Depois de mais de dez anos, porém, ela ainda conseguia se recordar bem daquele acidente. Com menos freqüência, mas com todos os detalhes que seu cérebro havia deixado passar despercebido. Logo após o atropelamento, se lembrava apenas de algumas cenas desordenadas e bruscamente interrompidas. Assim, como nos recursos usados pelo cinema para representar as lembranças de seus personagens, causando sensações de impacto aos seus expectadores. Momentos vividos como que em “flashes”.
O primeiro, parecia mais um daqueles sonhos que a gente tem, sabendo se estar sonhando. Ela abriu os olhos. Cada etapa que se sucedeu a essa deve ter ocorrido em menos de alguns segundos, ou mesmo em milésimos destes. Mesmo assim, podia descrever o processo e os caminhos de seus pensamentos naqueles instantes. Olhou ao seu redor. Hospital. Ela sabia ter sofrido um acidente, pois quando forçava a memória vinha-lhe à mente a imagem de dois grandes faróis redondos quase que a lhe roçar o nariz. Do jeito que era preocupada, sua mãe, poderia querer proibí-la de ir à festa de formatura por conta daquela bobagem. Assim, num ímpeto, tentou levantar-se da cama. Como não obteve sucesso na empreitada, tentou entender o porquê do fracasso. “Não sinto minhas pernas”, desesperou-se. Descontroladamente, tentou movimentar os quadris. Sabia que paraplégicos não tinham autonomia do próprio corpo da cintura para baixo. Nada! Então, sentiu como se seu estômago tivesse levado um soco. Depois veio a sensação de que uma mão esculpida no gelo rompera seu abdômen e apertava com força seus órgãos internos e rapidamente soltava, deixando ali, apenas algumas mariposas. Depois disso, sentiu como se o coração lhe viesse à boca, e só sabia ser aquilo apenas uma sensação porque conseguiu berrar pavorosamente, chamando pelo pai.
Ah, aquela expressão ela nunca mais pôde esquecer – apesar de ser quase insuportável, sua lembrança. Era uma mistura de compaixão e ternura. E como conseqüência de seu desequilíbrio emocional, ele simplesmente respondeu “Não sei” quando perguntado se ela não andaria mais.
Ali, se rendeu pela primeira vez. Quando outra vez acordou, já estava em outro lugar. As vozes exaltadas, os gemidos de dor e todo o tumulto daquele corredor de hospital deixavam-na confusa. O frio descomunal que sentia em cima daquela maca estreita a fizera ter medo. Mas, não. Era física demais a dor provocada por aquela agulha em sua medula. Era bem material o líquido que lhe invadia, causando a sensação de estar lhe queimando. Aquele outro lugar ainda não era o outro plano. Ainda bem, aliviou-se. “Onde estariam todos?”.
Rendeu-se de novo, mas, antes, ainda pôde ouvir o som contínuo e incômodo da sirene da ambulância a levando para algum outro lugar. “Onde estão todos? Porque estava ali sozinha?”. Mal sabia que além de uma carreata que acompanhava incansavelmente os caminhos feitos por ela pela cidade, boas energias, provindas de orações, bons pensamentos e fé, também a cercavam.
Depois disso, só despertou quatro dias depois. Olhos curiosos e vestimentas brancas a observavam e faziam perguntas que a confundia. Ela respondia o que não queria, sabendo ser outra a resposta que deveria dar. Queria o que não conseguia dizer. Estranhava tudo. Principalmente aqueles olhares de surpresa. É que ela ainda ignorava muitos detalhes que sua consciência a impedira de conhecer por si só.
Só mais tarde lhe contariam das dores alheias, do coma, da quase morte, das hastes que a acompanhariam anos a fio, das cirurgias, dos sonhos que teria que deixar para mais tarde, dos outros que deixaria para sempre. Ela só tinha 18 anos e tantos, tantos planos... Agora teria que abandoná-los para cuidar de assuntos mais urgentes. O principal deles era reaprender a andar, mas, claro, somente quando os ossos de sua bacia estivessem colados novamente.
Ainda, antes disso, haveria visitas, muitas visitas, comadre (e não era a mãe de nenhum afilhado), pedaço de carpete para "encerar o chão", revistas trazidas por um amigo, livros, banho de gato, “Samia, bate a porta com força!”, tirar os pontos sem autorização médica, CAT, perguntas sobre uma tal luz e amor. Muito amor!
Mais tarde, ela apenas admiraria como era incomensurável a superioridade do espírito sobre a matéria. Ninguém conseguira fazer por sua mente o que esta fizera pelo seu corpo. Nada, nem ninguém, conseguiria fazê-la esquecer de dores igualmente fortes àquelas do corpo - talvez - e que lhe renderiam marcas no espírito, cicatrizes na alma. Com essas lembranças, ela teria que conviver. Mas isso é uma outra história triste. De muito aprendizado, mas triste.
Ela voltou a andar... e como andou! Ela foi longe...



























Já havia me dado conta. Mas hoje preciso que todos vocês saibam. Estou uma viciada. Sim, vários vícios. Claro, todos os temos, sejam biológicos, psicossomáticos, simbólicos ou todos juntos. Mas agora, falo daquele que me toma de forma mais agressiva e, por isso mesmo, tão incômoda. Começou amenizando outro vício simbólico que somatizou e agora é biologicamente evidente.



