quarta-feira, 30 de julho de 2008

"E eu (não) vou esquecer de tudo; das dores do mundo..."

“Não suportaríamos lembrar de algumas dores”. Foi com essa frase que o médico fechou a explicação para a pergunta feita a ele pela paciente. Ela não entendia porque não sentira nenhuma dor no momento do acidente que sofrera. Dr. Garrido, então, a esclarecia que o corpo humano era algo tão perfeito que bloqueara suas lembranças para as dores insuportáveis. Dizia ele que ela havia, sim, sentido muitas dores, tantas e tão fortes, que seu cérebro tratou logo de impedir a memorização delas.

Depois de mais de dez anos, porém, ela ainda conseguia se recordar bem daquele acidente. Com menos freqüência, mas com todos os detalhes que seu cérebro havia deixado passar despercebido. Logo após o atropelamento, se lembrava apenas de algumas cenas desordenadas e bruscamente interrompidas. Assim, como nos recursos usados pelo cinema para representar as lembranças de seus personagens, causando sensações de impacto aos seus expectadores. Momentos vividos como que em “flashes”.

O primeiro, parecia mais um daqueles sonhos que a gente tem, sabendo se estar sonhando. Ela abriu os olhos. Cada etapa que se sucedeu a essa deve ter ocorrido em menos de alguns segundos, ou mesmo em milésimos destes. Mesmo assim, podia descrever o processo e os caminhos de seus pensamentos naqueles instantes. Olhou ao seu redor. Hospital. Ela sabia ter sofrido um acidente, pois quando forçava a memória vinha-lhe à mente a imagem de dois grandes faróis redondos quase que a lhe roçar o nariz. Do jeito que era preocupada, sua mãe, poderia querer proibí-la de ir à festa de formatura por conta daquela bobagem. Assim, num ímpeto, tentou levantar-se da cama. Como não obteve sucesso na empreitada, tentou entender o porquê do fracasso. “Não sinto minhas pernas”, desesperou-se. Descontroladamente, tentou movimentar os quadris. Sabia que paraplégicos não tinham autonomia do próprio corpo da cintura para baixo. Nada! Então, sentiu como se seu estômago tivesse levado um soco. Depois veio a sensação de que uma mão esculpida no gelo rompera seu abdômen e apertava com força seus órgãos internos e rapidamente soltava, deixando ali, apenas algumas mariposas. Depois disso, sentiu como se o coração lhe viesse à boca, e só sabia ser aquilo apenas uma sensação porque conseguiu berrar pavorosamente, chamando pelo pai.

Ah, aquela expressão ela nunca mais pôde esquecer – apesar de ser quase insuportável, sua lembrança. Era uma mistura de compaixão e ternura. E como conseqüência de seu desequilíbrio emocional, ele simplesmente respondeu “Não sei” quando perguntado se ela não andaria mais.

Ali, se rendeu pela primeira vez. Quando outra vez acordou, já estava em outro lugar. As vozes exaltadas, os gemidos de dor e todo o tumulto daquele corredor de hospital deixavam-na confusa. O frio descomunal que sentia em cima daquela maca estreita a fizera ter medo. Mas, não. Era física demais a dor provocada por aquela agulha em sua medula. Era bem material o líquido que lhe invadia, causando a sensação de estar lhe queimando. Aquele outro lugar ainda não era o outro plano. Ainda bem, aliviou-se. “Onde estariam todos?”.

Rendeu-se de novo, mas, antes, ainda pôde ouvir o som contínuo e incômodo da sirene da ambulância a levando para algum outro lugar. “Onde estão todos? Porque estava ali sozinha?”. Mal sabia que além de uma carreata que acompanhava incansavelmente os caminhos feitos por ela pela cidade, boas energias, provindas de orações, bons pensamentos e fé, também a cercavam.

Depois disso, só despertou quatro dias depois. Olhos curiosos e vestimentas brancas a observavam e faziam perguntas que a confundia. Ela respondia o que não queria, sabendo ser outra a resposta que deveria dar. Queria o que não conseguia dizer. Estranhava tudo. Principalmente aqueles olhares de surpresa. É que ela ainda ignorava muitos detalhes que sua consciência a impedira de conhecer por si só.

Só mais tarde lhe contariam das dores alheias, do coma, da quase morte, das hastes que a acompanhariam anos a fio, das cirurgias, dos sonhos que teria que deixar para mais tarde, dos outros que deixaria para sempre. Ela só tinha 18 anos e tantos, tantos planos... Agora teria que abandoná-los para cuidar de assuntos mais urgentes. O principal deles era reaprender a andar, mas, claro, somente quando os ossos de sua bacia estivessem colados novamente.

Ainda, antes disso, haveria visitas, muitas visitas, comadre (e não era a mãe de nenhum afilhado), pedaço de carpete para "encerar o chão", revistas trazidas por um amigo, livros, banho de gato, “Samia, bate a porta com força!”, tirar os pontos sem autorização médica, CAT, perguntas sobre uma tal luz e amor. Muito amor!

Mais tarde, ela apenas admiraria como era incomensurável a superioridade do espírito sobre a matéria. Ninguém conseguira fazer por sua mente o que esta fizera pelo seu corpo. Nada, nem ninguém, conseguiria fazê-la esquecer de dores igualmente fortes àquelas do corpo - talvez - e que lhe renderiam marcas no espírito, cicatrizes na alma. Com essas lembranças, ela teria que conviver. Mas isso é uma outra história triste. De muito aprendizado, mas triste.

Ela voltou a andar... e como andou! Ela foi longe...


Por Elga Arantes, 2008.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Char "les" brown - o biscate marron


Por falar em tradução ao pé da letra, ou melhor, das letras francesa e inglesa, bizarramente misturadas e traduzidas e, ainda, aproveitando minha total falta de critério para escrever o português, quero te desejar um feliz aniversário, homenageando você em meu divã eletrônico. Você que adora tratamento de choque vai adorar, creio.

Creio também que minha rebeldia para as letras, hoje, é providencial. O inusitado combina muito com você, querido amigo. Claro, algumas coisas em você não são nada surpreendentes como ser o cara que acha que tudo “tá bão demais”, mui amigo de todas as pessoas ao redor, além da interjeição irritantemente recorrente, “demorô!!!”. Amiguinho, preciso, mais uma vez, lembrá-lo que você faz hoje nem tantos, mas também, nem tão poucos aninhos. Para apagar todas as velinhas, haveria até mesmo quem gritasse “demorô!”. E isso não seria uma interjeição, mas uma constatação.

Por outro lado, como a sobriedade nunca fizera mesmo parte do vocabulário mais utilizado para se referir a você (nem no sentido denotativo, nem no figurado), tem a licença da coerência entre Práxis e Poiesis.

Seria injusto - e quem sou eu para falar de justiça ao maior advogado do diabo que já conheci? – deixar de escancarar minha gratidão e alegria em ser sua companheira de shows, botecos, sashimi, viagens, além de amiga para TODAS as horas. Até as seis da manhã no samba da madrugada, quando eu NÃO fui ao samba da madrugada, mas tudo bem. Devo a você, no mínimo, minha formatura no curso que realmente queria e meu preconceito ridículo não me deixava admitir, e algumas dezenas de horas de terapia.

