sexta-feira, 28 de novembro de 2008

"Pra sinalizar o estar de cada coisa."

As Duas Fridas, de Frida Kahlo (1939)

“Então chega o dia em que você abre a porta e sente um cheiro estranho. Vem aqueles sentimentos que esquecemos no fundo e agora se rebelaram em forma de mofo, contaminando as roupas limpas que haviam por cima, algumas até com cheirinho de amaciante.”
Michele Cohen (Sblogonoff)


- Posso abrir essa maionese, ou você comprou para alguma receita, em especial?
- Não... Pode comer à vontade.

Esse mesmo diálogo poderia parafrasear, de maneira simbólica, tanto a ficção (primeira intenção, ao começar esse texto), quanto uma tentativa de expurgo. Até que, lendo a reflexão do senhor dos “Meus anos incríveis”, percebi se tratar de reles entaramelação. (Palavra engraçada, né? Aprendi hoje!). Dizia ele que "Na ficção, os erros dos personagens são sempre culpa nossa. E algumas vezes, é melhor mesmo a culpa ser nossa, porque daí colocamos em quem a gente quiser. Se a culpa é dos outros, só resta sentar e chorar.". E eu, que não intento mais cruzar os braços e fugir das responsabilidades, decidi assumir as minhas.

Pensando nesse comprometimento, encontrei, entre as “Coisas da Bel”, algo que me alertou de forma sutil e discreta sobre a altivez de não responsabilizar o outro por nossas próprias atitudes; sejam elas corretas, ou nem tanto.

Assim, registro, aqui, um quase relatório terapêutico. Auto-análise? Nem tanto; nem Freud; “nem morta!”. Automedicação, talvez.

Certo é que, primeiro, senti-me injustiçada pelo mundo. Depois, critiquei a pouca compreensão das pessoas mais próximas. E, por fim, lancei mão da minha insatisfação usando-a como instrumento para uma tentativa frustrada de legitimação do meu mau-humor e da pouca gentileza que tenho tido com minha própria mãe. Minha genitora, minha companheira. Quantas reencarnações tornar-se-ão necessárias para expiar nossas diferenças, apesar da existência de tanto amor desmedido? Muitas menos, não fosse minha pouca ou nenhuma vigilância.

A providência, através de advertências intermediadas por pessoas tão íntimas como minha irmã terrena, além de me sugerir pequenas delicadezas, conseguiu me atentar para a necessidade de aprimorar o tratamento oferecido a quem me oportunizou a jornada maior.

Disseram-me, certa vez e de forma indireta, como que em “PalavrAvulsa”, que a “elaboração do dilema já dá certo alívio”. Sinto na pele, essa verdade. Aguardo, então, o progresso evolutivo do consolo à plenitude. Claro, com muito trabalho e resignação.

Minha mãe, a verdadeira mulher guerreira de sessenta anos de idade, que trabalha de sol a sol “batendo volante” (sem direção hidráulica ou ar condicionado); que enfrenta a reposição hormonal compulsória pelo início da osteoporose e mesmo assim sobe e desce escada e escala rampa o dia todo, e que ainda faz questão de divertir a neta; que chega em casa com o coração exaltado e as pernas bambas, lembrou-se de passar na padaria e trazer um vidro de maionese só porque eu gosto.

Obs.:
1) Karen, sempre me lembro de você falar da sua mãe, da sua história tão peculiar com ela e de como a relação de vocês mudou, depois da Valentina!
2) Ainda me perguntam porque gosto tanto desse “Reino” e das pessoas que nele habitam.
3) Minha mãe ODEIA maionese.

Por Elga Arantes, 2008.

 Adriana Calcanhotto - Esquadros

10 comentários:

Fernanda Matos disse...

Belíssima reflexão...

Bel disse...

