domingo, 7 de setembro de 2008

Um primeiro (re)passo.

_ Oi! Acho que você foi minha aluna no colégio, qual seu nome?
_ Sério!?

Ela continuou suas interrogações e exclamações apenas em pensamentos. “Como não me lembraria de um professor desses?”.

_ Renato, professor de educação física, lembra?
_ Ah, sim! Agora me lembrei...

Balela! Lembrava nada. “Se eu tivesse um professor daqueles na época de colégio, não teria detestado as aulas de educação física.”, pensou. “Será que eu pisquei na hora?”. Para ela seria a única explicação para que tivesse passado despercebido um homem daquele. Não tê-lo enxergado.

Depois de ele comentar, com tom de pergunta, que só não lembrava qual era o nome dela, esta respondeu já emendando uma pergunta, caso ele quisesse escapar. Ele respondeu que sim, ainda era professor. Por amor à profissão, gostava demais de lecionar, mas também tinha uma loja de produtos esportivos para uma “melhor qualidade de vida”, e sorriu. Deveria ser ‘garoto propaganda’ de comercial de pasta de dente. Era tão simpático quanto bonito.

A partir daquele momento, principiaram um bate-papo informal com perguntas dissimuladas da parte dela e, possivelmente, da parte dele também. Souberam ter algumas coisas em comum como filhos e um casamento finalizado. Gostou quando ele não usou a palavra fracassado para se referir ao passado.

Pelas suas contas, ele deveria ter por volta dos quarenta e cinco anos. Mas suas pernas bem definidas e a ausência da barriguinha proeminente quiseram desmenti-lo. A conversa já havia se estendido quando arriscou dizendo que iria sair do sol, pois estava muito quente. Ele concordou e a convidou: “Eu estou com uma mesa logo ali, você toma um suco comigo?”. Bingo! Suco de laranja para ele, água gelada e sem gás para ela. Depois um tira gosto e gargalhadas como sobremesa. A voz forte e a maneira firme de pronunciar as palavras foi o que mais lhe chamou a atenção. Ele também olhava nos olhos e quase não se distraía com nada ao seu redor. Não usou frases batidas que ela já se cansara de escutar e não parecia querer mostrar o que não era, como acontece normalmente. Também não usou desculpas esfarrapadas para pedir que se encontrassem mais uma vez, quando ela anunciou que iria embora. “O sol já está fraquinho...”. Trocaram os telefones e mais alguns olhares.

Julgou que o charme sem limite nos gestos e atitudes que aquele homem teve com ela foi o que a envolveu de forma tão substancial. Ele a acompanhou até o carro e lhe deu um beijo. No rosto. Ela gostou. Tinha certeza que teria sido correspondido caso houvesse arriscado beijar sua boca. Mas não o fez. Como ela, talvez ele também acreditasse que seria mais interessante prolongar a espera. Ele soube, e provavelmente sem intenção, como mexer com aquela mulher e comover seu ceticismo.

Depois que arrancou o carro, ela pensou que talvez já estivesse muito entusiasmada por aquele homem, quando recebeu uma mensagem em seu telefone. “Esqueceu seus óculos comigo. Devolvo no nosso encontro na quarta-feira, pode ser?”. Achou que quarta-feira estava longe, depois riu de sua ansiedade pueril e, por isso mesmo, tão deliciosa de se experimentar. Respondeu que sim. Logo em seguida, o telefone toca. Atendeu afoita, certa que seria ele novamente. Viu pelo identificador que não era. Resolveu não atender. Sabia que aquela empolgação era efêmera e aquela ligação poderia roubar-lhe a sensação de estar novamente apaixonada.

Por Elga Arantes, 2008.

15 comentários:

Anônimo disse...

hummmmmm

Ela disse...

Ei Elga! To sentindo falta de passar aqui e ler seus textos! Minha vida está uma correria só... mas sempre que dá, tiro um tempo para vir.
E confesso que pude até sentir o friozinho na barriga, típico dos apaixonados hehehe
Beijos,
Luiza

taderbal disse...

me deu 1 friozinho na barriga

Bel disse...

Olha só! Esse enredo só evidencia que na vida sempre há possibilidades, não é? Esse descompasso compassado parece obra engendrada por quem te quer bem ... os(as) daqui e os(as) lá (de um outro lugar que nem sei bem qual é, mas que existe).
Se for um fato verídico ... foi um lindo encontro: sem rodeios, lúdico e possível.
Torço daqui, pra que ela se deixe conduzir...
Um beijo,
Bel.

Elga Arantes disse...

Hummmm... friozinho na barriga!