Sua calma me irrita; sua resignação exacerbada me indigna; sua animação infinita me cansa; quando você toca sertanejo no violão (óh, "vida vazia"...) me deixa furiosa! Por outro lado, sua calma me traz o equilíbrio; sua resignação mostra que minha indignação é que é exacerbada e sua animação descansa minha infinda mudança de humor. E quando toca sertanejo no violão me deixa realmente furiosa!! A intenção, afinal, é essa, certo?

Mistura de sentimentos incongruentes e pensamento paradoxal, poderia mesmo ser confundido com Zeca Reis ou Nando Baleiro. Agora que cismou que quer casar, ou não, namorar, ou melhor, casar sem morar junto, ou seria dividir a mesma casa sem obrigações sentimentais, é que não dá para acompanhar seu raciocínio mesmo.

Finalmente, negão, o que desejo mesmo, é que lágrimas só brotem dos seus olhos quando você disputar comigo, e perder, claro, como sempre, quem come mais wasabi sem chorar.

Por Elga Arantes, 2008.

E como a gente sempre tem assunto:

Obs. n°1: Respondendo a sua carente pergunta do outro dia, as fotos estão aí.

Obs.n°2: Eu aí nem era gloss e rímel, ainda...

Obs.n°3: A recomendação para o dia de hoje é não beber demais. E não é por causa da lei seca, porque depois dela a gente só anda de taxi mesmo. É que
"O orifício circular corrugado, localizado na parte ínfero-lombar da região glútea de um indivíduo em alto grau etílico, deixa de estar em consonância com os ditames referentes ao direito individual de propriedade". Tradução: Cú de bêbado não tem dono. (Seu garoto quem ensinou essa prá mim, ironizando meu vocabulário nos textos. Olha que folgado!).

Que é isso, gente!?




Que isso, gente !?

Não é dor, não é amor, parece cansaço, mas não dá sono, parece tristeza, mas faço força pra chorar e não consigo!!!

Olho lá prá fora e vejo um dia lindo azul disputando com o brilho do sol o papel principal. Quão bobinhos esses dois! Um sem o outro não teria a mesma graça.

Assim como o sol que parece só bonito, mas inofensivo em dias que fingem invernar, percebo que, lá fora, as coisas fervem... e eu aqui dentro desse “sei-lá-o-quê” apertado. Tenho vontade de sair daqui, mas me falta disposição, como disse Drummond. Este, ficaria triste ao perceber meu "tô nem aí" de hoje para a escolha das palavras, coesão, ortografia prá esse texto. "Tô nem aí" total.

Parece que estou sofrendo, mas estou tão imprecisa que nem auto-piedade consigo sentir. E, cá pra nós, quando estamos sofrendo sempre sentimos peninha de nós mesmos, nem que seja bem pouquinho, fala a verdade? Ou é orgulho demais para admitir? Podia ser mesmo, assim algum sentimento estaria desfrutando plenamente desse “corpitchu” tão sedentário. Ou inerte? Os dois. Porque nem malhando o corpo estou. Devo estar achando que ainda tenho vinte aninhos, né?

E essa coisa de estética, agora? Que tem a ver com minhas inquietudes aqui? Adianta o quê? Não, gente!!! Acredito que estética é importante, sim. O belo, a arte, a diversidade estética é imprescindível para tornar a vida um pouco menos prova e expiação...

É. Então, vai ver que tem a ver. “Tudo está em tudo”, é sábia, a dona daquele café... blog on, blog off... hora bem, hora mal, hora licença poética, hora também. Hora palavra avulsa, hora palavra valente, Valentina, valentão. Valentão como aquele democrata radical. Mas é bom, ele quebra tanto sonho e "cor-de-rosa". Puxa o pé para gente voltar ao chão. Chão, às vezes é bom. Muitas vezes é. Aquele chão batido, de terra, terra que não é rosa, terra vermelha, que levanta poeira e mostra em um porta bandeira o caminho para o jardim das sombras. Sombras de sentimentos que a gente tenta esconder, acha até feio, às vezes vampirizam, faz-se teatro com eles, também por vezes, mas sabe não poder prender naquele mesmo “sei-lá-o-quê”, o tempo todo.

"O que será que será" do Chico também daria para definir minhas sensações. Hahaha!! Muitos risos... também daria? Ele é perfeito! A diferença entre mediocridade e genialidade. A gente sente como os grandes, mas não traduzimos tais experimentações em palavras que signifiquem algo para o restante da humanidade. Humanidade que fica infinitamente maior quando a gente percebe nossa incompetência para transmitir sentimentos do mesmo mundo que esses grandes poetas vivem.

Não, gente, depressão não é, não! Minha “Xuxuca” não permite. É poderosa aquela “Favo”...

Ah, sim, TPM pode ser... quem sabe, não é TPM?!



Por Elga Arantes, 2008.

sábado, 26 de julho de 2008

Putz!


Não é que minutos depois do último post recebo um e-mail com um texto lindo, atribuído a Martha Medeiros? (que só abri porque era da Magda - e ela nem sabe da minha consideração).
Nem estou mais amarela. Já sou a transição entre o laranjado e o vermelho. Vermelho de vergonha por me entregar a "Sociedade do Espetáculo", de Guy Debord.


Definitivamente, esse texto merece um post:



A Massacrante Felicidade dos outros

"Há no ar um certo queixume sem razões muito claras.

Converso com mulheres que estão entre os 40 e 60 anos, todas com profissão, marido, filhos, saúde, e ainda assim elas trazem dentro delas um não-sei-o-quê perturbador, algo que as incomoda, mesmo estando tudo bem.

De onde vem isso?

Anos atrás, a cantora Marina Lima compôs com o seu irmão, o poeta Antonio Cícero, uma música que dizia: 'Eu espero/ acontecimentos/ só que quando anoitece/ é festa no outro apartamento'. Passei minha adolescência com esta sensação: a de que algo muito animado estava acontecendo em algum lugar para o qual eu não tinha convite. É uma das características da juventude: considerar-se deslocado e impedido de ser feliz como os outros são - ou aparentam ser. Só que chega uma hora em que é preciso deixar de ficar tão ligada na grama do vizinho.

As festas em outros apartamentos são fruto da nossa imaginação, que é Infectada por falsos holofotes, falsos sorrisos e falsas notícias. Os notáveis alardeiam muito suas vitórias, mas falam pouco das suas angústias, revelam pouco suas aflições, não dão bandeira das suas fraquezas, então fica parecendo que todos estão comemorando grandes paixões e fortunas, quando na verdade a festa lá fora não está tão animada assim.

Ao amadurecer, descobrimos que a grama do vizinho não é mais verde coisíssima nenhuma. Estamos todos no mesmo barco, com motivos pra dançar pela sala e também motivos pra se refugiar no escuro, alternadamente. Só que os motivos pra se refugiar no escuro raramente são divulgados. Pra consumo externo, todos são belos, sexy, lúcidos, íntegros, ricos, sedutores. 'Nunca conheci quem tivesse levado porrada/ todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo'. Fernando Pessoa também já se sentiu abafado pela perfeição alheia, e olha que na época em que ele escreveu estes versos não havia esta overdose de revistas que há hoje, vendendo um mundo de faz-de-conta. 'Nesta era de exaltação de celebridades - reais e inventadas - fica difícil mesmo achar que a vida da gente tem graça. Mas tem. Paz interior, amigos leais, nossas músicas, livros, fantasias, desilusões e recomeços, tudo isso vale ser incluído na nossa biografia.