Ai...que assim eu compro um caminhão inteiro de maionese e peço para o Papai Noel te presentear...porque fostes uma bela menina! És uma bela menina!
Tens tanto pra dividir e ofercer ....tanto! Bom saber que de vez em quando eu te digo algumas coisas sussurradas em teus ouvidos, e melhor ainda, é saber que me ouves!!! Que me guardas. Eu te aguardo.
Nesse ano (que quase já se finda) fostes uma das minhas melhores surpresas. Tenho-te acarinhada e guardade dentro de um lindo pote (tipo conserva, sabe?) mas que é enfeitado com laços de fitas bem coloridas.
Adorei o texto e a tua tentativa de reaproximação afetiva. Sempre vale à pena! Sempre valerá.
Um beijo , querida Elga.
Sininho.

Anônimo disse...

LINDA,

ADOREI SEU BLOG.
LI VÁRIOS. FIQUEI AQUI MAIS TEMPO QUE EU QUERIA E QUANDO PAREI, TINHA MAIS ESSE.
VOCÊ É LOIRA MAS ATÉ QUE DÁ UM CALDO.
BRINCADEIRA, NÃO PRECISA APELAR.

VAMOS MARCAR QUALQUER COISA DEPOIS.

BEIJOS, FERNANDO.

Karen disse...

É minha amiga, as coisas são bem por aí mesmo. A gente nunca presta muita atenção nelas, joga a culpa de nossas frustrações nelas, e são sempre elas que nos amam incondicionalmente e nos dão colo. Mas, mães são humamas e também tem o direito de errar né?
cada dia que passa faço mais questão de demonstrar o quanto amo a minha e garanto que com as demonstrações mais frequentes a eralção melhora mais.
Amor de mãe dói. Não quero que a minha sinta nada parecido com o que senti. E penso que se um dia causei isso a ela agora tento evitar.

bjs

sblogonoff café disse...

Com certo espanto...
*
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Considerando a idéia de que nada acontece por acaso, não fica difícil entender porque os sinais virtuais também influenciam a realidade concreta. (Como se tudo não fosse real...)

Você, vê, que nem tudo é perfeito, é por isso que estamos aqui. Esse processo de assumir as responsabilidades é libertatório. Nossos grandes mestres não são aqueles que possuem a calma, a serenidade e a beleza, munido de lições e palavras bonitas... Não. Nossos grandes mestres são aqueles que fazem vir a tona nossas características indesejáveis (por nós mesmos) para que à luz, possamos transmuta-las. É aquele que sendo diferente de nós, nos testa a paciência,a tolerância, a capacidade de amar, a capacidade de perdoar, e a capacidade de se revelar. Esses são nossos mestres.
E devemos nos considerar sortudos pelas vezes em que esses mestres nos surpreendem com pequenas grandezas!!! O mundo é "mara", Coração!
E como sabemos, a família é o melhor núcleo para que possamos desabrochar, afinal, "acaso" só acontece quinta à noite, depois da Grande Família!! Família!!hehehe

Um abraço!

Biana França disse...

Amei! O texto, a idéia e o entendimento do seu dilema!
Ah, eu tbm amo maionese!
Bjus.

Samia disse...

Só hoje fui ler esse post, acredita?
O telefone tocou na hora que estava lendo sobre "as advertências intermediadas" e eu atendi dizendo: "Gerência de Cultura, bom dia" (com a voz engasgada)...Foi aí que percebi que eu estava emocionada em saber que as minhas "advertências" contribuem para que você reflita sobre o valor da nossa mãe.

Bel disse...

Cadê você?
Sinto tua falta!
Que lindo o que a Samia te escreveu!!! Cheguei a me emocionar.
um beijo, Sininho

Elga Arantes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Elga Arantes disse...

Bel,

"A alma da gente, como sabes, é uma casa assim disposta, não raro com janela para todos os lados, muita luz e ar puro. Também as há fechadas e escuras, sem janelas ou com poucas e gradeadas, à semelhança de conventos e prisões. Outossim, capelas e bazares, simples alpendres ou paços suntuosos."

Tenho sido todas elas, em breves espaços temporais...

A golpes de "Machado", "Assis" me sinto!