Bel, foi mesmo um lindo encontro, aliás, um confronto. Coloquei meus devaneios cara a cara com meus medos. É uma verdade que desejo para mim. Acredito que a vida também possa imitar a arte. E esta pode surgir de minúsculos fragmentos do nada, não é? Uma conversa de dois minutos foi o fio que eu precisava para fazer arte. Arte no sentido de lambança, já que ficou parecendo que contava um episódio da minha vida, na íntegra, rs. (aqui, o alucinógeno foi a vontade, por isso, por demais psicodélico!)

Aos demais, isso não é um diário!Nem sempre quando escrevo, aliás, quase nunca sei o que é real e o que não é. Os nossos próprios sentimentos no mesmo momento em que são...ops, já eram!

Beijos.

Bel disse...

Ai...eu bem suspeitei que essa psicodelia toda me levaria a uma confusão primária. Talvez... motivada pela vontade de ti ver encantada novamente. Talvez por acreditar no amor. Talvez por pensar que a qualquer segundo tudo possa acontecer. E desejar ...
De toda forma...tua arte me fez bem...te fez também.
Que tua arte contamine a vida ...se espalhe e permita que a mágica aconteça pra além de dois segundos.
Um beijo, querida.
Bel.

Sheyla disse...

Minha humilde sugestão para um primeiro (re)passo: pegue a razão de uma forma precisa e tente lançá-la para longe, bem longe de ti, heim? E viva "os devaneios de um caminhante solitário".

Samia disse...

Por falar em matemática (post anterior)e encontros românticos...

Poesia Matemática

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
“Quem és tu?”, indagou ele
em ânsia radical.
“Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

Millôr Fernandes

Patrícia Ferraz disse...

Atender ligações que nos remetem ao passado realmente nos tira o gostinho da suspensão no tempo que uma paquera inesperada proporciona... tive um post assim, lembra? rs

Tomara que o saradão inteligente seja ainda mais interessante do que pareceu à primeira vista! Vc merece sair da "solidão do desamor" (esse termo usei num post antigo tb. lembrei-me dele porque é exatamente o que a Michele disse, né!).

Aliás, acho até que vc não está na solidão do desamor. Porque esse sentimento, como mãe, vc esbanja! Então, está muito bem e docemente acompanhada por um favo...

Obrigada pelas palavras. Ainda não tenho um apartamento, mas se vier visitar a cunhada, não se esqueça de mim!!! :P

Beijo.

Karen disse...

Homem maduro....ehhh delícia!! Adoro quando não existem joguinhos e coisas do tipo. Adoro pessoas assim.

Olha, estou pulando de alegria por ela, quem quer que seja a felizarda!!!!!

Samia, vc aqui!!!!

Estou com uma saudade danada de vcs já!


bjs

Elga Arantes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Elga Arantes disse...

Mas eu acredito no amor, Bel. Meu medo é que ele não creia em mim novamente.

Ih, Sheyla, se ficar ainda menos racional, vou pra Morro vender sanduiche natural pra viver...

Pati, não encontrei no seu blog os posts que comentou. Lembra o nome dos dois? Queria ler, ou melhor, reler, já que já li todo blog de cabo a rabo, há algum tempo.Gosto de ler textos que falam de sentimentos comuns. Já tivemos algumas surpresas, não?!

È assim que gostaria que acontecesse comigo, Florzinha.kkkkkkkk. Mas, na verdade, foi um reecontro educado entre ex aluna e ex professor. Daí, quando ele saiu, pensei: "Meu número". Depois pensei um pouc além e postei, rs.

Esse texto do Millor é show, Samia!

Beijos.

Bel disse...

Mas eu sei que acreditas, Elga. Acredite, sei sim! Pela forma que rediges, tenho certeza disso. Porque ainda me visitas e me entendes por lá, também.
E tenha certeza que ele acreditará em ti como nunca antes acreditou.
Verás, veremos.
Um beijo,
Bel.

Patrícia Ferraz disse...

Bom, sobre a paquera inesperada é "Hipnose": http://palavravulsa.blogspot.com/2008/05/no-queria-ter-perdido-aquela-impresso.html

O outro, não achei. Agora fiquei até meio em dúvida se me confundi...

sblogonoff café disse...

Ai, ai, ai!!!
Sabe, eu acho que os inícios às vezes são a melhor parte dos relacionamentos!
A conquista, a ansiedade, o frio na barriga, os beijos de disparar o coração...
Eu ia dizer mais ocisas, mas deixa assim, como um caramelo que você começa a provar!!
Bjs!!!

Obs: eu quero tanto um professor de educação física de pernas e barrigas saradas e quarenta anos!!!
E que toma SUCO DE LARANJA! rsrsrs