Ou será que é tão divertido passar dois dias na Ilha de Caras fotografando junto a todos os produtos dos patrocinadores? Compensa passar a vida comendo alface para ter o corpo que a profissão de modelo exige? Será tão gratificante ter um paparazzo na sua cola cada vez que você sai de casa? Estarão mesmo todos realizando um milhão de coisas interessantes enquanto só você está sentada no sofá pintando as unhas do pé? Favor não confundir uma vida sensacional com uma vida sensacionalista. As melhores festas acontecem dentro do nosso próprio apartamento."

Por Martha Medeiros, 2008.

P.S.: A música, que por sinal adoro, ainda vai ser postada aqui, claro!

Se eu fosse uma cor, hoje, seria amarela.

Se eu fosse pão, já teria mofado.
Se eu fosse wisky, já seria “oito anos”, no mínimo.
Se eu fosse televisão, estaria falando às paredes.
Se eu fosse roupa, estaria fedendo a naftalina.
Se eu fosse um número, seria uma dízima periódica.
Se eu fosse esperta, seria um pouco menos boazinha, às vezes.
Se eu fosse planta, estaria sem clorofila.
Se eu fosse sábado à noite, frustraria quem “espera alguma coisa”.
Se eu fosse minha mãe, estaria numa boa.
Se eu fosse meu blog, cansado de trabalhar.
Se eu fosse queijo, seria gorgonzola.
Se eu fosse música, seria do “Biquíni Cavadão”.
Se eu fosse um dia, seria domingo.
Se eu fosse uma noite, sem lua.
Se eu fosse “Se eu fosse”, de saco cheio.
Se eu fosse um sorriso, aquele famoso.
Se eu fosse um fungo, estaria tudo certo.
Se eu fosse poeta, produzindo como nunca.
Se eu fosse desejo, teria sido.
Se eu fosse um bar, seria o “Normal”.
Se eu fosse você, não tentaria entender.

Mas como eu sou eu, vou estourar pipoca e assistir a um DVD.

Por Elga Arantes, 2008



sexta-feira, 25 de julho de 2008

Compor sem torpor.


A gente não compõe pessoas.
Deveríamos seguir sem tentar compor as pessoas.
Seguir sem compor.
Seguir, sem, com e por...
Sem, com, e por pessoas.

A gente sobrevive SEM elas, convive COM elas, vive POR elas.
Choramos SEM elas, dormimos COM elas, bebemos POR elas.
Alivia-se SEM elas, decepciona-se COM elas, desiste-se POR elas.
Sentimos SEM elas, sentimos COM elas, sentimos POR elas.

Estaremos sempre sentindo.
Até mesmo quando nada sentimos, sentimos nada.
E esse sentimento de inanidade pode ser tudo. Porque depois de coisa nenhuma sempre virá alguma coisa. Se assim não fosse, não saberíamos definir a ausência.

E só é assim porque as pessoas não têm fim e quando morrem são eternas.

Por isso pare de tentar compor pessoas e volte a compor pensamentos.

Volte a escrever.

Escreva. Não pare de tentar. Não tente parar.

Volte a escrever.

Escrever!

Crer e ver.

Crer é ver.

E quem vê, cria. Quem cria, tem. Quem tem, é.

Ser, é ter.
... na mente...

É ter, na mente.

Eternamente.

Pessoas são eternas!

Por Elga Arantes, 2008.


quinta-feira, 24 de julho de 2008

Efeito borboleta (s) no estômago


Quem citou pela primeira vez “borboletas no estômago” foi muito feliz na metáfora.

Que poderia ser mais plenamente fiel às sensações que temos em certas situações e expectativas?

Que outro inseto poderia ser mais delicado, de singular leveza e seria, ao mesmo tempo, capaz de encantar ao bater suas hábeis asinhas, fazendo os tais serezinhos coloridos pairarem no ar?

Qual outro órgão em nosso corpo poderia ser mais sensível a emoções intensas que o estômago? A raiva, os êxtases, os medos que sentimos refletem mesmo é lá. O coração é emblemático, o estômago, sintomático.

Já fiquei tão ansiosa que vomitei, já fiquei tão triste que vomitei, já fiquei tão enojada que vomitei.

É o estômago quem se recusa a digerir certos “sapos”. É ele quem não admite processar certas verdades postas “goela adentro”. É ele quem rejeita certos corpos estranhos - e alguns são tão estranhos!

Se fechar os olhos, posso sentir as frágeis e débeis asinhas, roçar quase que imperceptivelmente as paredes daquele órgão, num afago sôfrego.


Sinto algumas borboletas no estômago quando penso no desejo de ter um filho; nas escolhas profissionais que preciso fazer; na imprecisão do futuro.

Sinto muitas borboletas no estômago quando penso nele. No outro, nem tanto. Para o Outro, as possibilidades são reais, para Ele, não mais.

Fico com o estômago. Vão-se as borboletas...

Mas se lembro daquele sorriso cheio de dentes... Sinto o bater da asa de uma única borboleta, o que já provoca um tufão em meu estômago. “Teoria do Caos”. “Efeito borboleta”, no estômago.

Dentes que mordiscam meu pescoço e devoram meu juízo. Mais borboletas... Sorriso que se oferece para o improvável, para a insensatez. Sorriso largo que aplaca brios, desguarnece empáfias. Convida – me à insanidade. Milhares delas! Elas voltaram, aos montes...

Quintana que me perdoe, mas foi espontâneo, não corri atrás delas. E, apesar de faltar alguns cuidados com meu jardim, fico com as borboletas.

Será que elas ficarão?

Preciso cultivar tulipas. Adoro tulipas!

Por Elga Arantes, 2008.


quarta-feira, 23 de julho de 2008

EXPLANAÇÕES (s.f., expor com minúcia, explicar com desenvolvimento)

Ontem, um comentário me fez pensar.

Aliás, nesta semana, em especial, tudo me faz pensar. Até agora, enquanto penso em como tentar explicar meus sentimentos mais emergentes, também penso no porquê disso.

Se fosse um trabalho acadêmico, antes de começar a escrever, faria pauta.

Mas pouco ou de nada adiantaria tal esquema aqui. Nesse espaço, sou quase que puramente meus sentimentos e sensações mais espontâneos e instantâneos, com potencial grande para a transfiguração. Metamorfosearia meus propósitos em vários momentos. Provavelmente...

Ou surpreenderia a mim mesma seguindo meu roteiro à risca. Mas até nisso haveria surpresa. E autonomia. Tal roteiro não se sucederia intencionalmente. Teria sido mera coincidência. 


Motim de idéias alvoroçadas; tumulto de noções; juízos desalinhados. Caos especulativo. Ah! Assim ficou bonito! O caos é lindo! É a balbúrdia antes de se formar o mundo. O meu mundo de ideias. É a prévia da harmonia. E meus desígnios mais imediatos deliberam harmonia aos meus caprichos. Harmonizemos, então!

Fato é que a palavra, coincidência tem mexido comigo nesse dias, mais do que mexe comumente. Parei. Fui ao dicionário.

“Coincidência: s.f., Simultaneidade de dois acontecimentos; concordância; justaposição; identificação de duas ou mais coisas; acaso.”

Repeti: "Acaso..." Refleti: "Acaso?"

Como minha inquietude não se saciou, fui além. Voltei ao avô de Chico:

“Acaso: s.m., sucesso imprevisto; eventualidade; riscos; perigos”

Continuei, incontrolável:

“Concordância: s.f., acordo; conformidade; harmonia; consonância; identidade; coerência.”

