quinta-feira, 17 de julho de 2008

Um primeiro ensaio para explicar como nasce o amor.


A primeira coisa que chama a atenção nela são os olhos. Olhos grandes, enormes! E eu, quando do seu nascimento, só queria saber se tinha as adoráveis anomalias nas bochechas.

Através do vidro eram outros os olhos que me observavam. Não eram grandes. Aliás, a expectativa podia ser percebida naqueles olhinhos quase orientais, apenas pela singularidade do momento. Era a primeira neta. Sua expressão era, inegavelmente, de alegria. E deve-se observar que o instrumento que tal sentimento tinha para se fazer perceber era aquela boquinha apertadinha de sempre. Característica de quem acha que é atrevimento de mais escancarar um sorriso largo. “É quase uma ofensa”, imagino que ela deva pensar.

E foi só ali, pelo vidro, que reparei pela primeira vez que ela também tinha covinhas. E eu, contabilizava. Ela tem duas. Discretas, mas tem. Eu tenho uma do lado esquerdo que só dá o ar da graça quando mordo os lábios ou os recolho para aquele mesmo lado, numa expressão de reprovação. Pena! Queria que fosse num sorriso, como é com o futuro-bem-próximo-papai. Aliás, nele, aparece quando ri, quando chora, quando come, quando molha os lábios com a língua, quando assobia e até quando faz “tsc, tsc”. Ali, na sala de parto, então, elas teriam roubado a cena, se não fosse ele o cinegrafista do evento. Concluí: “É, a chance é grande”!

Por alguns momentos, com sensação de eternidade, esqueci-me de tanta besteira. Ela chorou. Ela... Existia um novo “ela” no mundo, e trazida por mim. Um novo alguém, nascia a Mel, a Mel que foi sempre Mel. Que não mudara de nome nem uma única vez. Ela, a Mel, a Mel, a Mel... quantas vezes ainda não repetiria esse nome em variadas entonações... Bem, ela chorava berrando e eu chorava baixinho, tímida de minha nada original atitude. Quantas vezes aquele médico já observara tão intimamente a maior demonstração de emoção do ser humano em sua vida? “Era um ser privilegiado! Se bem que deve até banalizar. Ainda bem que não sou médica!”, pensei mais outra vez, sem dividir com ninguém minhas descobertas relâmpagos e completamente desordenadas.


Seu choro ficava cada vez menos rouco e mais forte, mais exigente. Ela devia ser como eu. Já odiava acordar cedo. Seis horas da manhã, ainda é madrugada pra gente né, filha? FILHA. É, minha filha nasceu. Gustavo, nossa filha nasceu. Mundo, essa menininha de olhos grandes - e, claro, com duas covinhas fundas na bochecha - quem vai criar para você sou eu!

Por Elga Arantes, 2008.

Esse texto foi feito há muito tempo atrás, achei-o ontem em meio a minha insônia. Pensei em reformá-lo, mas, agora, pensando bem, correria o risco de fraudar as emoções mais genuínas daquele momento. Outros ensaios, certamente, virão.

7 comentários:

sblogonoff café disse...

Ei!
A propósito, quem serve o sblogonoff é uma garota (da terra do quase nunca!) chamada Michele.
Essa que vos escreve!

***
Quanta ternura nesse post!
Quanta benção em se investir dos poderes da natureza e criar também, gerar e trazer à luz!
Acho tudo isso muito belo.
E os sorrisos também são belos, com ou sem covinhas e acho que existem para iluminar escuridões!

Um dia o meu também virá, e já tem nome desde sempre... se for menino, Santiago, se for menina é minha Flor!

Ai, ai!!!

Patrícia Ferraz disse...

As sensações parecem ser deliciosas... Confesso que tenho um pouco de receio da maternidade, talvez porque ainda não tenha chegado a hora!

Michele, adorei os nomes, mas vc já consultou a opinião do pai? rs

Beijos, meninas

sblogonoff café disse...

Primeiro eu tenho que encontrar o pai, né?!!
Depois, se ele não concordar, faço o que fui treinada pra fazer: persuasão!
Se não funcionar, vem a decisão democrática: Você escolhe o nome do segundo filho, meu bem!!Rs

Karen disse...

É, concordo com você, quando elas choram a gente chora junto. Logo em seguida, vem aquela pergunta "Como pude existir até hoje sem essa pessoinha?"
Eh um amor mais que incrível, nem a palavra condicional alcança tamanho amor.
MELHOR COISA DO MUNDO!

Samia disse...

Arrepiei e engasguei.

Avânia disse...

Você só não persebeu meus olhos de pesquisa. Será que ela é perfeita?
(Enfermeira, o que são essas manchas brancas na testinha dela?)
Essa foi a quarta menina a qual eu esperei com ansiedade, o seu nascimento, pra ter certeza que não tinha nenhum defeito físico.

Anônimo disse...

Nada como um olhar de uma mãe...
Lindas palavras Avânia...
A espera da quarta menina...