
Ainda bem. Não fosse por ela, que engana a inteligência, assim como o faz com os sentidos, tantos de nós, padeceríamos ao primeiro fracasso; ou tropeço, para os menos resilientes * (penso mesmo que quanto menos resiliente, mais iludido o sujeito deveria ser, ou provavelmente é). Não poderia apostar ser uma prova da misericórdia divina ou uma característica adquirida segundo as leis de seleção natural de Darwin. Não há provas científicas, embora também não acredite nelas cegamente, já que, mesmo essas, equivocam-se na interpretação de um fato ou são, por vezes, efêmeras.
Ainda bem. A ciência é produzida por nós, seres humanos. Auto-designados seres falíveis. E até nisso, encontramos evidências de nossa sagacidade. Idolatramos, repetindo para nós mesmos e para os outros o chavão “Errar é humano”, filosofando, sofisticamente, sobre a beleza e sapiência de tal preceito emanado da soberania de nossa raça e, portanto, legitimado. Justifica nossos erros, conforta nossa dor e embaça nossa culpa. Também, pura ilusão.
Ainda bem. Se não fosse assim, não seguiríamos em frente. Desistiríamos, frustrando as concatenações possíveis entre histórias de pessoas diversas. Espoliaríamos o direito do outro de acumular novas experiências para velhos fatos, apresentando mais uma possibilidade para o mundo ao redor. Ao contrário, permitimo-nos deixar os olhos físicos fechados, anulando a possibilidade de uma sinapse nervosa, quando da articulação racional das idéias, e nos deixamos guiar pelas órbitas caprichosas da alma ou por algum instinto de defesa enternecido. Genuinamente humano, tais artifícios.
Ainda bem. Somos artistas. Artistas por natureza? Talvez. Talentosamente, conseguimos, por vezes, produzir nossa própria impressão da realidade.
Ainda bem. Assim, já que a arte imita a vida e a vida imita a arte, nossa vida poderá, por vezes, imitar a arte criada por nós mesmos.
* A denominação fracasso pode provocar danos irreversíveis a quem possui pouca ou nenhuma “elasticidade”. Uma dose mínima de energia é capaz de deformar certos corpos, mesmo os “etéreos”.
Por Elga Arantes, 2008.