E como humana primordial, fui imparcialmente oportunista e parcialmente íntegra. Escolhi as definições que mais facilmente me fariam chegar a um resultado favorável.

"Sucesso imprevisto" é a definição magistral para as concatenações que meus pensamentos articulam hoje. Para o roteiro aqui exposto; para as novas e agradáveis amizades; para as novas, agradáveis e improváveis amizades; para os reencontros esmerados; para aquele outro que pareciam inócuo. Todos, imprevisivelmente, muito bem sucedidos.

Tais processos só assim ocorreram porque foram alicerçados com a humildade que venceu minha vaidade fútil. A honestidade para aceitar minhas fraquezas e infinitas imperfeições. Humanidade para entender as fraquezas e imperfeições alheias. E coragem para sentir e publicar tamanha intimidade.

Pauta cumprida. Ficou quase redondinho, não fosse o sentimento de hesitação que teima em agitar convulsivamente minha engenhoca cerebral.

Por Elga Arantes, 2008.




segunda-feira, 21 de julho de 2008

Efemeramente serena.

Todos os dias quando se sentava para escrever, sua cabeça já era um turbilhão de pensamentos mesclados. Mesmo no intervalo de tempo entre sentar-se, abrir o caderno e apontar os lápis, Sofia já haveria de mudar de opinião, de posição, de tema, e até de humor umas “sei lá quantas vezes”. Até quando pensava nisso, mudava rapidamente de ideia.

E de ideia em ideia, de juízo em juízo, ia assim, escrevendo, pensando e vivendo. Depois, experimentava concluía e desconstruía. Antes, isso a incomodava. Diziam ser ela pessoa instável. Até de desequilibrada já ousaram acusá-la. E quando ela se defendia, recusando o adjetivo, justificavam não ser em termos pejorativos. Ficou uma semana inteira pensando se para o desequilíbrio existiria definição de algum conotativo menos alvitante. Achou que não.

Importante é que depois, tais apontamentos sobre sua personalidade flutuante, não mais a incomodava. Passou até a apreciar. Achava bonito ter mente hesitante ou pensamento infiel. Soava poético. É verdade que esse último meio a la “Nelson Rodrigues”, mas e daí? Ela gostava mesmo do estado comovido da alma em qualquer estilo. Pensando bem, adorava Nelson Rodrigues.

Mas hoje... hoje ficava provado, mais uma vez, que o que a incitava a escrever era a inquietude de seu entusiasmo, de sua existência, de sua consciência. E a consciência e o coração daquela mulher, naquele dia, estavam mais mansos, tornando sua existência menos enigmática para ela mesma. Hoje também, preteria a idéia de inspiração, considerando incitação termo mais adequado. Mas isso, com certeza, seria reconsiderado mais umas tantas vezes, pelo menos, já que toda vida tentou formular opinião sobre a existência da tal inspiração, sem efeito.

Sempre quando Sofia tomava alguma decisão, sabia da possibilidade da sua revogação, mas enquanto isso não acontecia, sentia como num enlevo de pós coito, onde o corpo saciado parecia inanimado. Mas tal qual a matéria, apenas parecia desprovido de ânimo, pois sentia a mente vivaz e se sentia capaz de pô-la em ordem, determinar, tornando-se, assim, senhora de si mesma.

Não demoraria, sentiria novamente ímpetos de escrever incessantemente como se psicografando estivesse. Mas naqueles instantes mais recentes seu coração apenas pairava, resoluto.


Por Elga Arantes, 2008.


domingo, 20 de julho de 2008

Ele é mesmo fantástico no jogo com as palavras.

Os trocadilhos que Chico faz nessa música, em especial, misturando as duas línguas, fazendo a sensação da pronúncia do francês, parecer estar dizendo algo na nossa língua é genial. Exemplo lindo é a frase que diz "O mar, marée, bateau", e que faz parecer soar, "O mar me arrebatou". Simplesmente, fantástico!

Ser a trilha sonora para a vida de tanta gente, simultaneamente, é ainda mais fantástico.

"O Fantástico mundo de Elga" (e dá-lhe fantástico!)




Chico Buarque - Joana Francesa

Tu ris, tu mens trop
Tu pleures, tu meurs trop
Tu as le tropique
Dans le sang et sur la peau
Geme de loucura e de torpor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda

Mata-me de rir
Fala-me de amor
Songes et mensonges
Sei de longe e sei de cor
Geme de prazer e de pavor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda

Vem molhar meu colo
Vou te consolar
Vem, mulato mole
Dançar dans mes bras
Vem, moleque me dizer
Onde é que está
Ton soleil, ta braise

Quem me enfeitiçou
O mar, marée, bateau
Tu as le parfum
De la cachaça e de suor
Geme de preguiça e de calor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda

sábado, 19 de julho de 2008

"Uma versão nova para uma velha história"



A paixão, essa, indubitavelmente, partira. Não que tivessem a certeza do definitivo adeus daquele sentimento. Mesmo porque, comprovavam de tempos em tempos a afinidade física, o desejo pungente, a atração ainda bem acesos, mesmo depois de tantos anos.

Fosse, talvez, nenhum indício que não apenas uma artimanha da providência divina ou da sapiência da própria natureza para lembrar que eram também animais e, assim, amenizar a soberba inata da espécie humana.

Fato é que eles não mais sentiam palpitações quando se encontravam; não transpiravam e ruborizavam ao se olharem. O que ficara daqueles dois fôra a admiração, o respeito, amizade, o carinho e o zelo. Ops! Amor? O amor... Como não amar alguém a quem se tem gratidão sincera?

Ela era grata ao mar de bons momentos e até ao tsunami de emoções, os quais enfrentaram. Grata por ele ter se permitido também aprender com ela nos momentos em que a ensinava.

Era grata por ele ter sido seu leal companheiro de jornada, até os dias atuais. Por ele ter oferecido seus amigos mais caros e que hoje eram dela amigos também e por emprestar-lhe uma família que ela aprendeu a amar, como se dela fosse.

Grata, até pela sinceridade que a dilacerou em um momento tão delicado, mas que fizera dela a mulher forte que ela enxergava no espelho.

Acima de tudo, era grata, pois, por meio dele dele, tinha dias mais doces e sentia a plenitude do amor incondicional. E se deleitando assim, todos os dias naquele mel, o mel que veio dele, como não dizer do amor que estará com ela por toda a vida, mesmo que não disputassem mais a janela do banheiro ou dividissem o colchão na sala.

Como seria triste ter que matar um amor para permitir o nascimento de um novo. Mas não. “Somos mais que isso”, pensou. Para ela, cada amor era único e, portanto, insubstituível. Princípio exato, travestido de clichê. Podemos colecionar os amores em vez de trocá-los, reduzindo-os a simples objetos que se tornam obsoletos.

Absoluto. Era o que havia se tornado aquele sentimento para ela. Era livre e soberano. Não dependia mais de estarem juntos. Aceitara o futuro sem a obrigação do passado. E aquilo era um presente...

Karen Mastria, uma querida, já lhe dissera que “Desligamento é desobrigar-se de uma pessoa ou situaçao com amor” e que “... desligamento não significa desligar-se das pessoas que se ama, mas da agonia do envolvimento.”.


Por Elga Arantes, 2008.


sexta-feira, 18 de julho de 2008

Mais um dia de palhaçada II (muito pretencioso)
Homenagem à "Mais um dia de Palhaçada" (muito formal)

PLÁGIO DESCARADO
(perfeito)

- Que que você vai quer?

- Beijo.

