
A moça foi crescendo e com ela sua vontade de ser mais, depois de ter mais. Quis viajar mais, falar outras línguas, ir mais ao cinema e ao teatro, ter um carro, apartamento, emprego que a realizasse (!), ler muito mais, saber muito mais, dançar mais, ter mais amigos, amores, ganhar flores todo o aniversário.
Passou a exigir ainda mais de si mesma, sair do Brasil ao vinte anos, trocar de carro todos os anos, ser promovida em menos de um ano, discutir Nietzsche e qualquer outro autor de nome imponente. Flores passaram a ser ridículas quando ganhadas nas datas convencionais.
Essa mulher foi se esquecendo do cinema e do teatro, da realização pessoal na vida profissional. Deixara o ballet há tempos e começou a receber a visita de seus amigos no portão, rapidamente, para entregar o convite de chá de panela, chá de bebê, casamento, batizado, aniversário. E ela ainda não falava inglês. E já estudara muito, já mudara de prédio na universidade quatro vezes.
Peecebeu noutro dia que o chavão “tempo é dinheiro” era uma farsa, posto que nem andavam juntos.
Mas também concluiu que fortalecera os laços de família e ampliara sua lista de amigos fiéis. Que aprendera a falar a língua que a permitia se entender com Alice e Olívia em dias de TPM. Que ballet era bonito, mas que samba era libertador. Que havia tido mais de um amor de verdade, algumas paixões avassaladoras e quem a amasse de verdade pelo menos uma vez. Que ainda não saira do Brasil porque agora já era mãe e não havia melhor viagem que essa.
Desistiu do dinheiro para tentar ganhar mais tempo, na esperança de que com tempo pudesse juntar o dinheiro necessário para que não precisasse mais pensar em dinheiro. Desistiu de novo...
Concluiu que invenções humanas eram realmente imperfeitas. Optou por dar prioridade as “invenções” da suposta providência divina: ao Mel que tem as amizades e os sentimentos que faziam seu coração bater mais devagar, mais compassado, que lhe dessem o oxigênio necessário – para o corpo e para a mente.
Reformulou seu conceito para a palavra "basicamente".
Uma outra vez era uma "menina" que achava que tinha tudo que precisava.
Por Elga Arantes, 2008.
“Mamãe, sabe de uma coisa... (?) Você é feliz!”
Mel, aos 2 anos e 4 meses.









