- Você acha que nossa história tem trilha sonora?
- Claro que sim. Toda história de amor teve uma.
- Você se lembra qual é a nossa?
- Acho que foi aquela da Marisa Monte.
- Acha que foi!?
- Acho também que hoje cada um tem sua trilha para aquele momento que sobem os créditos, quando acaba um filme, sabe?
- É verdade... Eu escolheria aquela do Nando Reis, “Por Onde Andei”. E você?
- Esta, aqui:
"Olha só, que cara estranho que chegou
Parece não achar lugar
No corpo em que Deus lhe encarnou
Tropeça a cada quarteirão
Não mede a força que já tem
Exibe à frente o coração
Que não divide com ninguém
Tem tudo sempre às suas mãos
Mas leva a cruz um pouco além
Talhando feito um artesão
A imagem de um rapaz de bem
Olha ali quem tá pedindo aprovação
Não sabe nem pra onde ir
Se alguém não aponta a direção
Periga nunca se encontrar
Será que ele vai perceber
Que foge sempre do lugar
Deixando o ódio se esconder
Talvez se nunca mais tentar
Viver o cara da TV
Que vence a briga sem suar
E ganha aplausos sem querer
Faz parte desse jogo
Dizer ao mundo todo
Que só conhece o seu quinhão ruim
É simples desse jeito
Quando se encolhe o peito
E finge não haver competição
É a solução de quem não quer
Perder aquilo que já tem
E fecha a mão pro que há de vir"
Quando a música já havia parado de tocar, ele também tinha parado de fazer perguntas. Só não conseguiu parar de chorar. E ela, pediu que ele parasse o carro, fingindo não perceber que chovia lá fora e que, dentro do carro, a chuva já se tornara tempestade.
Isto, era "presente mais-que- perfeito do indicativo de nada". Aquilo, era "o particípio do passado".
Por Elga Arantes, 2008.