- Beijo não tem. Pode ser Love?

- Ah, Love já usei semana passada.

- Usa Luxo com Amante por cima, a menina que saiu agora usou e adorou.

A moça ao lado se vira pra nós e comenta:

- Isso tá parecendo conversa de Sex Shop.

E tava mesmo. Mas era só um salão de beleza.

No final das risadas, lembrei de um post sugestivo que vi em um blog, dias atrás. (
www.palavravulsa.blogspot.com)

Será que tem alguma lógica na escolha dos nomes dos esmaltes pelos fabricantes?


Se eu soubesse postar músicas no blog, teria postado “Nem luxo, nem lixo”, da Rita Lee. Quem sabe a melhor trilha seria mesmo “Sexo” do Ultraje à Rigor.


Mas a foto, essa tinha mesmo que ser a da Patrícia, do mesmo blog. (vamos aguardar que ela autorize). *

Por...


Foto de Patrícia Ferraz

* Não é que ela autorizou ?


Preciso voltar a trabalhar.


Imaginem. Noite gelada. Você liga o chuveiro e entra naquele banho quente. O espelho e o vidro do box, se embaçam, rapidamente. Volúpia!

Inesperadamente, porém, o chuveiro desliga. E cai nas suas costas uma água obscenamente gelada.

Se eu fosse um gato, teria grudado no teto. Mas como era eu, falei: “Chuveiro regaçado!!!”.

Depois ri e pensei que se fosse o Jairinho diria: “Todo castigo pr’um corno é pouco!”

Pronto. Virou post:

...e se fosse a Samia? “Que saco, que merda!”

Charles diria: “Demorô!!!!!”

O Michael, com a voz pelo nariz: “Puta que pariu!”

O Gustavo reclamaria da falta de planejamento para imprevistos como aquele. Depois, pensaria na economia feita.

O Gabriel, gritaria: “ – Galooooooo!”

A Michelle nem ia ver que a água esfriou.

A Coutinho ia começar a rir e só iria parar três dias depois.

Helter desafiaria o chuveiro com seu famoso: “ - Quem é ocê!!”

Vanessa contaria a história pra gente num churrasco da turma e iam todos "passar mal" de tanto rir dela.

Cláudio: “Digaçado”.

Nanda diria que se fosse “A” ducha ao invés de “O” chuveiro isso não teria acontecido.

Rodolpho: “Q-Q-Q carai, sô!”

A Luana gritaria: “- Amôôôr...” e o Mário, já teria ligado o outro chuveiro, colocado toalhas novas, etcétera e tal.

O Demerson pensaria que alguma coisa de positivo poderia ser tirada daquela lição.

Se fosse com a Lidy, ela diria: “- Que gracinha. Esse chuveiro tem mesmo personalidade. Que fofo!”

Glau ameaçaria o chuveiro com uma peixeira.

O Vecchio, berraria: “- Deixa arder!”

A Cris, calmamente, desligaria o chuveiro e nada falaria. Talvez, pensasse: “Fazer o quê???

Rodrigo Victor sorriria para o chuveiro.

Brenda diria: “- Igual a cena daquele filme iraniano.”

“-A física quântica tem tudo a ver com o que aconteceu.” Afirmaria, convicto, Amilton,

Geraldo depois de muito, muito pensar começaria a explanar sua linha de raciocínio: “- Veja bem...”

E o Alê, esse, com certeza iria imitar a reação de qualquer um aqui citado.

E você, falaria, o quê?


Por Elga Arantes, 2008

Todo mundo já sentiu isso um dia.

Olívia assistiu aos últimos acontecimentos sem nada dizer. Resolvera dar uma trégua.

Viu Alice receber mensagens. Observou que enviou algumas que não obteve respostas.

Ela também recusou convites. Outros, aceitou.

Tomou aquelas malditas pílulas! Mesmo assim sentiu-se feliz, triste, rejeitada, desejada, sonolenta... muito sonolenta. Dormira muito nas últimas semanas.

Não foi ao samba, como não planejou. Mas foi ao show de rock.

Ontem, ela chegara já tarde da noite. Nem bem desceu as escadas e discou no celular. Estava ocupado.


(...)

Aquilo já estava passando dos limites. E aqueles dois mereciam um corretivo...

Por Elga Arantes, 2008.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Um primeiro ensaio para explicar como nasce o amor.


A primeira coisa que chama a atenção nela são os olhos. Olhos grandes, enormes! E eu, quando do seu nascimento, só queria saber se tinha as adoráveis anomalias nas bochechas.

Através do vidro eram outros os olhos que me observavam. Não eram grandes. Aliás, a expectativa podia ser percebida naqueles olhinhos quase orientais, apenas pela singularidade do momento. Era a primeira neta. Sua expressão era, inegavelmente, de alegria. E deve-se observar que o instrumento que tal sentimento tinha para se fazer perceber era aquela boquinha apertadinha de sempre. Característica de quem acha que é atrevimento demais escancarar um sorriso largo. “É quase uma ofensa”, imagino que ela deva pensar.

E foi só ali, pelo vidro, que reparei pela primeira vez que ela também tinha covinhas. E eu, contabilizava. Ela tem duas. Discretas, mas tem. Eu tenho uma do lado esquerdo que só dá o ar da graça quando mordo os lábios ou os recolho para aquele mesmo lado, numa expressão de reprovação. Pena! Queria que fosse num sorriso, como é com o pai. Aliás, nele, aparece quando ri, quando chora, quando come, quando molha os lábios com a língua, quando assobia e até quando faz “tsc, tsc”. Ali, na sala de parto, então, elas teriam roubado a cena, se não fosse ele o cinegrafista do evento. Concluí: “É, a chance é grande”!

Por alguns momentos, com sensação de eternidade, esqueci-me de tanta besteira. Ela chorou. Ela... Existia um novo “ela” no mundo, e trazida por mim. Um novo alguém, nascia a Mel, a Mel que foi sempre Mel. Que não mudara de nome nem uma única vez. Ela, a Mel, a Mel, a Mel... quantas vezes ainda não repetiria esse nome em variadas entonações... Bem, ela chorava berrando e eu chorava baixinho, tímida de minha nada original atitude. Quantas vezes aquele médico já observara tão intimamente a maior demonstração de emoção do ser humano em sua vida? “Era um ser privilegiado! Se bem que deve até banalizar. Ainda bem que não sou médica!”, pensei mais outra vez, sem dividir com ninguém minhas descobertas relâmpagos e completamente desordenadas.


Seu choro ficava cada vez menos rouco e mais forte, mais exigente. Ela devia ser como eu. Já odiava acordar cedo. Seis horas da manhã, ainda é madrugada pra gente né, filha? FILHA. É, minha filha nasceu. Gustavo, nossa filha nasceu. Mundo, essa menininha de olhos grandes - e, claro, com duas covinhas fundas na bochecha - quem vai criar para você sou eu!

Por Elga Arantes, 2008.

Esse texto foi feito há muito tempo, achei ontem em meio a minha insônia. Pensei em reformá-lo, mas, agora, pensando bem, correria o risco de fraudar as emoções mais genuínas daquele momento. Outros ensaios, certamente, virão.

Perfeito


"Embora ninguém possa voltar atrás
e fazer um novo

começo, qualquer um pode começar
agora

e fazer um novo fim."

Chico Xavier

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Até a madrugada tem três lados.

