma mulher que dá um valor exagerado à b
eleza física. Uma pessoa inescrupulosa que não mede esforços para atingir seus objetivos, mesmo que isso signifique passar por cima de quem quer que seja. Seus interesses estão sempre em primeiro lugar; é egoísta. Manipuladora e tirana, trata as pessoas ao seu redor com soberba e desprezo. Com ela, não existe diálogo. Percebe-se isso quando o caçador faz menção de se recusar a prestar o serviço macabro ordenado por ela, que o ameaça de morte. Ela chegou a um grau de inveja tão extremado que exigiu que, após matar sua enteada, o caçador trouxesse seu coração em uma urna, como prova da concretização do serviço prestado. Além disso, a vítima, quando consegue refúgio na casa de alguns anões, mostra bem que o trabalho doméstico é a única contribuição que ela pode dar a eles. Em uma noite, revela, sonhadora, seu maior desejo: Um homem para casar! O final feliz da história se dá, então, exatamente quando seu príncipe encantado a salva da saga infeliz. E é, só por isso, que não quero que ela assista essa história. Ela não tem nem três anos de idade, ainda. Está agregando valores e constituindo sua personalidade.

- Então tá bom. Eu deixo ela ver, só hoje, depois não deixo mais. Ah... senão, ela não me deixa fazer as unhas em paz!

- Puxa vida! Você é pior que a madrasta malvada da Branca de Neve...
Por Elga Arantes, 2008.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Rosa vermelha e "Naldecon"

"Prazer inesperado; sucesso imprevisto".

É verdade. Eu não pude prever; muito menos esperar. E o prazer... Esse foi mesmo desmedido.

Hoje, sem metáforas, sem entrelinhas, sem personagens. Dei férias à Alice e remédio para dormir à Olívia.

Eu aguardava uma amiga para prestar-lhe um favor. Quem apareceu foi mais que um amigo me presenteando com uma flor. Uma só. Única, vermelha, sem espinhos. Exatamente como eu me senti naquele momento: Única, apaixonada e sem defesas.

Pode ser que seja o efeito do descongestionante.

Ah... Queria ficar gripada pelo menos uma vez por mês!




Por Elga Arantes, 2008.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Artigo V; Parágrafo IV (CF/88)

Eu digo sempre, quando alguém comenta ter lido " O Prometeu...", que escrever, para mim, é uma tentativa de expurgar as angústias que rolam de um lado para o outro em meu coração, sem conseguir dormir. Para insônia da agonia, a terapia da grafia. Afirmo ser uma forma de exorcizar cada novo fantasma que vem me assombrar, e que, também, é assim que me reinvento. E nessa de me recriar, desenho pessoas, coloro sentimentos, imagino situações. Algumas vezes, chego ao ponto de criar meus próprios Frankensteins reunindo, em uma única pessoa, o rosto de alguém, o coração de outro ninguém, numa "Terra do Nunca" onde o que vale é aquilo que eu acredito e desejo.

Defendi, em algum momento, coisa qualquer em que quis acreditar quando, na verdade, não havia formado, ainda, opinião alguma. Cheguei ao ponto de tomar como minhas verdades aquelas encontradas na internet, através do Google. E sabemos que, mesmo que o endereço eletrônico diga que foi certo Fulano quem fez determinada afirmação, esta pode ter sido produzida por um Beltrano qualquer, entre milhões, que não tinha mais o que fazer e resolveu testar o poder de proliferação de uma informação irresponsável. Então, formulo minha justificativa totalmente desprovida de autenticidade. Se foi mesmo o tal Fulaninho quem disse, ótimo! Terei respaldo. Se não for, lindo! Serei original. Está na moda ser diferente, ir contra a corrente, contestar o lugar comum.

Já me surpreendi, n’outras vezes, tentando enganar os outros para ver se cola... Em mim! É triste, mas já me peguei fazendo um auto-elogio. É arrogante, mesmo tendo sido de forma sutil. E, pensei “Quanta carência! Pobre coitada de mim...”. Primeiro, a auto-piedade. Mas como sou deveras imperfeita, assim como articulada, tento equilibrar essa minha atitude arriscadamente franca (posto que temo que os olhos que agora me vêem podem enxergar-me assim, como que mais fraca que menos franca) e elaboro esse texto forjadamente sincero.

