“Então chega o dia em que você abre a porta e sente um cheiro estranho. Vem aqueles sentimentos que esquecemos no fundo e agora se rebelaram em forma de mofo, contaminando as roupas limpas que haviam por cima, algumas até com cheirinho de amaciante.”
Michele Cohen (Sblogonoff)
- Posso abrir essa maionese, ou você comprou para alguma receita, em especial?
- Não... Pode comer à vontade.
Esse mesmo diálogo poderia parafrasear, de maneira simbólica, tanto a ficção (primeira intenção, ao começar esse texto), quanto uma tentativa de expurgo. Até que, lendo a reflexão do senhor dos “Meus anos incríveis”, percebi se tratar de reles entaramelação. (Palavra engraçada, né? Aprendi hoje!). Dizia ele que "Na ficção, os erros dos personagens são sempre culpa nossa. E algumas vezes, é melhor mesmo a culpa ser nossa, porque daí colocamos em quem a gente quiser. Se a culpa é dos outros, só resta sentar e chorar.". E eu, que não intento mais cruzar os braços e fugir das responsabilidades, decidi assumir as minhas.
Pensando nesse comprometimento, encontrei, entre as “Coisas da Bel”, algo que me alertou de forma sutil e discreta sobre a altivez de não responsabilizar o outro por nossas próprias atitudes; sejam elas corretas, ou nem tanto.
Assim, registro, aqui, um quase relatório terapêutico. Auto-análise? Nem tanto; nem Freud; “nem morta!”. Automedicação, talvez.
Certo é que, primeiro, senti-me injustiçada pelo mundo. Depois, critiquei a pouca compreensão das pessoas mais próximas. E, por fim, lancei mão da minha insatisfação usando-a como instrumento para uma tentativa frustrada de legitimação do meu mau-humor e da pouca gentileza que tenho tido com minha própria mãe. Minha genitora, minha companheira. Quantas reencarnações tornar-se-ão necessárias para expiar nossas diferenças, apesar da existência de tanto amor desmedido? Muitas menos, não fosse minha pouca ou nenhuma vigilância.
A providência, através de advertências intermediadas por pessoas tão íntimas como minha irmã terrena, além de me sugerir pequenas delicadezas, conseguiu me atentar para a necessidade de aprimorar o tratamento oferecido a quem me oportunizou a jornada maior.
Disseram-me, certa vez e de forma indireta, como que em “PalavrAvulsa”, que a “elaboração do dilema já dá certo alívio”. Sinto na pele, essa verdade. Aguardo, então, o progresso evolutivo do consolo à plenitude. Claro, com muito trabalho e resignação.
Minha mãe, a verdadeira mulher guerreira de sessenta anos de idade, que trabalha de sol a sol “batendo volante” (sem direção hidráulica ou ar condicionado); que enfrenta a reposição hormonal compulsória pelo início da osteoporose e mesmo assim sobe e desce escada e escala rampa o dia todo, e que ainda faz questão de divertir a neta; que chega em casa com o coração exaltado e as pernas bambas, lembrou-se de passar na padaria e trazer um vidro de maionese só porque eu gosto.
Obs.:
1) Karen, sempre me lembro de você falar da sua mãe, da sua história tão peculiar com ela e de como a relação de vocês mudou, depois da Valentina!
2) Ainda me perguntam porque gosto tanto desse “Reino” e das pessoas que nele habitam.
3) Minha mãe ODEIA maionese.
Por Elga Arantes, 2008.
Adriana Calcanhotto - Esquadros