Tudo em mim é reaproveitado, reciclado.
Minha insônia também produz. Indagações, hipóteses, textos. Vez ou outra, até formula soluções.
Um dos lados, pelo menos, sempre é bom.
Lado Um: Obstando para se fazer estar.

Dia desses, passei creme no pé da mesa.

Senti-me menos inútil que quando o fazia em certos humanos inanimados. Estes, não podiam perceber-me. Aquele outro, era, pelo menos, grato por hidratar sua casca ressecada e repuxada.

Meu corpo quis flutuar tamanha era a paz que, ali, então, experimentava. Teria conseguido, não fosse o peso das toneladas que passou a pesar meu coração depois de esvaziar-se completamente.

Um ou outro sempre a obstar.

Mas sempre e sempre, a culpa é dele. Do pé da mesa.

Por Elga Arantes, 2008.

Lado Dois: Zovirax e Ziriguidum



O gloss já estava perdendo espaço na concorrência desleal com a manteiga-de-cacau em dias e noites gelados. Agora, o páreo era entre o cacau e Zovirax.

Quando ela vem em dias de inverno é sempre pior. Sua presença recorrente já não é surpresa para mim. Sua versão nervosa vem como conseqüência de conflitos íntimos, ansiedade gerada por expectativas profissionais, dúvidas éticas e morais e uma baita indefinição sentimental.

Ela coça o dia todo que é para não me deixar esquecer, nem por um momento, que os motivos que a fizeram visitar-me precisam ser atacados. O restante dos lábios irritados e ardidos pelo frio, poderia ser a punição pelo acúmulo de pendências não solucionadas.

Para piorar a situação, a tal Herpes é vírus déspota, e a possibilidade de "trocar bactérias" numa terapia relaxante se torna, então, nula.

O que me resta é conformar-me e aguardar os tais sete dias de sua presença, não bem-vinda, acompanhada de Zovirax  e Ziriguidum.

Por Elga Arantes, 2008.
Lado Três: Contrato de experiência



Os telefonemas já são menos freqüentes, os torpedos e mensagens, menos habituais. Os encontros, então, cada vez mais espaçados.

Pudera! São os últimos dias do prazo de experiência padrão dos acordos firmado entre partes. Normal que a situação começasse a se definir.

Parece mesmo que vai partir. Ele terá que ir, de um jeito ou de outro, parece mesmo.

Ainda bem que recordações, contrato nenhum rescinde. As lembranças da combinação perfeita de nuvens, varanda, divã e sopa de letrinhas nas noites frias, essas, com certeza vingarão. E creio, nos dois corações.

Os pássaros, seres que gostam de liberdade, no inverno, voam para outra região para fugirem do frio.

Por Elga Arantes, 2008.

Enquanto isso, no lado ocioso do meu cérebro...


Garutatar já andava (às vezes se arrastava) cansada de tanto peso que carregava diariamente nas costas. Mas também sabia que era agraciada por ter uma 'moradianoite' própria.

Pensava na aranha Dalubeca que sofria frequentemente o árduo trabalho de ter que tecer uma nova trama cada vez que o 'espalhanador' vinha lhe tirar a tranqüilidade de seus dias, destruindo toda a bela, mas frágil 'tetéia'.

Também se solidarizava com dona Dalhama Samomi, 'rumumuminante' de nome e sobrenome tradicionais que vivia também tempos invertidamente estranhos. Soubera que já há algum tempo, a, não mais tão distinta, senhora dona vaca, até aluguel pagava para morar nas verdes pastagens do 'rirricoatoa' fazendeiro. E dizia sempre que os baldes de leite retirados todos os dias lhe rendiam uma 'estalfafa' difícil de suportar.

O 'Cavavailá', incentivador nato de superação de obstáculos na floresta, dera à Garutatar a idéia de procurar pela fada. Chegou a apostar que andaria de pijama um ano na floresta se tal intento não rendessem os resultados esperados. A tartaruga tinha, então, decidido. Acharia a tal fada dos desejos, Free Will, e lhe exigiria sua cota de pedidos. Soubera por Nafuça, 'fofoca' de plantão, que, todas as manhãs, Free Will dedicava pelo menos duras horas jogando tênis, pois não suportava mais as gozações daqueles serezinhos 'desengorilaçados' que espalhavam pelos quatro cantos que a semelhança da fadinha com aquela baleia hollywoodiana não era apenas o nome. Todos 'capivariram' em risadas.

Estava ela suando horrores, afinal, eram noventa e nove (?) os tênis que jogava diariamente. Tais calçados eram da já senil amiga centopéia – nascera aleijada, a 'inveterarbrada'! Pobre! Por isso, apelidaram-na desde cedo, "Com":

-Se não é 100, só pode ser Com. E riam-se rãrãrãrãrã.........
(tá bom... essa foi fraca!)

Quem assim explicou foi a longa língua da esposa de SasaPofado. Este vivia pulando a cerca, enquanto ela lavava toda a roupa suja de 'lixúria' – ele era o gari da floresta – mas, parece, não comia assim tantas moscas. Moscas, não... Ouvira-se dizer que tinha um 'casolo' com uma inseta. A divorciada LargadaTa Furacão. Outros, especulavam ser SasaPofado amigo muito próximo do disneylândico Bambi. Mas nunca se sabe a verdade nesses casos, não é 'lesmo'? Poderia ser Lesmo...

Esperou que Free Will terminasse suas séries de exercícios e reivindicou:

- Vim requerer meu direito. E exijo meu pedido atendido.

Já havia dona Coruja explicado na escola que o senhor presidente da floresta, galo Cocolloricó, havia confiscado os desejos dos cid
adãos da floresta. Com a recessão, inflação, e com o quadro funcional reduzido – “Extinção compulsória”, diziam as más línguas dos tamanduás, que exterminavam milhares de formigas operárias todos os dias – teria ela direito, então, a um único pedido.

- Que deseja?

- Não posso pedir que me tire a carcaça, pois assim não terei onde morar. Mas quero um fardo mais leve que essa dura casca. Pensei numa carcaça de alface. Mas apesar de leve, verde é uma cor muito comum, aqui. Desejo, então, uma fashion carcaça de repolho roxo.

E, então, depois de registrar com o 'tabeliA
uAu', no 'carToTório', o requerimento, assinado em quatro vias por ele e por Perdeu, seu 'avelista', o pardau; e depois de quase três meses de espera, foi concedido o tal desejo.

Era agora uma ágil, brega e satisfeita tartaruga.

Mas um dia deparou-se com as 'maCabras', que adorando mesmo qualquer vegetal, não demoraram em lhe comer metade de sua casa. Depois, as chuvas abundantes (floresta equatorial, sabe como é!) alagava frequentemente o interior de sua morada, o que lhe havia também rendido uma bela pneumonia. As frágeis e perecíveis folhas do repolho não suportaram muito tempo.

Garutatar era agora um quase molusco (mudara mesmo de classe) e sem teto.

Perdeu sua casa e, dizem, a masculinidade. SasaPofado admirou o visual do novo indigente. Achou-o super parecido com um tal Lesmo já mencionado na história e... Deixemos essa parte da história para Nafuça - a 'fofoca'.

Mas, concordavam todos, perderia a casa de qualquer forma. O "tal leão" já estava atrás dos proprietários cobrando um tal de IPTF – imposto sobre propriedade territorial florestal - que ele não conseguiria mesmo pagar.

Simpatizante do socialismo, Garutatar concluía que livre arbítrio só poderia mesmo ser invenção de americano para ferrar a terra do Pau-Brasil.