No fim de tudo, rendo-me. Prá que? Se bem sei, no fundo, escrevo para mim mesma. E a resposta para minhas indagações já existe, por vezes, antes mesmo da elaboração e sistematização da problemática em questão. As reações e respostas que esperamos receber não são necessárias para formularmos a verdade que vai nos valer, acredito. As réplicas são importantes para legitimar nossos pensamentos ou nos fazer sentir que estamos à margem da sociedade do pensamento. Pode servir, também, para lapidar nosso discurso, civilizar as demonstrações de certeza ou para aprimorar nosso conceito sobre liberdade de expressão. Mas, dificilmente, as rasuras do pensamento afetarão a ortografia do coração.

Por Elga Arantes, 2008.


"QUEM TEM CONSCIÊNCIA PARA TER CORAGEM
QUEM TEM A FORÇA DE SABER QUE EXISTE
E NO CENTRO DA PRÓPRIA ENGRENAGEM
INVENTA A CONTRA-MOLA QUE RESISTE

QUEM NÃO VACILA MESMO DERROTADO
QUEM JÁ PERDIDO NUNCA DESESPERA
E ENVOLTO EM TEMPESTADE DECEPADO
ENTRE OS DENTES SEGURA A PRIMAVERA"

domingo, 9 de novembro de 2008

Para congelar o passado e adoçar o porvir.

Sorvete de creme com banana caramelada. Sorvete “azul” no potinho amarelo. Sorvete de pistache na casquinha. Manoela esteve empolgada por todo o dia anterior. No dia que se seguiria àquele, poderia se servir do sorvete que quisesse provar, da maneira que bem entendesse. Uma conquista para uma criança daquela idade. Mesmo que fosse, curiosamente, uma menina já com expressões faciais bem definidas por sinais. Eram quase rugas!

Preparou uma opção de roupa diferente para cada possibilidade de escolha que fizesse. Laço de fita verde no cabelo para combinar com as sapatilhas, mini-saia xadrez ou suspensório para enfeitar o top feito de fuxicos multicoloridos. Nessas últimas noites tão quentes, caberia perfeitamente a guloseima gelada que lhe esquentaria o corpo; pelo menos por algum tempo. Este, por sua vez, poderia se fantasiar de semanas, dias ou, apenas, instantes. E, nem por isso, não poderiam ser expressivos, importantes, quem sabe, inesquecíveis. Muitas princesas acostumam-se à fantasia - já cantou sabiamente seu compositor predileto. E, ela, em meio a tantas dúvidas, tinha quase certeza que o tempo nada mais era que uma fantasia em si.

Quando o dia seguinte chegou, não estava mais tão empolgada, apesar do dia estar mais quente que os últimos transcorridos. Pensou em cada sabor e já não tinha mais tanta vontade de tomar sorvete. Mas, como acreditava que o tempo gostava de pregar-lhe peças nada engraçadas, imaginou que a nostalgia, talvez, fosse o adereço usado por ele em sua fantasia de incredulidade. Tratou logo de racionalizar o desejo de tomar sorvete. Tomaria sorvete aquele dia, sim. Fosse o sabor que fosse.

Dessa forma, sem critério, enganando a libido, desprezando os pudores, só pode mesmo ser escolhida, ao invés de escolher. Tomou sorvete de creme na casquinha. Nem se lambuzando de calda de chocolate e mashmallow, saciou-se. O sorvete era doce, mas também era gelado e, ao contrário do que imaginou, não esquentou seu coração. E, ainda por cima, enrijeceu-lhe a face, paralisando seu sorriso.

Manoela não podia mais enganar sua vontade de comer uma lata de palmito sem dividir com ninguém.

Por Elga Arantes, 2008.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Os amigos que a gente não escolhe.