O cavalo pagou a aposta!


É, deu zebra!

Por Elga Arantes, 2008

E.A.: Quando acabei de escrever o conto, fiquei pensando se a centopéia possuía 100 pernas, ou 100 pares de pernas. Vivendo e aprendendo. Descobri que podem ter de 15 a 190 pares de pernas. Mas, aqui, resolvi deixar como sempre foi no meu imaginário infantil: cinquenta pares de pernas; cem pernas, no total.(excetuando as aleijadas, claro!)


* * *

Quase todas as noites, quando deitamos, conto pra a Mel várias historinhas. Claro, mais simples que essa agora narrada.
Ela repete todos os meus exagerados gestos e expressões e já decorou as falas proferidas pelos personagens, falando-as simultaneamente comigo.
Mas ontem foi diferente. Em uma das conhecidas historinhas, o carneirinho pede ao lobo: " _ Não faça isso comigo..." e enquanto falava, ela fez a cara de choro e... chorou de verdade!!! Sim, lágrimas, grossas lágrimas.
- Florzinha o que foi?
- Não 'telo' mais historinha.
- Tá bom, meu bem, abraça a mamãe.
Abraçou, virou de lado e dormiu.
Emocionou-se, o meu bebê!

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Utrajante *


Eu me amo”, mas agora preciso falar.
Sei que posso parecer “Rebelde sem causa”.
Mas, entenda, não é “Ciúme”,
nem que eu acredite que “Todo mundo gosta de mim”.
Além de tudo, bem sabe, torço pelo
Independente Futebol Clube”.
E nunca disse que “Nós vamos invadir sua praia”.
Mas também não precisa ser assim, “Cada um por si”.
É que “Mim quer tocar”, não “Pelado”,
nada tem a ver com “Sexo”.
Sei que às vezes pareço “Giselda”,
mas, no fundo, quero mesmo é ser “Zoraide”.
Será você como "Jesse Go" ?...
...“Ah, se eu fosse homem”, gritaria:
- “Filha da puta” !
Sua ausência é “Inútil"
"Me dá um olá”.
Mais “Nada a declarar”!

* homenagem a quem, na verdade, ainda não deu seu show.

Por Elga Arantes, 2008.

sábado, 12 de julho de 2008

...e todos sambaram ao som da zabumba.


Ela falou o que de mais importante havia para ser dito daquela história.

Ela já dissera quase tudo para satisfazer sua curiosidade infantil.

Ela não se escondeu atrás de suas vaidades que, de tempos em tempos, de textos em textos, confessava ter. Ela se mostrou de cara limpa, coração bom, palavras transparentes.

Ela escancarou sua sensibilidade ao relatar sentimentos tão íntimos e de tanta nobreza! Ao mesmo tempo, confessou suas fraquezas em relatos, contraditoriamente, de coragem singular.

Aquela moça meiga com carinha de boneca de porcelana e que transparecia por meio de seus textos a delicadeza das fadinhas dos contos infantis a fizera chorar. Quanto poder há de existir em tanta doçura?

Era assim que se enxergaram. Fortes e determinadas, românticas e sonhadoras, , paradoxais e humanas. Por isso, era óbvia, a identificação. Sem se reconhecerem uma na outra, a curiosidade, talvez, não vingasse, , apesar de parecer um dos traços mais fortes que possuíam em comum.

Mas essa curiosidade não era pueril, excêntrica ou infame. Não era apenas um capricho. Era próprio de pessoas que amam o ser humano, no sentido de ter orgulho de sê-lo realmente. De assumir o papel daquela espécie com o que ela tem de mais pungente, de mais primordial, de mais inato. A humanidade desnudada dos preconceitos, dos medos, das vaidades. Cidadãs do mundo, livres das convenções que limitam as trocas nas relações humanas; do orgulho que estanca a espontaneidade que aquece a alma; da soberba que confina e dissimula desejos em prol de consentimentos sociais construídos com bases em valores efêmeros e torpes.

Eram também, evidentemente diferentes em suas semelhanças. Ainda bem. Sinal de possibilidade de troca, doação. Mas se o encanto por aquele inusitado ocorrido se findasse mesmo ali, nas próximas horas, poderiam se arriscar a dizer que já haviam aprendido alguma coisa. E a coisa era boa. 

Provavelmente, as duas ouviriam o tilintar do triângulo naquele final de semana. Pensariam nos ângulos daquele outro. Cada uma na casa que melhor acolhia seus gostos e desgostos. Até isso as aproximavam.

Leu aquele torpedo de tom educadamente imperativo e obedeceu. Afinal, aquela exortação não era nada mais que o sinal de sua “ansiedade desmedida”, outro forte atributo que as uniam nas semelhanças.


Por Elga Arantes, 2008.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Ele não põe fé.


Sabe aqueles telefonemas que você recebe no meio da tarde e faz com que você sinta vontade de agradecer mil vezes a Deus e a vida pelos bons amigos que tem? Hoje recebi um desses. E de um amigo, reamente, especial. Talvez ele nem saiba o quanto é.

Eu, em minha imperfeita altivez, às vezes penso, ou melhor, sinto que sou uma das poucas pessoas a quem ele elegeu para se abrir. Minimamente, claro. Ele ainda não descobriu chão firme na maioria das relações que já estabeleceu com as pessoas. Pelo pouco que sei de suas experiências é até aceitável. Mas não natural. O empirismo de maneira alguma pode ser base para relações humanas. O homem, a mulher são enredados por uma teia muito sutil que não possibilita prognósticos. Mas o cepticismo é ainda uma característica forte dele. A parte boa é que, justamente, suas hesitações estão o fazendo ponderar sobre antigos imperativos.

Gostaria de ouvi-lo falar mais de si. Mas a timidez e a pouca estima por si mesmo o impedem, na maioria das vezes. Acredito que ele saiba que isso seria bom para ele por demais. Mas ele também é pudico demais. Tem medo que as pessoas não queiram ouvir o que ele tem a dizer. Acha sua vida sem graça, suas histórias sem atrativos. Quão equivocado! O pouco que já consegui arrancar-lhe foram relatos instigantes que me despertaram interesse em saber mais e mais. Ainda que fossem explanações triviais, seriam demasiado interessantes, pois é a história de um ser querido se revelando para mim.

Ele ainda não deve saber disso, mas muitas pessoas ainda se aproximam por interesses que não o oportunismo, exploração ou proveito próprio. Exista quem apenas queira bem ao próximo e necessite estar perto por simples afinidade, identificação. Disso ele deveria saber, já que é assim.

O que preciso contar a ele é que a isso nomearam amor e apelidaram AMIZADE.

Por Elga Arantes, 2008.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Tá bom, eu confesso!

Já havia me dado conta. Mas hoje preciso que todos vocês saibam. Estou uma viciada. Sim, vários vícios. Claro, todos os temos, sejam biológicos, psicossomáticos, simbólicos ou todos juntos. Mas agora, falo daquele que me toma de forma mais agressiva e, por isso mesmo, tão incômoda. Começou amenizando outro vício simbólico que somatizou e agora é biologicamente evidente.

Quisera eu, meus vícios fossem novamente a natação, o samba, o leite condensado e a banana quente com canela. Seriam também subterfúgios para burlar a ansiedade, mas deixar-me-iam mais leve.

Mas, sem ele, torço para que as horas passem rápidas, para que meu dia termine, minhas angústias se findem e o tédio descanse em uma boa noite de sono... se não sofresse também de insônia aguda. Não. Crônica. Nem sei mais.

Não posso mais enganá-lo. Já não sinto mais o mesmo carinho por ele. Minha forte ligação não passa agora de dependência. Depois que me flagrei num vulgar triângulo amoroso, onde o abatimento físico e moral (enquanto continuar a profanar* tal possibilidade, sinto-me um pouco mais distante dela) tenta, constantemente, se tornar íntimo de mim, sentí-me traída por ele. Mas admito minha parcela grande de culpa. Mas recuso-me a carregá-la sozinha. Meritocracia nua e crua, não! Para nenhum dos pólos, seja o positivo ou o negativo. Continuo a acreditar numa teia de processos que são urdidos de forma mais complexa.

Fato é que não consigo mais controlar a falta que sinto do meu “racumim”, “minha ração”, a “flocx” ou meu “remedinho da felicidade”, como chamava, carinhosamente, meu ansiolítico oficial – a Fluoxetina.

Mas repito: “Estou uma viciada”. Porque desafio qualquer um a apostar comigo que, aqui, o verbo “to be” não caberá nunca. Pelo menos, na sua forma mais plena.

* no sentido de tratar com irreverência

Por Elga Arantes, 2008
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quarta-feira, 9 de julho de 2008

A arte de não ouvir.



Hoje estive pensando na força quase que inexplicavelmente avassaladora das palavras e seus infinitos recursos e coajuntos na arte de divagar ou, simplesmente, dizer alguma coisa. (o post abaixo ilustra bem isso)

Nada mais singelo e eficiente que a inveterada fala do cômico personagem Chaves para esclarecer uma frase dita leviana e displicentemente e, ainda, paradoxalmente proferida de forma totalmente inócua do que: “Eu só quis dizer”.

E eu disse "sem querer querendo", mas falei. E quando isso me ocorreu, esperei um doloroso - e me defendo, não merecido - “soco na cabeça dado pelo Sr. Madruga”. Contraditoriamente, o que recebi foi o silêncio. O nada. O vago. E eu... não soube lidar com tamanha repreensão. Aquilo foi pior que uma resposta furiosa. Insisto, mesmo que minha ofensa não tenha sido intencional.

Fez-me então pensar sobre duas situações: primeiro, na real isenção de intenções e sentidos em nossos discursos. Depois, me fez pensar sobre o poder das palavras silenciadas. A recusa da recompensa. A força da omissão.

Penso que não existe discurso e palavra se sua existência não for legitimada pelo reconhecimento de pelo menos um ouvinte ou um leitor. Sendo assim, ao receptor chegam as informações e alguma coisa é feita com elas. A decodificação de tais sinais, sua interpretação, provoca sentidos e sensações. O que vai se distinguir nesse processo é a natureza e a intensidade de tais sentimentos e significados.

Finalmente, depois de tal experiência, me dei conta de que sou responsável pela produção do que falo e do que escrevo já que me é consciente que elas terão um destino, seja ele qual for. Sempre haverá, pelo menos, um interlocutor, um ouvinte, um leitor. Quero dizer com isso que minha despretensão ou displicência não me imuniza das responsabilidades produzidas por tais atitudes.

Sobre o incômodo silêncio recebido, nada teria sido mais cruel. Uma resposta rancorosa e magoada me ofereceria a cômoda posição de retrucado e, também, difamado. Mas aquele silêncio foi a recusa do meu direito à redenção. Foi como se me oferecesse a outra face e eu, como um bom covarde, dispensei. Pior para mim. Ali, me tornei um nada maior ainda – mas nada não é mensurável. Ou é? - Nem mocinho, nem vilão.

Como aquilo doeu! Uma dor sem graça. Pudera, nunca soube mesmo lidar de forma original com a indiferença.

Naquele episódio, foi como se a vida me dissesse: “Agora, agüenta!” E eu agüento! Afinal, mesmo que me tire do eixo, sempre me dispus a agüentar as conseqüências e a reformular meus conceitos. E sem prazo de carência algum.

Falando nisso, preciso repensar o “NADA”...

Por Elga Arantes, 2008.

O Direito ao palavrão


Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem, com a maior fidelidade, nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português vulgar que vingará plenamente um dia. Sem que isso signifique a "vulgarização" do idioma, mas apenas sua maior aproximação com a gente simples das ruas e dos escritórios, seus sentimentos, suas emoções, seu jeito, sua índole.

"Pra caralho", por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que "Pra caralho"? "Pra caralho" tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende? No gênero do "Pra caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "Nem fodendo!". O "Não, não e não!" e tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, absolutamente não" o substituem. O "Nem fodendo" é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo "Marquinhos, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!". O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio.

Por sua vez, o "porra nenhuma!" atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a gravata daquele chefe idiota senão com um "é PhD porra nenhuma!", ou "ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma! O "porra nenhuma", como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos "aspone", "chepne", "repone" e, mais recentemente, o "prepone" - presidente de porra nenhuma. Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "Puta-que-pariu”, ou seu correlato "Puta-que-o-pariu!", falados assim, cadencialmente, sílaba por sílaba... Diante de uma notícia irritante qualquer um "puta-que-o-pariu!" dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.
E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu!". E sua derivação mais avassaladora ainda: "Fodeu de vez!". Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? "Fodeu!". Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"? O "foda-se!" aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta."Não quer sair comigo? Então foda-se!". "Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!". O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição Federal. Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se! Grosseiro, mas profundo... Pois se a língua é viva, inculta, bela e mal-criada, nem o Prof. Pasquale explicaria melhor. "Nem fodendo..."

Por Luís Fernando Veríssimo

terça-feira, 8 de julho de 2008

Que Mário????


Achei já ter ouvido de tudo. “A cerveja tava quente”; “O wisky era falsificado”; “O morango do espumante tava esquisito”; e até a inesquecível: “Foi a azeitona da empada”. Mas, realmente, a criatividade dos meus amigos ultrapassa qualquer previsibilidade. Gritaram quase que em coro: “A culpa foi das máscaras.”.

Foi uma festa muito boa. Aliás, arriscaria dizer que foi uma festa memorável ! Para alguns, porém, a explanação deveria mesmo ter o adjetivo “memorável” trocado pelo seu antônimo mais fiel: IMEMORÁVEL. No significado literal mesmo, de um acontecimento “de que não se tem lembrança”.

Alegam não lembrar de mais nada, após colocarem as tais máscaras. Interessante ressaltar que no teatro grego tais peças eram usadas com objetivos diversos, dentre os quais, acho que cabia na ocasião daquela festa, principalmente, dois: diferenciar sexo e idade e permitir a execução de mais de um papel pelo mesmo ator.

(...)

A leitura é linda porque cabem infinitas interpretações. Interpretem, pois.

E eu, no meu cômodo lugar de autora, prefiro dessa vez, nem mesmo fazer insinuações metafóricas. Mesmo porque, estive lá também. Usei uma máscara. Todos viram. Até fotografaram. Inegável.

Sobre ter sido mais de um personagem, talvez. Não me lembro. Nessa hipótese, apenas um se manifestou nas resenhas ocorridas. E esse, o que se manifestou, alega lembrar-se de tudo. Menos dos outros possíveis papéis representados. O que já é um esquecimento...

Festinha “imemoravelmentememorável!

Lembrei-me! Houve quem perguntasse, não lembro quem: “A Luana esteve na festa? Não estou me lembrando...”

Quanta palhaçada!!!

Por Elga Arantes, 2008.