Ref.: "A Família", de Tarsíla do Amaral

Eram mais ou menos sessenta pessoas. Alguns não puderam comparecer (!). O cardápio era lombo de porco e feijão tropeiro servido em pratos descartáveis. O refrigerante, Del-Rey de uva. Difícil era equilibrar o mínimo de comida nos garfinhos de plástico. O prato, Oiapoque; a boca, Chuí. A distância do prato até a boca parecia mesmo enorme. Enquanto alguns comiam, um dos tios cortava com a faca elétrica barulhenta mais algumas lascas da carne. A mesa era enorme, feita de ardósia e ficava na pequena cozinha sem forro - o teto era baixo e de telha de amianto. A maioria comia mesmo de pé; por vezes caminhando.

O evento transcorria todo o tempo com música ambiente ouvida em todo o lote (era assim que se referiam a casa de dona Gilda) e suas adjacências. Violão, caixa de som, microfone e vozes... Muitas vozes! Todos cantavam. Mesmo quando estavam comendo. E também bebiam, todo o tempo, mesmo quando cantavam. Os gritos estridentes das crianças que corriam de um lado a outro faziam o backing vocal do espetáculo. E era mesmo espetacular! Quase cinematográfico.

Ainda ao som da voz esganiçada da tia Vera cantando “Que país é esse...”, alguém concorre com ela: “Ínha, ínha ínha, tá na hora da vaquinha!!”. Apartir daí, até o violão que acompanhava o cover de Renato Russo improvisa um jingle para a solicitação cantarolada por... quem é ele, mesmo??? A cunhada rica doa uma nota de dez reais e todos comemoram gritando, assoviando e aplaudindo a nobre atitude.

A neta que levara o novo namorado pensava que, talvez, não tivesse sido uma boa idéia o momento que escolhera. No fundo, ela se divertia com toda aquela algazarra. Sabia que o sorriso que ele esforçava para desenhar no rosto, quando era flagrado observando ao seu redor, era mesmo para disfarçar seu semblante de espanto. Ela, sarcástica como ninguém, retribuía o sorriso com um olhar irônico emoldurado por sobrancelhas arqueadas, como quem pergunta: “E, aí, Negão?! Vai encarar?”

A prima é minha, mas a família, não. Mas, não é que eu, quase, queria que fosse...

Por Elga Arantes, 2008.


quarta-feira, 5 de novembro de 2008

"O silêncio das estrelas" *


"Solidão, o silêncio das estrelas, a ilusão
Eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos
Como um deus e amanheço mortal

E assim, repetindo os mesmos erros, dói em mim
Ver que toda essa procura não tem fim
E o que é que eu procuro afinal

Um sinal, uma porta pro infinito irreal
O que não pode ser dito, afinal
Ser um homem em busca de mais
Afinal, como estrelas que brilham em paz

Solidão, o silêncio das estrelas, a ilusão
Eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos
Como um deus e amanheço mortal

Um sinal, uma porta pro infinito irreal
O que não pode ser dito, afinal
Ser um homem em busca de mais
Afinal, ser um homem em busca de mais"




*Música de Lenine e Dudu Falcão (Feita prá mim; tenho quase certeza, rs!)

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Nada demais...


Sem parar apenas um minuto vou correndo e voando todos os dias. Aquela música podia tocar mais vezes e eu podia conseguir novamente tomar conta da minha vida como já fiz durante os meus vinte e poucos anos.

Estou “na moral”, ficando vivo para variar. A relatividade se faz presente e atuante. Não posso questionar o fato de tudo passar tão rápido e por mais que eu acelere não estou preparado ao ponto de alcançar minha desejada segurança. Longe de qualquer depressão, olhando sempre para o horizonte, continuo sorrindo para as pequenas coisas e momentos e me deleitando no meu jeito de ser e agir. É claro que tudo pode melhorar, porém, sigo este caminho.

Saber o que se quer é enganar a si mesmo. Já sabemos tudo o queremos e justificamos nossas atitudes mesmo que insignificantes ou nada marcantes. A questão a ser respondidas é se vamos ter força para encarar as conseqüências. Isso sim...

No mais ou no menos acredito na força da fé. Acreditar é a palavra-chave.

Por Rodrigo Victor, 2008.

Obs: Rodrigo é um amigo muito especial que está em Curitiba, agora. Dia desses, escreveu esse texto e me mostrou. Senti como se fosse eu a escrever, tamanha a semelhança nas sensações daquele dia. Ele tem um blog que prefere manter em segredo, por enquanto.